sábado, 3 de outubro de 2015

UMA LEBRE METAFÍSICA!




Parece hoje um lugar comum no meio científico a convicção de que os animais não possuem linguagem! Muito contribuiu para isso o trabalho de linguistas (Oswald Ducrot é um deles), ao definir a linguagem como a capacidade de um ser vivo interpretar um sinal emitido por um semelhante e o retransmitir. Em outras palavras, a linguagem seria uma função que iria do dito ao dito, e não apenas do visto ao dito. O exemplo de Ducrot é antológico e se reporta ao estudo das abelhas. Uma abelha batedeira, ao encontrar um campo florido, imediatamente volta para a colmeia a avisar as outras da sua descoberta. Ao chegar no seu destino, zumbe e convoca as outras abelhas para fora, em seguida, realiza uma dança circular cujo ângulo dos círculos em relação à posição do sol irá indicar o ângulo em relação à colméia onde a fonte de alimento se encontra! Acontece porém, deste sinal não ser passível de retransmissão, isto é, se uma abelha chegar atrasada na colméia e perder a cena da dança, uma outra abelha que viu não pode repetir a dança e repassar a retardatária sobre a localização das flores! Existe apenas o vetor VISTO - DITO, mas não o DITO - DITO que caracteriza a linguagem (apesar do zum zum zum, as abelhas não fazem fofoca!). Me parece que essa tese dos linguistas seja bastante ultrapassada. Penso ser inumeráveis os exemplos de pensamentos por parte dos animais e vou me ater a um, por mim próprio experimentado ao conviver com os cães de caça do meu finado pai. entre eles havia um cão perdigueiro, de nome Corneta, muito bom também em rastrear lebres. E era uma lebre que perseguíamos, com os dois cães batedores guiados por Corneta que farejava a lebre desesperada. Em certo momento, a trilha adentrou um terreno pedregoso e se dividiu em um trívio entre os blocos de pedra nua e elevadas. Corneta então começou a farejar cada uma das três opções da trifurcação: avançou pela primeira, alguns metros apenas, cheirando a terra para logo voltar ao ponto de origem e entrar na segunda opção em busca do rastro perdido. Também não demorou muito aí; mas, o curioso, é que, ao avistar Corneta voltando da segunda trilha, um dos outros cães, cujo nome esqueço agora, imediatamente se dirigiu para a última trilha adotando a posição típica de quem aponta para os outros cães e para o caçador a presença da presa: o rabo reto, uma pata erguida e o focinho apontado. Imediatamente o terceiro, junto com Corneta, entraram em disparada pela última opção e a caçada continuou. Este segundo cão, ao ver Corneta retornando de suas olfativas perquirições, raciocinou que, se o coelho não estava na primeira nem na segunda trilha, logicamente só poderia ter tomado a última trilha. E também fora capaz de comunicar aos seus semelhantes a dedução produzida ao apontar o novo caminho e ser seguido por eles. Ele raciocinou de forma impecavelmente lógica e sendo capaz também de transmitir o pensamento, indo do "dito para o dito". Na minha filosofia pessoal, acredito com muita convicção que o pensamento seja realmente uma faceta da linguagem. O cérebro de nenhum outro animal na terra é capaz de funcionar de modo linguístico. O fato desse cão citado no exemplo pensar, e de muitos outros casos de pensamento entre animais, me leva a crer que o pensamento é algo que esteja muito além de uma simples função cerebral, é algo que existe ativamente para além do plano da matéria correlata (algo muito parecido com o "Pensamento" como definido na filosofia espinozista, uma outra dimensão tão real como a matéria dos nossos corpos). O cérebro serve para realizar fabulosos movimentos e operações envolvendo o corpo extraordinário que temos e que exige para tal um cérebro também extraordinário, mas pensar é coisa muito distinta! É metafísico!

@ Cassiano Ribeiro Santos
Share this post

0 comentários :