quinta-feira, 16 de julho de 2026

UM CHEIRO DE VERBENA!



“Mas  como?  Pensam  então  não  haver  prazeres  nas trevas?”    Antipater  de  Tiro,  filósofo  estoico  do  séc.  I  A.  C., contestando  algumas  mulheres  que  compadeciam  de  sua cegueira.

Uma  massa  de  ar  frio  de  origem  polar  estacionara-se  no  céu  de Buenos  Aires  e,  como  um  espelho,  refletia  a  tímida  luz  da  manhã.  Esse efeito  de  cristal  e  o  vento  soprando  pelas  frias  avenidas  faziam  os homens  andarem  cabisbaixos,  pescoços  e  mãos  soterrados  em sobretudos de lã. O professor Vargas, contudo, destoava desta multidão de pedestres apressados. Ele era cego e, morando a dois quarteirões do Instituto  de  Letras  de  Buenos  Aires,  costumava  fazer  o  percurso  em marcha  lenta,  confiante  em  sua  solidária  bengala  de  marfim  e  madeira escarlate.  Era  nesse  percurso  que  costumava  elaborar  as  suas  aulas, distinguir as teses e colecionar os exemplos que logo mais usaria diante de  uma  plateia  de  doze  mestrandas  em  um  curso  de  Literatura  Antiga  e Medieval.  Para  ele  era  um  sublime  prazer  recordar  as  histórias encantadas  de  uma  vida  debruçada  sobre  os  livros  no  tempo  em  que havia  vida  em  seus  olhos;  também  lhe  agradava  sobremaneira  a vivacidade  de  algumas  de  suas  inteligentes  e  espirituosas  alunas.  Os quatro  semestres  do  curso  transcorridos  havia  consolidado  uma  sólida amizade  entre  Vargas e  suas  alunas e  ele  era  capaz  de  identificá-las  por uma simples palavra ou um toque casual. Apesar de conhecer  “de cour” o monótono trajeto, Vargas hoje estava transtornado a ponto de repeti-lo várias  vezes  e  ser  auxiliado  por  alguns  transeuntes  piedosos.  Às  duas horas da madrugada ele havia sido acordado por um delegado de polícia com uma notícia a lhe deixar insone até à alvorada:  no dia anterior, logo após  a  última  aula,  precisamente  às  dezoito  horas  e  trinta  minutos segundo a descrição meticulosa do delegado, o diretor do instituto havia sido assassinado com um violento golpe no crânio; um busto de mármore da deusa  Palas  Athenas,  mantido  pelo  diretor durante  anos  em  uma das estantes  do  seu  gabinete,  teria  sido  a  arma  do  crime.  Ainda  segundo  o delegado,  o  diretor  fora  visto  meia  hora  antes  no  corredor  do  instituto, havia  dispensado  mais  cedo  o  seu  secretário  e  pedira  ao  vigilante  para não  ser  incomodado  pois  pretendia  tratar  de  um  assunto  delicado  com uma  estudante,  encontros  que  aconteciam  com  certa  regularidade  de acordo  com  o  depoimento  do  próprio  vigilante  que,  possuindo  o  diretor as  chaves  do  portão,  saía  às  dezoito  horas  e,  duas  horas  depois,  um outro  vigilante  assumia  o  turno  da  noite.  Este,  ao  chegar  ao  local, encontrou  o  portão  aberto  e  a  luz  do  gabinete  acesa,  encontrando também  o  corpo do  diretor  caído no  tapete  e telefonando  imediatamente para  a  delegacia.  A  única  turma  presente  no  final  desta  tarde  era  a  das alunas  de  Vargas  em  uma  aula  de  grego  ministrada  por  um  padre  que nada  havia  percebido  de  anormal  entre  as  alunas  além  do  interesse habitual  pelas  metáforas  de Homero;  também não observara a  saída  das alunas pois, ao findar as aulas, era o primeiro a sair apanhando um bonde até outro colégio no lado oposto da cidade onde completava o seu mísero salário.  Em  um  país  subjugado  por  uma  tirania  militar,  como  era  a Argentina  nesta  época,  não  fora  difícil  para  o  delegado  manter  a imprensa  afastada  do  caso.  Havia  marcas  evidentes  deste  espírito autoritário na maneira como Vargas fora acordado em sua casa durante a madrugada.

_  Sr.  Vargas!  -  Havia  ele  dito  -  ...  olhei  a  ficha  escolar  de  todas  estas alunas  e  nada  descobri  de  comprometedor  exceto  o  fato  de  todas  elas deverem  muitas  mensalidades.  O  Sr.  Sabe  da  crise  financeira  que estamos  atravessando!  -  Seus  braços  moviam-se  em  uma  teatralidade desnecessária  diante  de  um  cego  de  pijamas  -  ...  mas  não  acredito  que uma  dívida  deste  tamanho  tenha  algo  a  ver  com  este  crime,  aliás,  um crime nestas circunstâncias não resolveria nada...

_  O  Sr.  já  pensou  na  possibilidade  de  um  estranho  ter  penetrado  no colégio, um latrocínio ou mesmo um acidente?

_  Já  pensei  em  tudo isso.  Nada  de valor  desapareceu  e  a cena  do  crime expulsa qualquer possibilidade de um acidente. É por isso que ainda não intimei as suas alunas para depor. Uma delas é a assassina e o segredo é um de nossos métodos de investigação. Também estamos investigando a vida  desse  pobre  diretor;  talvez  ele  tenha  um  obscuro  episódio  em  sua vida  motivando  esse  crime,  uma  dívida  de  jogo,  uma  amante...  -  o delegado parecia hesitar em suas suspeitas.

_ E que tipo de ajuda eu posso oferecer?

_  Em  primeiro  lugar,  eu  gostaria  de  saber  se  você  conhecia  alguma particularidade  nos  hábitos  da  vítima,  algum  detalhe  sigiloso,  uma confissão distraída... o Sr. é famoso por possuir uma memória prodigiosa!

_Não  tenho  nada  de  prodigioso;  tenho  a  memória  que  um  cego  comum necessita  ter.  Recordo  a  distância  entre  os  obstáculos,  sei  reconhecer alguém  pelo  toque  das  mãos  e  outros  truques  que  aprendemos  nesta miserável condição! Quanto ao diretor, as poucas conversas que tivemos resumiam-se  à  questões  enfadonhas  e  literárias.  Ele  era  um  helenista amador,  nunca  havia  publicado  nada  sobre  o  seu  tema  favorito,  a mitologia grega, mas gravitava nela todas as suas conversas e confesso que muitas vezes ele me entediava com a sua erudição... não a ponto de querer silenciá-lo de um modo tão violento!

_  Há  um  outro  favor  que  o  senhor  poderia  nos  prestar,  prof.  Vargas.  De acordo  com  o  programa,  as  doze  mestrandas  estarão logo  mais assistindo  à  sua  aula  e  este  é  o  motivo  maior  desta  minha  visita  tão inoportuna,...  -  o  delegado  sabia  ser  polido  quando  lhe  convinha  -  ...gostaria  que  o  Sr.  observasse-as  com  extrema  atenção;  alguma  conduta anormal,  alguma  pista  ou  álibis...  vou  intimá-las  no  final  da  tarde  e  sua sagacidade será para nós um poderoso aliado.

_ Não lhe parece estranho pedir um favor destes a um homem cego?

_ Sim, mas não temos escolha. Não podemos manter esse crime em sigilo por muito tempo. Quando for revelado as aulas serão suspensas e é seu o primeiro  horário.  Se  eu  ou  um  outro  estranho  assistir  à  sua  aula,  a assassina,  supondo  que  seja  mesmo  uma  delas,  tomará  maiores precauções. Por  favor me  telefone  antes do almoço, poderemos  almoçar juntos. Desculpe-me o incômodo de lhe acordar a esta hora e de suspeitar de  uma  de  suas  alunas.  Não  precisa  me  acompanhar  até  a  porta.

Vargas  recordava  esta  cena  noturna  como  um pesadelo  e chegou  ao Instituto de Letras sem ter a mínima ideia do que iria falar durante a aula. A  morte  brutal  do  diretor  e  a  suspeita  de  ser  a  assassina  uma  de  suas alunas abatiam o seu espírito e ele mandou avisar que iria se atrasar por uns  quinze  minutos.  Bebeu  um  gole  d’água  no  corredor  e  entrou  no gabinete  do  diretor  onde  havia  um  policial  à  paisana  folheando  revistas no sofá da recepção. Logo percebeu que a ordem meticulosa dos objetos, pela qual  a  vítima  tanto zelava,  estava um  pouco  perturbada.  A  sua mão deslizou  sobre  a  estante  de  livros  e  sentiu  a  falta  do  busto  de  mármore recolhido  pela  perícia  em  busca  de  digitais.  “ Todas  as  minhas  alunas usam luvas !”, Vargas pensou e arrependeu-se de estar agindo como um policial.  Recordou  os  momentos  agradáveis  passados  ali  naquela  sala quando  o  diretor  lhe  oferecia  um  saboroso  “Corona”  e  juntos  davam longas  baforadas;  sua  mão  procurou  a  caixa  de  charutos  sobre  a escrivaninha  encontrando-a  fechada.   Inadvertidamente  tentou  abrir  a caixa quando a sombra de uma ideia projetou-se em seu espírito inquieto. Escondeu a caixa de charutos sob as roupas, dissimulou-se atrás de uma milonga  bem  assobiada  e  saiu  apressado  do  gabinete.  Após  algumas voltas  no  pátio,  com  o  semblante  mergulhado  em  profundos pensamentos, ele cruzou a porta da sala-de-aula. Um feminino e uníssono bom-dia ressoou pela sala. Como um maestro percebendo  a  afinação  dos  seus instrumentos,  Vargas  conseguia distinguir a voz de cada uma de suas alunas. Sentiu que uma delas estava resfriada, outra deprimida e muitas ainda ressentida com as notas baixas que ele havia distribuído na última prova aplicada. Ele costumava iniciar a aula  com  uma  prévia  exposição  dos  temas  e  problemas  visados  mas estava nesse dia bastante circunspecto e obnubilado. Seus olhos baços e perdidos sugeria hesitação e insegurança.

_  Minhas  queridas  alunas,  -  começou  a  falar  com  a  voz  embargada  - tenho  o  costume  de  expor  uma  tese  e  depois  narrar  uma  história  como ilustração,  um  procedimento  à   moda   platônica  sem  pretender  contudo às potências míticas e dialéticas deste grande filósofo. Hoje limitar-me-ei a uma  simples  narrativa,  o  motivo  vocês  logo  o  saberão.  Salvo  engano,  o episódio  que  irão  ouvir  encontra-se  no  livro  “História  Verdadeira”  de Luciano  de  Samósata,  um  dos  primeiros  autores  gregos  de  contos fantásticos, mas não sou muito bom em  títulos,  autores e datas e posso estar  enganado.  Trata-se  de  uma  aventura,  provavelmente  inspirada  em Simonides,  vivida  pelo  poeta  Homero   durante  uma  viagem  à  Frígia, região  da  Ásia  Menor.  Não  havia  ele  escrito  ainda  este  que  talvez  seja  o mais belo livro da humanidade, “A Ilíada”, mas já era completamente cego e  nesta  viagem  recolhia  os  testemunhos  e  as  lendas  sobre  a  fabulosa guerra  de  Tróia.  Fabulosa  também  era  a  memória  necessária  em apreender tantas informações, o nome de tantas naus, tantos guerreiros e filiações,  tantas  rimas  e  metáforas  consolidadas  no  canto  dos  aedos. Podemos  acreditar  ser  toda  a  vida  de  Homero  dedicada  a  esta  obra, sonhando-a  em  noites  de  obstinadas  e  transcendentais  recordações. Além de uma concentrada atenção nos fragmentos históricos ouvidos em praças  e  mercados,  Homero  possuía  uma  soberba  mnemotécnica  capaz de  associar  nomes  e  números,  fatos  e  descrições,  os  detalhes  mais diversos cifrados em rimas habilidosas. É notável que muitas descrições da  Ilíada  coadunam  com  as  recentes  descobertas  arqueológicas  no  sítio de  Tróia,  o  que  faz  de  Homero,  escrevendo  séculos  após  a  estória transcorrida,  um  raro  e  feliz  exemplo  do  conhecimento  do  primeiro gênero,  isto  é, por ouvir dizer  (esta  referência  histórica  tem  assombrado comentadores  no  mundo  inteiro).  Segundo  o  nosso  autor,  Homero costumava  escrever  laudatórios  poemas  e  encômios  para  reis  e  rainhas garantindo  assim  o  custeio  de  suas  viagens  e  pesquisas.  Durante  a  sua estadia na Frígia, o emissário de uma rainha chamada Astréia lhe faz uma visita  e  encomenda-lhe  um  longo  poema  em  homenagem  à  rainha  que seria  declamado  no  dia  do  aniversário  dela  em  um  banquete  no  palácio. Homero não hesitou. Sabia que o melhor caminho para alcançar  a glória literária era dedicar o seu texto à uma mulher; vaidosas, elas tudo fariam para que a obra e a dedicatória fossem lidas por muitos...

Um murmúrio de protesto ressoou pela sala!

...Homero  combinou  então  o  preço  do  seu  poema  com  o  emissário, doze  talentos  de  ouro,  sendo  metade  adiantado  e  metade  após  a  leitura durante  o  banquete.  Após  fazer  muitas  perguntas  sobre  a  vida  e  a fisionomia  da  soberana,  Homero  despediu  o  emissário  e  dedicou-se  à gênese do poema. A rainha Astréia orgulhava-se de ser descendente das lendárias  amazonas  e  fomentava  a  lenda  de  façanhas  guerreiras  à  frente de um poderoso exército. Em breve um canto épico começou a florescer no espírito do poeta cego. Muitas das célebres metáforas da Ilíada foram usadas neste canto. Sobre as armas da rainha, ele dizia haver “um desejo de morte na flecha que voa”, o seu olhar belicoso era “um feixe de flechas disparadas  com  um  único  alvo”  e  a  “aurora  de  dedos  róseos  tinha  esta cor devido ao sangue das vítimas da soberana amanhecidas no campo de batalha.  Como  era  de  costume  nestes  cantos  de  soberania,  quando  era tecida  a  filiação  divina  do  homenageado,  Homero  compôs  um  longo paralelo entre a rainha e  Palas Atenas, a deusa da guerra e da sabedoria. Uma semana depois o emissário retorna e o conduz até ao palácio onde o banquete seria consumado. Viajaram ao amanhecer, cruzando mercados, desertos e trilhas nas montanhas. O olor de um bosque florido venceu o suor dos cavalos às portas do palácio. Um incenso de lótus evoluía pelas solenes  escadarias  e  o  sândalo  impregnava  os  aposentos  onde  o  poeta fora  instalado.  Ele  nunca  antes  havia  inalado  perfumes  tão  distintos  e delicados,  a  composição  e  a  intensidade  dos  aromas  no  palácio sugerindo  uma  exótica  ciência  e  produzindo  no  poeta  sublimes  estados de  alma.  A  corte  da  rainha  Astréia  era  composta  por  onze  mulheres, esposas de chefes tribais e guerreiros, mas nada desautoriza crer serem elas  quem  de  fato  exerciam  o  poder.  Eram  doze  matronas  renomadas  e Homero  logo  imaginou  estar  diante  das  mais  iniciadas  perfumistas  da antiguidade. Conheceu e confabulou com todas elas e maravilhou-se com a  adequação  que  parecia  haver  entre  o  perfume  e  a  personalidade  da usuária  e,  em  breve,  passeando  pelo  interior  do  palácio  era  capaz  de dirigir  a  palavra   sabendo  quem  estava  ao  seu  lado  graças  aos   aromas exóticos  que  as  cortesãs  emulavam.  Após  o  banquete  de  aniversário, todos  permaneceram   em  volta  da  grande  mesa  de  alabastro  e  Astréia pediu  a  Homero  que  declamasse  enfim  o  seu  poema.  Através  da  boca bem-aventurada  jorrou-se  as  mais  doces  palavras  que  u’a  mulher  pode ouvir.  A rainha  sorria e ruborizava-se diante de tão generosos epítetos  e louvores  exaltados.  Então,  na  metade  do  seu  poema,  Homero  abordou  a filiação  da  rainha  à  deusa  Palas  Atenas  e,  inflamado,  passou  a  elogiar  a deusa,  seus  olhos  glaucos,  a  sua  inteligência  e  seus  feitos  heroicos  de guerra;  neste  encômio  usando  toda  a  segunda  parte  do  poema..  A  sua cegueira  e  o  seu  entusiasmo  impediram-lhe  perceber  a  mudança  de humor  nas  faces  ciumentas  da  rainha.  O  seu  espírito  religioso,  entregue aos  louvores  à  deusa,  turvou-lhe  a  sua  já  delicada  percepção  da realidade. Um longo silêncio perdurou após a declamação do poema que parecia,  por  um  tempo,  ainda  ressoar  nas  frias  paredes  de  mármore  do palácio. Em um tom sinistro e jocoso, a rainha pronunciou-se:

Divino  poeta,  confesso  jamais  ter  ouvido  versos  tão  belos  e,  se pudesse  ver  a  lágrima  corrida  em  minha  face,  desnecessárias  seriam estas minhas palavras de agradecimento. Provavelmente a deusa  Atenas deve  estar  tão  emocionada  quanto  eu.  É  uma  honra  imensa  filiar-me  a uma deusa que parece ser a mais sublime do universo após o encanto do seu  poema.  Quero  lhe  fazer  uma  proposta  que  será  também  uma homenagem a esta esplêndida divindade. Você compôs metade do poema para  ela  e  metade  para  mim.  Os  seis  talentos  de  ouro  que  lhe  foram adiantados será a minha parte do pagamento; a outra metade deixaremos que  a  deusa  lhe  pague  !   Acredito  que  você  mereça  muito  mais  como recompensa...

Um  sorriso  irônico  brotou  nos  lábios  das  cortesãs,  não  encontrando censura no olhar vingativo da rainha. Homero enrubesceu como a aurora de  suas  metáforas  e  sentou-se  constrangido  e  transtornado;  sentiu  os seis  talentos  de  ouro  naufragarem  na  mágoa  de  seu  fracasso.  Novas conversas,  das quais Homero não  entendia  nem  fazia parte,  envolveu as comensais e  a  sua  amada  rainha. Homero esperava  uma chance  para  se retirar  envergonhado  quando  um  servo  apresentou-se  na  sala  real  e informou  haver  no pátio  u’a  mulher em  trajes  de  guerra  desejando  ver  o poeta e exigindo que ele viesse sozinho. Homero cumprimentou a rainha com  descompensada  mesura  e,  guiado  pelo  servo,  retirou-se  do  recinto. No  pátio,  onde  deveria  estar  a  intempestiva  visitante,  um  clarão  de  luz desenhou  na  sua  consciência  a imagem  de  uma  guerreira  com paramentos  de  ouro,  um  arco  e  uma  aljava  de  flechas  na  mão.  Ouviu-se um trovão ensurdecedor retumbar pelas montanhas; em seguida o teto de mármore  do  salão  desabou  esmagando  a  rainha  Astréia  e  suas  onze convidadas. Após o pânico que assaltou o palácio surgiu um embaraçoso problema: os corpos estavam tão desfigurados sob os escombros que os parentes das vítimas não conseguiam identificá-los e já se falava em uma tumba coletiva quando Homero apresentou uma solução ao problema. Ele se  lembrava  do nome  e do  respectivo  perfume  de  cada uma  das ilustres comensais.  Os  servos  recolhiam  os  cadáveres  informes  em  lençóis  e Homero,  sem  esconder  uma  profunda  repugnância,       inalava os  corpos em  busca  do  perfume  e  pronunciava  solene  o  nome  da  vítima.  O  autor desta  funesta  história  acentua  a  vingança  da  deusa  pela  afronta  ao  seu nome e ao seu dedicado poeta, a recompensa de ter-lhe  salvo a vida com uma  intervenção  pessoal  e  faz  desta  aparição  da  deusa  no  palácio  uma homenagem  ao  seu  autor  preferido,  Eurípedes,  acusado  de  abusar  das aparições divinas em suas peças de teatro. Para nós – concluiu Vargas – a  singularidade  desta  narrativa  é  a  prodigiosa  e  inusitada  memória  do poeta grego!

O silêncio na sala de aula sugeria ter as suas palavras impressionado bastante as doze ouvintes de Vargas. Ele continuou:

_  Quero  agora  explicar  a  desagradável  inspiração  e  o  motivo  de  ter-lhes narrado  este  escatológico  episódio.  Ontem,  no  final  da  tarde,  o   nosso diretor foi brutalmente assassinado, golpeado no crânio com um busto de mármore.  Além  de  alguns  funcionários,  só  vocês  estavam  presentes nesta  tarde;  como  ele  costumava  conversar  reservadamente  com algumas  de  vocês  à  portas  fechadas  em  seu  gabinete  -  o  tema  destas conversas  em  nada  me  interessa  -  o  delegado  resolveu  tomar-lhe  o depoimento;  vocês  podem  imaginar  a  ridícula  suspeita  que  anima  esse sujeito. Felizmente, acredito ter descoberto uma maneira de atenuar esse constrangimento pois não é possível haver qualquer relação entre vocês e este crime grotesco... - os dedos de Vargas tamborilavam sobre a caixa de charutos - ... como vocês sabem, a diferença entre Homero e um cego comum é o gênio do primeiro e não o cultivo da memória que para nós é quase  um  instinto  de  sobrevivência.  Ao  longo  de  muitos  meses,  e  não somente  por  uma  noite  como  na  fábula  narrada  a  pouco,  eu  tenho convivido com  vocês e  venho  habituando-me aos  delicados  perfumes  que habitam  esta  sala;  é  através  deles  que  lhes  reconheço  quando  nossos passos  se  cruzam  nos  corredores  ou  quando  vocês  se  aproximam  com alguma  questão  ou  comentário.  O  local  é  uma  sala  pequena,  as  janelas estavam  fechadas  devido  ao  frio  rigoroso  e  ele  não  fumava  na  presença de  suas  alunas.  Acompanhem  então  o  meu  raciocínio:  a  sua  caixa  de charutos  ficava  de  costume  aberta  sobre  a  escrivaninha  onde,  com  o golpe mortal, caiu o  corpo do diretor fechando a  caixa. Estas caixas são feitas  com  bordas  aveludadas  para  que  não  se  perca  o  “buquê”  dos charutos e fora lacrada horas depois pelos homens da perícia que tinham ordens expressas de nada tocar, nem abrir, nem fechar.. . O que pretendo fazer  para  evitar  o  constrangimento  de  vocês  serem  interrogadas  é convencer  o  delegado  de  que  há  um  pouco  da  atmosfera  do  crime,  um vestígio dos corpos dentro desta caixa, que posso reconhecer o perfume usual de cada uma de vocês e, não os encontrando, afastar esta suspeita absurda;  além  do  mais,  quem  sabe  não  descubro  alguma  pista  sobre  o verdadeiro  assassino?  O  cheiro  de  uma  bebida,  um  hábito  alimentar  ou mesmo  uma  outra  marca  de  perfume  ou  desodorante?  O  que  vocês pensam de tudo isso?

Uma onda de suspiros e lamentos indignados varreu a sala.

_ O constrangimento é o menor dos nossos problemas, professor, - disse uma  delas  -  ...  diante  de  um  crime  tão  brutal  como  este.  Só  podemos agradecer  a  sua  disposição  em  nos  ajudar  mas  a  nossa  inocência  é  a melhor  defesa  que  temos;  ela  nos  dará  o  ânimo  para  enfrentar  todas  as acusações.  Sugiro  que  esta  aula  seja  encerrada,  estamos  muito transtornadas...  seria  melhor  irmos  para  casa  e  nos  preparar  para  o depoimento...

_ Pode haver fotógrafos na delegacia! - Suspirou uma outra aluna.

Após  a  despedida,  um  pouco  mais  emotiva  do  que  de  costume,  as alunas  se  retiraram;  uma  delas,  nutrindo  por  Vargas  uma  secreta  e gratuita antipatia, passou perto dele e disse:

_  Agora  entendo  porque  o  Sr.  nunca  precisou  de  um  cão  para  guiá-lo… com um faro destes!

Vargas voltou ao gabinete do diretor com a caixa de charutos na mão. O policial havia saído para o almoço. Ele sentou-se na poltrona sentindo-se  solitário  e  hesitando  em  telefonar  ao  delegado.  Temia  não  ser convincente o seu mirabolante estratagema  e temia ainda mais o ridículo decorrente. Ser motivo de risos era uma expectativa assustadora para um homem  velho  e  cego.  Ouviu  então  batidas  suaves  na  porta  e  uma  voz feminina:

_ Posso entrar?

_ Ruth! - Vargas reconheceu a voz e o cheiro campestre de verbena.

_ Podemos conversar um pouco?

_ Sim. Sente-se.

_ Fiquei muito impressionada com a sua história!...

_ Penso que não fui tão enfático como pretendia...

_  Foi  sim,  e  muito!  -  Ruth  torcia  a  bolsa  entre  as  mãos  e  transpirava.  -

...Eu estava aqui nesta sala na hora do crime, mas não sou  assassina!!!

_ Mas como? - Vargas deu um pulo da poltrona.

_ Eles não vão acreditar em mim! - Ruth pôs as mãos no rosto e começou a chorar.

Vargas, sem saber o que fazer, esperou ela se recompor.

_  ...Ele  pediu  que  eu  viesse  a  sua  sala  após  a  última  aula,  sozinha  e  em segredo. Queria tratar das mensalidades atrasadas. Eu tinha ouvido dizer que  muitas  de  minhas  colegas  tiveram  suas  dívidas  perdoadas  e  fiquei com  esperanças  de  conseguir  um  perdão  semelhante  para  as  minhas… Ele  porém  abordou  o  problema  em  um  tom  profundamente  ameaçador  e depois  pediu-me  um  estranho  favor:  queria  que  eu  vestisse  o  novo uniforme de ginástica que ele planejava adotar! Eu fui ao banheiro ao lado da  sala  e  o  vesti.  Recordo-me  que  esse   uniforme,  além  de  muito decotado,  era  inspirado  nas  vestes  gregas  com  bordas  geométricas  e gola  caída  como  um  discreto  manto.  Quando  ele  me  viu  assim  vestida, quis me violentar... aí mesmo nessa poltrona onde o Sr. Está sentado. Ele era  muito  forte  e  cobriu-me  a  boca  com  as  mãos.  Eu  comecei  a  rezar  e lembro-me de, no meu desespero, tomar aquele busto de mármore ali no alto da estante como uma imagem da “Virgem de Guadalupe” de quem a minha mãe é devota... quando então soou o interfone. Ele o atendeu com a  mesma  mão  imunda  com  a  qual  me  despira,  a  outra,  que  eu  tentava morder em vão, ainda sobre o meu rosto. Ele pareceu transtornado com a ligação; largou-me com uma expressão patética e ofegante dizendo-me :

_ Vá! Estão lhe chamando lá fora! - Sentando-se no sofá como se tivesse tendo um enfarto. Eu saí correndo ainda  ouvindo suas ameaças para que eu fizesse silêncio sobre o que tinha acontecido. Agora vem a parte mais difícil... ninguém irá acreditar nisso...

_ Prossiga, por favor.

_ No corredor parecia haver uma luz incomum  e uma névoa envolvia todo o  pátio.  Dentro  dela  parecia  haver  uma  esguia  mulher  com  um  manto resplandecente;  Tinha  olhos  verdes,  cabelos  vermelhos  e  algo semelhante  a  uma  lança  nas  mãos.  Deve  ter  sido  tudo  uma  alucinação pois  não  havia  ninguém  esperando  por  mim  no  portão.  Foi  quando percebi  que  estava  com  o  uniforme  de  ginástica  e  resolvi  voltar  ao gabinete  para  apanhar  minhas  roupas  e  a  minha  bolsa.  Não  tive  mais medo  dele  recomeçar  o  seu  jogo  imundo.  Uma  estranha  sensação  de proteção me acompanhava. O que então eu vi no gabinete do diretor… oh! Deus!...-  Ruth  voltou  a  soluçar.  -  Vi  o  corpo  do  diretor  caído  no  tapete  e um  filete  de  sangue  a  escorrer;  mas  o  grande  pavor  que  senti  foi  olhar para  o  busto  de  mármore  e  vê-lo  sorrindo  para  mim.  Troquei  de roupa  e saí  correndo  até  a  esquina  de  minha  casa  quando  parei  um  pouco  para respirar.  Hoje  na  sala  de  aula  eu  quase  desmaiei  ao  ouvir  a  sua História… Eles vão pensar que estou louca ou, pior, a assassina! Ajude-me por favor!

Vargas ficou um longo momento sem saber o que dizer. Não conseguia imaginar  o  rosto  de  sua  aluna  que  chorava  ao  seu  lado  nem,  muito menos,  a  imagem  de  um  busto  de  mármore  sorrindo.  Tocou-lhe  a  face morna  e  sentiu   lágrimas  escorridas  na  ponta  de  seus  dedos.  Ela  o abraçou enquanto ele a consolava afagando-lhe os cabelos.

_  Você  não  é  obrigada  a  dizer  nada  ao  delegado.  Se  você  é  inocente, tente esquecer o que se passou. Nós sempre recalcamos as coisas que a nossa razão  não compreende. Vá para a sua casa e descanse um pouco. Eu estarei na delegacia na hora do depoimento.

Vargas acompanhou a sua aluna até a porta do colégio. Quem visse os dois  andando  não  saberia  dizer  quem  guiava  o  outro  tão  unidos  e abalados  estavam  com  tudo  o  que  se  passou.  De  volta  ao  gabinete  ele telefonou ao delegado e desmarcou o almoço combinado informando-lhe não  haver  percebido  nada  de  anormal  entre  as  suas  alunas.  Estava  um pouco confuso e resolveu não levar  ao fim o  seu insólito plano da caixa de  charutos;  abriu-a  displicentemente   como  se  o  caso  já  estivesse resolvido. Um suave e bucólico cheiro de verbena invadiu lentamente as suas  narinas.  No  seu  cérebro  excitado  pareceu-lhe  ver  bailar  o  rosto  de Ruth,  nunca  visto  antes,  que  ele  imaginava  agora  como  uma  longa madeixa de cabelos ruivos a envolver dois úmidos e rasos olhos verdes. Uma lágrima aflorava neles e, cruzando alguma válvula misteriosa, correu sobre a face sulcada de Vargas. Ele acendeu um charuto e logo o aroma etéreo  cedeu  ao  fumo  estupefaciente.  A  visão  do  rosto  de  Ruth desapareceu  e  a  sua  consciência  mergulhou  na  habitual  escuridão.



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