quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

O CÃO DE H. JAMES ou Estudos de Psicologia Animal

 

     


      Na  pequena e triste Alvorada, cidade encrustada como um rochedo na Serra do Marçal, vivia o renomado coletor de impostos Dr. H. James, advogado por correspondência – formado por uma destas obscenas faculdades do interior que enviam pelos correios as provas dos alunos junto ao “carnet” de pagamento.  H. James era um típico provinciano cuja ausência de mundanidade havia comprometido o desabrochar de um inato e agudo senso de observação. Gostava de ler as obsoletas enciclopédias compradas nos sebos da capital e de dar longos passeios pelas ruas do lugar com o seu cão de uma desconhecida raça, na verdade um cão perdigueiro que após longas gerações de vida sedentária havia perdido a ferocidade e o faro. À exemplo de um famoso filósofo de Könisberg, muitos moradores acertavam os seus relógios pelos elegantes passos de H. James nas ruas de pedra e becos descalços. A solenidade de seus passeios encontrava, na secreta intimidade do seu coração, uma motivação de ordem moral: H. James possuía a insólita crença de haver em todos os animais, da mais infusória bactéria ao mais ostensivo paquiderme, uma alma de origem divina inspirando-lhe, entre outros sentimentos, uma efusiva cordialidade e um afetado respeito por tudo que rastejasse sobre a terra, deslizasse sob as águas ou voasse pelos ares. Era vegetariano e não os criava em cativeiro. Em épocas remotas a sua crença poderia passar como um tipo de santidade, como Francisco de Assis entabulando diálogos com os pássaros; Hoje em dia, H. James talvez fosse aclamado como um ecologista iluminado, mas vivendo no auge do mecanicismo e das ciências positivas os seus sentimentos seriam julgados como aberrações de um romântico desmiolado; assim, o segredo. A ninguém ele revelava o tema de suas ruminações literárias: um ensaio sobre o pensamento dos animais, suas regras e faculdades.

   A meticulosidade dos seus hábitos ultrapassava o ritmo dos seus estudos, do seu trabalho e dos lendários passeios pela cidade. O seu despertar, por exemplo, era um minucioso ritual decomposto em inúmeras e distintas particularidades: o barbear-se com volumosa espuma e coruscante navalha, o prestidigioso nó na gravata, o café sorvido em cinco longos goles, o exame dos papéis dentro da pasta e o beijo na foto de sua falecida esposa, tudo isso repetido todos os dias como uma imagem móvel da eternidade. Deitado no tapete ao lado da sua cama, Corneta, o seu cão, observava como uma fresca novidade o automatismo do seu dono. Nas úmidas pupilas do cão, como nestas mônadas onde se desenrolam todos os predicados da nossa alma, podia-se ver refletida toda a cena do quarto e o mecânico teatro do seu proprietário. Assim que ele cruzava a porta com a pasta na mão, o cão saltava a janela lateral e ia lhe esperar no portão da casa, balançando a calda e ansioso por mais uma caminhada.  H. James afagava-lhe o pêlo castanho e se deixava acompanhar até à coletoria de impostos onde trabalhava, quando então, com um simples meneio de cabeça, fazia o cão retornar sozinho para casa. Um dia, no meio da sua rotina matinal, já vestido e no terceiro gole de café, H. James lembrou-se do telegrama recebido na véspera anunciando a vinda da sua irmã nesta manhã. Era preciso apanhá-la na rodoviária, deixá-la em casa e só depois ir ao trabalho.. Exceto um sorriso no rosto ao pensar em sua querida irmã, nada se alterou no seu cerimonial  que mais se assemelhava a uma liturgia que a um simples hábito; beijou a foto , apanhou as chaves na gaveta da escrivaninha e saiu com a sua executiva pasta. Ao cruzar o jardim e avistar o portão, lembrou-se que Corneta estaria lhe esperando, como sempre, para o passeio diário. Ele iria emprestar o carro do vizinho e não poderia levar o cão consigo. Era preciso fazê-lo entrar. Ao abrir o portão ficou muito surpreso ao perceber que o animal não estava no lugar habitual. Retornou ao seu quarto, abriu a porta e lá estava, deitado no tapete, o seu fiel companheiro . O cão tinha os olhos bem abertos e fitava-o como se nada tivesse acontecido. Seu primeiro pensamento fora o de estar o cão adoentado mas ao primeiro afago e à festa que se seguiu, tal hipótese fora afastada. O cão saltava sobre a cama, latia e apanhava no ar uma bola de meia que o seu dono lhe lançava; então, aliviado, H. James o deixou e saiu um pouco atrasado ao encontro de sua irmã. À tarde, no gabinete onde trabalhava, ruminou a esquisita atitude do animal sem encontrar nenhuma explicação razoável, exceto um capricho ou uma ligeira indisposição, contudo...uma insólita conjectura atormentava o ocioso transcorrer das suas horas: “teria  o cão previsto a suspensão do passeio matinal  e, assim, não se dando ao trabalho de esperá-lo no portão?” O dia seguinte talvez lhe daria uma resposta. Nele, durante os primeiros raios da manhã, como um ator que se vê encenando no palco, repetiu as condutas de sempre, desta vez  acompanhando de soslaio os olhos do seu cão no tapete. Ao cruzar o portão em direção ao trabalho, já o cão ali estava esperando-lhe ansioso e parecendo possuir sobre o seu dono um intuitivo conhecimento. H. James possuía  uma relativa autonomia em seu trabalho e podia organizá-lo com liberalidade, antecipando tarefas e se permitindo muitos dias ociosos. Um pouco relutante em alterar suas rotinas, ele adotou esse expediente para testar a inteligência do seu adorável cão. Escolheu um dia no meio da semana em que não iria trabalhar e com o máximo de dissimulação, na manhã desse dia, repetiu com perfeição os seus enfadonhos afazeres. Sentiu o vigilante cão prescutar todos os seus passos, como era de rotina. Saiu fechando a porta e no caminho do pequeno jardim imaginou Corneta saltando a janela lateral do quarto, pulando a cerca e lhe esperando no lado de fora do portão. Ao abri-lo, como suspeitava, e contente pela confirmação de um enigma a mover o seu preguiçoso cérebro, Corneta ali não estava. Voltou para o quarto e o encontrou estendido sobre o tapete, os olhos tomados por uma canina serenidade. A partir desse dia, H. James constituiu um novo hábito: testar a inteligência do animal e, secretamente, confirmar a sua crença na existência de almas irracionais. Ele acreditava em muitos fenômenos que os almanaques classificavam de “paranormais” como telepatia, premonições, metempsicoses e possessões; embora possuísse uma cera intimidade com as cavilações metafísicas à respeito da alma humana, elas não poderiam ser atribuídas à seres irracionais e era somente através de evidências empíricas que ele esperava confirmar as suas entrigantes premonições. A confirmação de uma relação espiritual entre ele e o seu cão haveria de elevar o seu nome ao iluminado panteão da ciência e, sonhando de olhos abertos, ele via a legenda da sua vida no alto daquela serra projetada nos pináculos da sabedoria. De fato, o cão parecia possuir uma participação nas mais secretas volições de H. James. Sempre que ele ia trabalhar o cão o esperava no portão e sempre que ele simulava, o cão não se movia do lugar. Com o correr do tempo, H. James passou a experimentar variações em sua rotina matinal; suspendia um dos seus atos como, por exemplo, não beber os cinco goles de café ou ,então, introduzir um outro, como engraxar os sapatos. Nada se modificava. O cão era infalível e só o esperava quando a intenção de ir trabalhar se alojava nos departamentos mais íntimos da sua alma. Arrebatado pelo comportamento extraordinário de Corneta, H. James começou a redigir um artigo com o pomposo título “Intersubjetividade Monadológica – Estudos de Conduta Animal.” No estilo prolixo de um burocrata, o ensaio começava explorando as formas transcendentais do tempo e do espaço e argumentava ser a posse destas formas pelos animais um sinal de uma estrutura metafísica onde seria sustentado, como um penduricalho de sacristia, o seu conceito de alma:

   ... “Sabemos haver em certos animais uma precisa noção do tempo que ultrapassa em muito as determinações biológicas do instinto, por exemplo, os gatos. Eles costumam marcar o seu território, em relação aos outros gatos vizinhos, urinando nos limites desse território. São capazes de deixar dentro dele um pedaço de alimento e sair por alguns instantes. Nenhum outro gato ousa invadir esse território demarcado enquanto persistir o cheiro da urina e, antes que esta marca expressiva desapareça, o gato retorna revelando assim a noção exata de um intervalo de tempo, o tempo de persistência das suas excreções. Os cães, por sua vez, possuem uma noção de temporalidade enquanto sucessão e podem assim apresentar uma franja de inteligência que nada mais é senão a inferência de causas e efeitos que a noção de sucessão condiciona; se lançarmos um bastão de madeira em frente ao nosso cão ele irá apanhá-lo e trazê-lo de volta. Ele entende sermos nós a causa do bastão lançado e isto só é possível devido às suas inferências temporais ( os gatos correm atrás de um novelo lançado ao seu lado mas não o trás de volta, não lidam com relações de causa e efeito. O tempo para eles é matéria de uma intuição e o  intervalo está para a intuição assim como a sucessão está para a inteligência)...”

    O ensaio continuava com curiosos exemplos de comportamento animal extraídos de fontes minuciosamente citadas. Por fim, com excessiva modéstia, é descrito o insólito caso do seu cão Corneta, um caso que delimitaria uma nova região para o pensamento, um empirismo superior onde novas relações éticas entre homens e animais pudessem ser constituídas e exploradas. Quando eu recebi uma cópia deste ensaio fiquei sensivelmente interessado em conhecer este extraordinário animal que era Corneta, mas o curso de Biologia que eu ministrava na universidade não me permitia uma viagem tão longa e lhe escrevi prometendo tudo fazer para que o seu artigo fosse publicado e divulgado nos meios acadêmicos. Não lhe avisei meses depois que o seu laborioso texto fora motivo de severas críticas e de escárnio nos doutos lábios da universidade. Estava decidido a ir visitá-lo nas férias de verão e lhe dar todo o apoio possível na continuidade de sua pesquisa. Quando chegou a ocasião, escrevi ao Dr.  H. James manifestando o desejo de repousar alguns dias em uma cidade serrana e a minha científica curiosidade em conhecer o objeto de seus estudos. Recebi um telegrama como resposta quando foi-me adiantado, com palavras generosas, parte do entusiasmo que a minha presença causaria. Viajei em uma tarde de Domingo sem nenhum sobressalto ou contratempos, deleitando-me com as pitorescas paisagens que a janela do ônibus enquadrava feito uma câmera de cinema. H. James recebeu-me na rodoviária da sua cidade e carregou a minha valise como se eu fosse um emérito cientista e não um reles professor universitário, dogmático e mal remunerado. Logo em frente ao portão da sua casa estava a personagem da nossa conversa dentro do carro, o cão Corneta, um pouco mais velho e menos robusto do que eu o imaginava, embora conservando ainda um grande vigor e a simpatia comum aos cães da sua raça. H. James hospedou-me em um quarto contíguo ao seu ainda decorado com os objetos da irmã que sempre o ocupava quando vinha visitá-lo. Às primeiras manhãs entediadas, dediquei-me a escrever para meus filhos pequenos um livro, “As aventuras de Scadufax”, o fantasma de um cão, morto durante um assalto, ajudando o seu antigo dono, um detetive, a resolver mirabolantes enigmas policiais. Quando meu anfitrião ficou a par deste meu passatempo os seus olhos brilharam como se percebesse haver em mim um pouco da sua crença em almas irracionais e, principalmente, por ser uma crença secreta ( não tão secreta assim que não pudesse ser presumida nas entrelinhas do seu artigo) , devia imaginar ser esta crença compartilhada entre nós dois por algum acorde superior, a intersubjetividade monadológica que supostamente explicaria o comportamento do seu animal, do ilustre hóspede que eu personificava e, quem sabe, de todos os seres do planeta que tivesse alguma relação com a alma de H. James. – Diante desta hipótese amplificada e do meu espírito absolutamente afirmativo, eu só podia surpreender-me e exclamar: viva a paranóia! – Não demorou muito para H. James me conhecer, confiar em mim e convidar-me para observar a sagacidade do seu cão. A parede que dividia os nossos quartos, como era costume nos casarões antigos do interior, não se erguia até a cobertura de telhas e pairava um grande espaço entre ela e o alto telhado sustentado por um longo cume horizontal. O proprietário sonhava em forrar os cômodos e construir um sótão e o adiamento desse projeto fora providencial para o papel de testemunha que me estava reservado. De manhã bem cedo, com o máximo de silêncio possível, eu subia por uma escada de pedreiro apoiada na parede divisória, podendo deste lugar avistar o panorama da sala e todo o quarto onde meu anfitrião dormia. Fastidioso seria descrever o minucioso ritual daquele velho celibatário. Acordava duas horas antes do seu horário de trabalho e entrava no banheiro  de onde saía molhado e envolto em um roupão. Barbeava-se, apanhava a vetusta dentadura em um copo com água, limpava os ouvidos com cotonetes, vestia várias peças de roupa, dava corda no relógio, conferia papéis, despejava o café de uma cafeteira metálica...tudo isso frente aos atentos olhos de Corneta deitado no tapete aos pés da cama; seus últimos gestos era fechar a gaveta da escrivaninha, guardar a chave no bolso, beijar a foto da esposa, apanhar a pasta e sair resoluto com passos rangendo sobre o assoalho...incontinenti, Corneta se erguia do tapete, cruzava veloz o quarto saltando a janela lateral e caindo sobre um canto do jardim. Em seguida pulava o pequeno muro alcançando um beco que findava na rua transversal onde o portão de saída se encontrava. Ali ele sentava-se sobre as patas traseiras e com a língua arfando esperava pelo passeio com o seu dono; isto, é claro, quando H. James ia de fato trabalhar pois, conforme observei boquiaberto, quando o seu dono simplesmente simulava sair, Corneta não se movia do tapete, apenas estendia a cabeça entre as patas e voltava a dormir. Durante todos os dias de Dezembro, enquanto transcorriam minhas férias, acompanhei as cenas matinais de H. James e em momento nenhum o cão deu sinais de equivocar-se. Parecia conhecer os mais íntimos pensamentos do seu dono e por mais que ele tentasse enganar o animal com variações gestuais, nada abalava a impecabilidade de Corneta. Meu anfitrião chegou ao ponto de confessar-me, durante um jantar, uma de suas burlescas hipóteses para aquele caso: havia, segundo ele, o fantasma de um cão naquela casa, o pai de Corneta morto há muitos anos atrás; seria este fantasma, pressentido não sem profundos arrepios dentro do seu quarto, quem avisava Corneta sobre suas verdadeiras motivações. Para me aterrorizar um pouco mais, ele apanhou uma velha foto onde se via o pai, chamado Valente, cercado por filhotes, entre eles, um dócil cãozinho que seria Corneta com seis meses de nascido. Para lhe mostrar que nada naquela estória me assustava, resolvi brincar um pouco com o sisudo H. James. Segurei a foto entre os dedos e lhe perguntei;

_ Este cão era seu?

_ Claro que sim.

_ E ele era o pai dos filhotes?

_ Evidente.

_ Então ele era “seu” e era “pai”; logo, ele era seu pai e você, irmão dos filhotinhos! - H. James não gostou nem um pouco desta brincadeira e nossa relação deteriorou-se um pouco.

   No final das tardes e nos fins de semana, H. James dedicava-se à redação de um livro de Etologia, ciência que anos de estudos e de pesquisas fizeram dele um especialista. Manifestei o meu interesse em ler o capítulo referente aos cães ( meu interesse maior naqueles dias era encontrar inspiração e fatos para Scadufax, o cão fantasma do meu livro interrompido). Como se adivinhasse a vilania das minhas intenções, ele argumentava não estar o texto pronto ainda, afirmando, porém, ser imprescindível um prefácio meu à primeira edição. Faltando poucos dias para o fim das minhas férias, após o meu anfitrião Ter saído para o trabalho, eu decidi olhar minuciosamente o seu quarto em busca de alguma pista elucidando o mistério de Corneta; também me corroía uma crescente e incontrolável curiosidade em ler as páginas de H. James guardadas na gaveta da sua escrivaninha. Após olhar todos os ângulos do quarto, sentado no tapete para ter uma noção do ponto de vista do cão e para justificar a mim mesmo o propósito científico da minha intromissão em seu quarto, cedi à tentação e tentei abrir a sua gaveta. Fiquei um pouco surpreso por encontrá-la trancada pois vagava em meu espírito a impressão de estar a gaveta aberta. Voltei para o meu quarto e resolvi, sem sucesso, reencontrar o fio da novela que escrevia para meus filhos. Meu pensamento estava inquieto em busca da impressão visual correspondendo à minha crença de estar a gaveta aberta. Por alguns instantes acreditava ter visto H. James trancá-la ao sair, depois me convencia de que ele somente retirava a chave sem dar a volta na fechadura. À noite, sem nada contar a ele a respeito da gaveta para não levantar suspeitas sobre o meu interesse nos manuscritos, pedi que não fosse trabalhar no dia seguinte, apenas encenasse  o seu teatro em frente ao cão. A minha expectativa era que ele, nos dias em que não ia ao trabalho, descontraía o seu espírito vigilante e, sem o temor de ser roubado por alguém, uma vez que passaria a manhã dentro de casa, não trancasse a gaveta, contentando-se, inconscientemente, em retirar o molho de chaves da fechadura; assim, na manhã seguinte, eu talvez pudesse folhear rapidamente os manuscritos. Debruçado no alto da parede na manhã combinada, a minha atenção se despreendeu de todos os detalhes da cena habitual, apenas o gesto de apanhar as chaves e fechar – ou não – a gaveta era-me relevante. Como eu presumia, H. James não virou a chave na fechadura e saiu. Desci correndo a escada e tentei apanhar o manuscrito no breve intervalo em que ele iria ao portão confirmar a ausência do cão e voltar para  casa. Minha intenção era lê-lo no meu quarto e devolvê-lo antes dele retomar a redação. Ao tocar na gaveta fui surpreendido pela reação de Corneta que rosnou para mim. Não apanhei os manuscritos e viajei na madrugada do dia seguinte com a promessa de receber em breve pelos correios uma cópia do seu livro. Abandonei definitivamente  a estória do cão fantasma e, somente quando estava dentro do ônibus, com o pensamento vagando na aurora insinuante sobre as colinas, é que descobri, de chofre, o segredo de Corneta. Escrevi ainda no ônibus o rascunho de uma carta explicando a H. James qual era o exclusivo detalhe em todos os seus hábitos matinais que condicionava a saída ou a permanência do seu cão do quarto de dormir, a saber, a volta que ele dava na chave quando ia sair de fato e que deixava de dar quando apenas simulava: um sintagma visual na leitura semiótica do cão que mudava completamente o sentido da cena! Elogiei a fidelidade do seu animal que sacrificava a possibilidade de um agradável passeio em função da vigilância, o que era, aliás, um dos mais admiráveis atributos desta raça. Guardei comigo a carta até receber a cópia do seu livro temendo que a minha revelação viesse a constranger a sua edição e, como esta cópia ainda não chegou, dois anos transcorridos, ainda tenho comigo a estiolada carta. Quando penso naquele velho e gentil senhor arrebatado por um problema mal formulado, consola-me pensar em Pôncio Pilatos e em suas filosóficas palavras: “A verdade! O que é, afinal, a verdade?”


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