domingo, 3 de maio de 2020

DESCENDO A RAMPA




Seria o Ser humano um animal profundamente egoísta, Homo homini lupus, nas palavras de Plauto, dramaturgo latino, e convertido em pacífico ser social pelo adestramento e sublimação dos instintos biológicos, como pensavam Nietzsche e Freud, ou seria um animal profundamente bondoso e altruísta e que fosse levado ao mal e à corrupção pelo Contrato social, segundo a leitura romântica de Jean Jacques Rousseau? Talvez a resposta não esteja em nenhum desses extremos. Parece que, na visão dos empiristas ingleses, David Hume notadamente, uma outra e subterrânea linha de pensar nossa natureza, vindo a desaguar na psicologia da Melanie Klein, possa estabelecer uma solução mediana para essa questão. O ser humano seria constituído por paixões parciais, parcialidades estas que começaria pelo seio materno, preferido pelo bebê em detrimento de outras partes do corpo, passado para a figura da mãe em detrimento de outros membros da família, depois desta, em detrimento da vizinhança, e assim ampliando o seu universo afetivo que, entretanto, jamais abandonaria essa condição pontual e fragmentada de se relacionar com o mundo. Não é apenas a criança que ama mais o seu brinquedo do que o seu irmãozinho (a ponto de algumas perguntarem: _ Mamãe! Se meu irmão morrer eu posso ficar com os brinquedos dele?), mas também nós, adultos, que ficamos mais tristes com a morte do nosso gato do que com a morte, no mesmo dia, de uma centena de agricultores durante um terremoto nas montanhas do Cazaquistão. Assim sendo, considerando as condutas do ser humano em sua vida social, não nos surpreendemos quando vemos, no cinema, um mafioso fuzilar uma “famiglia” inteira de concorrentes seus em uma cena de contrabando e chacina para, em seguida, usar todo o dinheiro amealhado no crime para comprar um iate e presentear sua filha durante o casamento dela com outro carcamano. Podemos até, no limite, fazer uma injunção perversa no mandamento de Cristo e dizer que amamos, sim, o próximo, mas quase sempre em conformidade com o grau de proximidade, isto é, com a parcialidade que nos constitui e nos determina. Por esse ângulo, o papel que a sociedade exerce sobre o indivíduo não seria o de uma instância opressora a recalcar e transmutar seus instintos bestiais em condutas cordiais e amigáveis (mantendo a besta-fera enjaulada em uma suposta natureza íntima corroída por neuroses, perversões e males secretos); tão pouco seria o front de uma guerra cruenta e insana, onde o jovem soldado, inocente e nostálgico da casa dos pais, fosse lançado na bestialidade medonha da vida pública, de veladas carnificinas, tiroteios e torturas, dali voltando traumatizado, psicótico e pervertido. O papel da sociedade nos parece melhor definido como a de uma suave escadaria espiralada, capaz de ir ampliando o universo de nossas paixões, dos mais primevos e egoístas instintos, até às mais prestativas e abnegadas solicitudes para com o próximo. A escola imita o lar, o grêmio esportivo imita a escola, o quartel imita o grêmio, a faculdade imita o quartel... Essa profunda semelhança entre a arquitetura das instituições e a sua funcionalidade, que o esdrúxulo Michel Foucault via como o reflexo de um sinistro e platônico modelo de poder disciplinar, na verdade seria apenas a sociedade mimando nossos andares mais baixos da escada social, infletindo sobre si mesma como os gomos de uma escada que se apoia sobre os mesmos pilares – as paixões primárias – em busca de sustentação e subindo sempre, girando até conduzir o homem a um patamar mais elevado. É justamente nesse patamar elevado de ampliação das paixões que devemos procurar os verdadeiros líderes políticos, pessoas capazes de ampliar seus interesses pessoais para os interesses da coletividade, do bem-comum e da Pátria. Quando vemos um político se comportar como um mafioso, capaz de arriscar toda a sua biografia para converter algo da alta esfera pública para uma dimensão mais baixa, para satisfazer uma paixão mais parcial e curta, percebemos neste político uma regressão e um encolhimento no sentido de um egoísmo relapso, uma descida na escada da vida e uma renúncia aos fins nobres e conspícuos do seu papel político. Quando o Presidente Jair Bolsonaro tentou transformar a Policia Federal em um parquinho de diversões para o seu filho mimado proteger o irmão de fraldas sujas, ele agiu como uma pessoa que se encolhe e ensaia descer da escada por onde se elevou, içado pelo voto desesperado de 60 milhões de brasileiros. O processo de ampliação das paixões parciais é dinâmico e estamos todos, a todo instante, subindo e descendo por ela, sendo egoístas de manhã e mártires de noite, somos capazes de privar um filho mimado nosso de um presente na vitrine para doar o valor no caixa de uma igreja, mas também, e muito frequentemente, de fazer o contrário. O presidente escorregou, sim, e feio, quando quis fazer de uma instituição republicana uma propriedade particular. Cabe a vocês, no entanto, julgar sua inépcia e sua natureza, se devemos continuar confiando, ou não, em quem escorrega desse jeito. O papel do filósofo termina aqui; ele conduz o mafioso até a porta do tribunal, mas não adentra para julgar.

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