sábado, 14 de maio de 2016

PAVÃO MISTERIOSO, PÁSSARO DELICIOSO!





Cecília era uma boa mulher. Não como a santa homônima, mas chegava perto.
Devota, católica praticante e quase uma beata, apesar de ainda nova e acesa para os “chama” do mundo. Gostava de pecar vendo as novelas da TV e de imitar uma onça manhosa nas noites de estripulia com o marido. Fora isso, era um poço de virtudes. Um dia, voltando de uma visita a sua mãe em uma cidade vizinha, salvou a vida de uma cigana epiléptica caída na beira da estrada, e ganhou desta uma linda faisoa de cauda coruscante. Chegou em casa com a ave debaixo do braço e, com um quintal cheio de cachorros do marido, sem saber também que hábitos a ave possuía, seu primeiro pensamento fora matar o animal e preparar um suculento ensopado. A gula era outro de seus pecaditos. Mas antes de fazer isso, pensou que seria melhor consultar o padre Zé Reis, seu guia espiritual. Afinal, estava na quaresma e não custava se prevenir contra as artes do inimigo; vai que aquela cigana estivesse lhe enganando só para lhe enfiar pela goela abaixo um naco de pecado! Assim sendo, subiu a “ladeira de Seu Pequeno” e foi dar na suntuosa residência do padre. Foi prontamente atendida. Explicou sua dúvida, mostrou a ave ao padre e ouviu deste a seguinte explicação:

_ Minha senhora! Segundo o Bispo Romualdo, da Diocese de Vitória da Conquista, a qual somos filiados, o faisão é um símbolo da luxúria, da concupiscência, dos pecados sofisticados lá do Oriente. Comer a carne dessa ave é um risco muito grande para quem busca fugir das tentações.
_ O que eu faço então, padre? – Perguntou aflita a boa senhora – Meu quintal é cheio de cachorros perdigueiros que meu marido cria....
_ A senhora pode deixar ele aqui em nossos jardins É uma ave muito bonita e teremos muito gosto em criá-la para a senhora. Pode vir aqui quantas vezes quiser visitá-la. Não lhe custará nada, mas se a senhora quiser trazer um milho quebrado e der para ela, melhor ainda!
Cecília adorou a idéia e deixou a ave solta no jardim de crisântemos e açucenas. Agradecida, a ave abriu seu vistoso leque e o padre disse ter sido um sinal de Nosso Senhor em agradecimento. Cecília quase chorou. No outro dia, seu primeiro pensamento foi o de passar pela residência do padre antes de ir ao trabalho e dar comida a sua ave fabulosa. Moeu duas mãos de milho no moedor de carne, enchendo um saquinho de pipoca com o milho moído. Subiu esbaforida e foi entrando sem avisar no labirinto de corredores do Colégio onde, nos fundos, se localizava a clausura do padre Zé Reis e seu jardim precioso. Deu de cara com a ave soberba que, mal lhe avistou, abriu seu caudaloso leque. 

Cecília despejou o conteúdo do pacote e ficou olhando, hipnotizada, o garbo da ave que comia com gestos suaves e ondulantes. “Tão diferente das galinhas da minha mãe!” Pensou. Desse dia em diante, essa passou a ser a sua rotina. Alimentava a ave e o espírito, pois aquele jardim lhe parecia um arremedo do paraíso e a sua decisão em não comer a carne da faisoa era o símbolo de tudo que ela havia renunciado para salvar a sua alma. Alma cada dia mais vistosa, pois é fato que esta se agiganta e expande quando o corpo se contrita, conforme ouvia nos sermões do seu idolatrado padre. Como recompensa – assim pensava ela – a ave colocava ovos rajados, com uma leve jaça ambarina que ela apanhava com entusiasmo nos lugares mais inusitados em que a ave os punha: sobre a balaustrada do jardim, no cesto do banheiro e até na cabeça de bronze de uma estátua pagã, semi-escondida sob a tela de um caramanchão de buganvílias. Cecília apanhava os ovos, após dar uma batida por todo o local e dependências, guardando-os dentro de uma lata de biscoitos decorada como um troféu no fundo da sua geladeira.
Um dia, Cecília viajou para rever sua mãe, como fazia todos os meses e, justamente nesse dia, logo de manhã, uma pedra perdida de algum estilingue perverso veio afundar o crânio da vistosa ave. Antes de morrer, a ave fez um escarcéu medonho, adentrando o recinto episcopal, derrubando a louça e ornamentos e enchendo de bosta iridescente os panos cerimoniais até que as mãos competentes - e há muito juramentadas - da cozinheira desse um fim ao seu estertor e espalhafato. No mesmo instante, há quilômetros dali, passando bem na curva onde ela havia salvado a cigana, Cecília sentiu uma dor no peito e ouviu no ar seco da Kombi cheia de passageiros sonolentos um cacarejo esganiçado. Ao saltar do veículo, foi direto ao Colégio ver a sua ave. Procurou-a por todas as partes sem a encontrar. Ao se dirigir, apesar da hora imprópria, aos aposentos do padre Zé Reis, encontrou este saindo do refeitório, sorridente e com um palito entre os lábios. Foi o primeiro a falar com expressão de tragédia no rosto:
_ Minha Senhora! Tentamos tanto lhe avisar, mas disseram que a senhora tinha viajado! Uma fatalidade! Mataram, não sabemos quem fez tamanha crueldade, a sua faisoa de estimação! Com tantos seminaristas para alimentar, a Senhora com certeza vai entender que agimos certo em cozinhá-la. Acabamos de jantar. Perdoe-me dizer isso nesta hora, mas é realmente uma ave D E L I C I O S A!
_ Mas.... PADRE!!! O Senhor não havia me dito que, para o bispo Romualdo, a carne dessa ave era extremamente perigosa, cheia de luxúrias e pecado?
_ Olha, minha Senhora! Nestas questões dietéticas, de alimentos e proibições, saiba que eu e o bispo Romualdo sempre divergimos muito! 

– Uma aura de sinceridade emanava da sua batina resplandescente. Zé Reis balançava o palito entre os dentes enquanto falava. Passava a mão sobre a proeminente barriga onde a ave agora jazia no inferno de seus ácidos estomacais. 
Cecília percebeu que a mão do padre perigosamente descia para além do umbigo e temeu que a concupiscência da ave já estivesse fazendo efeito no santo vigário. Tratou de se despedir cabisbaixa, sem sequer tomar a benção e voltou resignada para casa. Pelo menos tinha os ovos. 
Ah! Os ovos! Eu poderia até dizer o que ela pretendia fazer com eles, mas o bispo Romualdo sempre me alertou do perigo e do pecado que é escrever sobre ovos!

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