domingo, 11 de outubro de 2015

A ABDUÇÃO DE LOVECRAFT!



Durante o sono, sinto uma dor aguda no crânio como se uma sonda estivesse me perfurando. Arrebata-me uma lisérgica sensação de transporte que mais tarde supus ser uma abdução (Originariamente um tipo de raciocínio lógico onde saltamos a premissa menor, transportando-a diretamente para conclusão);

logo encontrei-me em uma sala de arquitetura futurista com detalhes mirabolantes. Toda a minha atenção concentra-se em um senhor vestido de branco cintilante e seu assistente que me imobilizava em uma espécie de poltrona cirúrgica reclinável. O senhor de branco, com úmidos e longos cabelos violáceos, se aproxima e diz sem mover os lábios: ...Queremos a sua vida e para isso é preciso que você se suicide! ... O terror me assalta e tento fugir da poltrona. Ele prossegue: ... Não faça uma tragédia. Mostrá-lo-ei sua vida por um ângulo desconhecido. Duvido que depois você queira viver...talvez até nos agradeça..., dizendo essas palavras, que reverberavam em dores agudas na minha mente, ele fez um sinal com a face e então encontrei-me outra vez em minha cama, semi-adormecido, como se houvesse cruzado as fronteiras de um pesadelo. Não havia. Senti minhas forças esgotadas feito um moribundo e, sob meus sonolentos olhos, vi desfilar cenas inteiras da minha vida: somente os maus-encontros, as traições, as horas mortas eram focadas nestas visões. Um tom cinzento assinava todas as imagens como o estilo de u`a mórbida inteligência a montar um perverso filme. Uma náusea invadiu-me as vísceras. 

Adormeci e de novo encontrei-me na poltrona do homem de branco: observei melhor o espaço ao meu redor e tive a sensação de estar no interior de uma obsoleta nave semelhante às de Flash Gordon ou Buck Rogers. O estranho aproximou-se com uma navalha nas mãos e como a personificação do meu destino. Segurou-me o pulso e ouvi seu discurso prosseguir como se além do espaço-tempo estivesse... Então, agora que já conhece a verdadeira versão de sua vida, a ignomínia do seu estigma, você ainda quer viver?... Depois, sorrindo, aproximou a navalha do meu pulso e formulou...Quer uma ajuda a por fim nisso tudo?... Banhado em suor, eu respondi: 

_ Por mais insignificante e obscuro que seja, eu a quero! Trata-se da minha vida e dela eu não abro mão!

Eu estava furioso e emocionado. O inconsciente, ao mesmo tempo ator e espectador, talvez tentasse atenuar o clímax trágico com a comicidade das minhas bravatas e heroísmo; supondo, quero crer, tudo não passar de um pesadelo! No painel da sala havia uma tela onde o filme da minha vida continuava monótono e melodramático. Mal pronunciei minhas heróicas palavras, uma policromática cintilação vazou pelas imagens estourando a iluminação. O estranho, furioso, desistiu do seu projeto. Soltou as amarras da poltrona e voltou-se para um oblongo computador sem dar mais, aparentemente, nenhuma importância à minha presença. Na tela havia agora um arquivo com a minha foto e diversas informações a meu respeito. Copiou este arquivo em uma pasta ao lado de outro que pude ler antes de tudo se estiolar em irisados grãos de luz e calor. Tratava-se, recordo bem, de uma erva do cerrado conhecida vulgarmente como "Comigo-ninguém-pode", nome assim lhe atribuído graças ao seu obstinado esforço em perseverar na existência. 

Acordei definitivamente em minha confortável cama e fiquei por um tempo ali pensando nesse sonho estranho: Esse alienígena deve ser muito evoluído, tão sofisticado são os seus poderes mentais, mas deve também, à sua maneira, ser muito idiota para fazer uso de taxionomias tão simbólicas e analógicas...! Pelo visto, ao refletir assim, eu não acreditava, naquele instante, ter sido tudo apenas um sonho. É que demoramos um pouco para acordar de uma vez!

POS-SCRIPTUM: ... Pela manhã encontrei no assoalho algo parecido com uma folha de papel, feita de um indescritível material, preenchida com vagos apontamentos. Era a minha caligrafia, extremamente distorcida como se escrita sob intensa pressão psicológica. 

Provavelmente copiei algumas informações dos vastos arquivos disponíveis na interface digital, mas não me recordo de nenhum detalhe que possa ajudar na interpretação do fragmento; tratar-se-ia da espécie que me cativou em sua nave ou se de outros alliens por eles pesquisados? Publico-os na esperança de que outros abduzidos os reconheçam e informem às autoridades:

OS EREWHONIANOS: Raízes dos cabelos interligados com os nervos mandibulares; o que constitui o ponto fraco dessa espécie: puxar os seus cabelos provoca-lhes insuportáveis dores de dentes e cáries culminam em queda de cabelos. Poderosa digestão. Substâncias extremamente corrosivas no trato intestinal; quando defecam, as fezes corroem o solo abrindo covas de meio metro de profundidade, aproximadamente. Alimentam-se de olhos de moluscos, de crustáceos e de humanóides. Possuem dentes incrustados ao longo do intestino favorecendo a extração dos olhos na caixa craniana, pois costumam engolir a cabeça de suas vítimas. Durante o coito, no orgasmo, as fêmeas eriçam os pelos pubianos, rígidos como espinhos de ouriço. Os machos jovens, que não possuem a técnica de evitar o orgasmo das fêmeas, tem a pélvis perfurada e crônicas torturas causadas pelos fragmentos de pelos quebrados que se inflamam sob a pele. Os traços fisionômicos assemelham-se aos dos caprinos, olhos de cor violeta e os cabelos sempre umedecidos por secreções do couro cabeludo, ou por saliva que lhes sobem pelos dentes cariados. Entram em pânico quando encontram um ser humano se masturbando e masturbar-se na frente de um deles é a melhor maneira de subjugá-los. Veneram uma divindade cínica chamada HATMARICOI.
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