domingo, 4 de março de 2018

O ALQUIMISTA





Fui ontem tomar café na fazenda de Valter Viana, famoso pelo "café de Jacu", feito com frutos selecionados por essa ave que os conhece como ninguém e cujos grãos expelidos pelas fezes da ave faz a fama e o folclore dessa bebida. Na hora de por o açúcar, ele segurou minha mão e me disse:
_ Não precisa! O café já é doce!

Achei estranho e julguei que o açúcar tivesse sido acrescentado durante a fervura, mas estava na cozinha e não vi ele acrescentar nada ao preparar a bebida. Ele sorriu quando comentei isso e calado ficou. Só depois de bebermos o café é que ele me convidou para ver a origem de tal doçura. Chegamos no quintal da sua casa onde começava o vasto e ondulante cafezal salpicado de flores brancas como se um pincel tivesse borrifado um chuvisco de leite na tela ali descortinada. Um grupo de mulheres entre a plantação cuidava de um bando de jacus, lavando-os, aparando as penas, lixando as unhas e os bicos, borrifando perfumes e ornando as cristas com laços de fita (lembrei do meu pai que amava galos de briga e os tratava como hóspedes de um spa luxuoso). Meu amigo cafeicultor me explicou então a origem do seu edulcorado café:
_ Aqui é assim, meu amigo! Mimamos tanto as nossas aves, enchemos elas de tanto conforto e manias, que elas, ao expelirem o fruto comido, fazem tanto cu-doce que o café já sai "no capricho"! Aceita mais uma chávena?
E fez tamanho bico para pronunciar "chávena", que logo deduzi de onde os jacus se inspiravam para defecar caramelado! Vim embora sem aceitar sua oferta generosa! De doce basta a vida!
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Café coado e fumegando, vou à geladeira apanhar o leite e vejo na porta uma velha embalagem de chá mate. Penso: "melhor jogar isso fora, deve estar vencido". Quando volto à mesa, o cheiro do café parece ter se transmutado em aroma de mate quente se espalhando por toda a cozinha! Nossas sensações de sabor e aroma, mais encarnadas e soterradas nas profundezas da memória, incapazes de serem evocadas deliberadamente, vivem à espreita de um nome, de um pensamento feito bolhas, para nelas pongarem clandestinas e subirem de contrabando até a superfície líquida da nossa consciência!

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APÓS DUAS DOSES DE CAFÉ, UM PINGO DE LEITE, PARA NÃO PERDER A FAMA DE CLÁSSICO (Classiano):
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