terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Humeano, Demasiadamente Humeano!

 


Uma nova filosofia veio ao mundo no século dezessete quando David Hume publicou o TRATADO DA NATUREZA HUMANA. Inspirado em um vetusto adágio aristotélico-tomista: nihil est in intelectus quod prius non fuerit in sensu - nada se acha na inteligência sem que antes se achasse nos sentidos -, este escocês sensualista elege a experiência sensível como a prova de toque de todo o conhecimento humano e, para todo pensamento apresentado em nossas mentes, irá buscar a impressão sensível que o fundamenta e o legitima; assim a importância do seu conceito de PERCEPÇÃO que compreende tudo o que se apresenta à mente, seja uma sensação, um sentimento, lembranças ou reflexões. Este conceito apresenta duas notas compreensivas: IMPRESSÕES e IDÉIAS. As primeiras são as nossas percepções vívidas e fortes implicando a presença do objeto percebido; as Idéias são essas mesmas percepções enfraquecidas e distantes da fonte (é como se Hume, na velha tradição naturalista, pensasse as idéias como simulacros e a subjetividade como uma rapsódica fantasmagoria subjugada por associações destas impressões e idéias segundo princípios bem definidos de SEMELHANÇA, CONTIGUIDADE e CAUSALIDADE). No enunciado de Hume:...We can never think of any thing which we have not seen without us, or felt in our own minds - jamais podemos pensar em qualquer coisa que não tenhamos visto fora de nós, ou sentido em nossas próprias mentes... - Sentimos bem a velha inspiração aristotélica de serem todos os nossos conceitos oriundos da experiência, com a ressalva de ser a experiência, em Aristóteles, um árido conceito tal a sua pobreza de exemplos.
Muitas vozes ergueram-se contra o empirismo na tentativa de preservar as pretensões da razão humana em alcançar o conhecimento sem abandonar os confortáveis gabinetes de uma vida sedentária, sendo famosas as CRÍTICAS kantianas postulando a existência de formas A PRIORI (tais formas revelaram-se, com o tempo um insólito decalque do empírico como páginas sulcadas e sobrescritas de um bloco de notas). Séculos depois, nesta tradição, surge na Alemanha uma escola de psicologia, a Gestalttheorie, afirmando a prioridade de formas autônomas e absolutas em tudo o que percebemos, impressões e idéias incluídas; esta escola, caudatária da fenomenologia, trazia uma novidade: a objetividade das formas para além da matéria correlata e do transito subjetivo. O grande exemplo de ontologia formal dessa escola psico-filosófica é a percepção musical onde a forma melódica não se limita às notas que a compõem. Ela, a melodia, conserva a sua identidade se todos os sons (sua matéria) forem modificados de uma determinada maneira (por exemplo, em uma oitava); inversamente, se mantivermos todas as notas, modificando apenas a altura (o tempo de sustentação das notas, algo puramente formal), teremos uma melodia completamente diferente, A melodia é um acontecimento que organiza gamas sonoras, uma hecceitas que intenciona a consciência, um transcendental que, entretanto, não resiste à prova de toque da experiência: basta ver a reação de uma criança, de um primitivo ou de um beócio que percebe como estranhos ruídos uma erudita composição de vanguarda.
A mais pertinente crítica a esta diferença de graus e identidade de natureza entre idéias e impressões, postulada por Hume, encontra-se nas refinadas teses de Henri Bergson quando este pensa a percepção como um misto de matéria e memória. Entre os seus notáveis argumentos de refutação ao empirismo, Bergson afirma textualmente: ...SE A LEMBRANÇA DE UMA PERCEPÇÃO NÃO FOSSE MAIS DO QUE ESSA PERCEPÇÃO ENFRAQUECIDA, ACONTECERIA, POR EXEMPLO, TOMARMOS A PERCEPÇÃO DE UM SOM LEVE COMO A LEMBRANÇA DE UM RUÍDO INTENSO; ORA, SEMELHANTE CONFUSÃO NUNCA SE PRODUZ..., JAMAIS A CONSCIÊNCIA DE UMA LEMBRANÇA COMEÇA SENDO UMA PERCEPÇÃO MAIS FRACA QUE PROCURARÍAMOS LANÇAR NO PASSADO APÓS TER TOMADO CONSCIÊNCIA DA SUA FRAQUEZA( Matéria & Memória, pág. 196, ed. Martins Fontes). Muitas vezes, entretanto, no silencio da madrugada e entregue aos devaneios que antecedem ao sono, acontece-nos ter a impressão de ouvir u`a música distante e por muito tempo não sabermos se tratar de um rádio ligado no apartamento vizinho ou de sons ordinários sobre os quais projetamos uma vívida e melodiosa lembrança. Neste momento, confundimos impressões fracas com idéias marcantes mantendo-as como graus de uma mesmo fenômeno conforme os critérios humeanos. Kant gostava de dizer que a filosofia de David Hume o havia acordado do seu sono dogmático. Bergson, que insuflou a filosofia de sonho e poesia, não acordou suficientemente; ainda sonolento, ele ouviu os sinos do empirismo inglês e sobre ele projetou as formas de um LIEB alemão...


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