“Mas como? Pensam então não haver prazeres nas trevas?” Antipater de Tiro, filósofo estoico do séc. I A. C., contestando algumas mulheres que compadeciam de sua cegueira.
Uma massa de ar frio de origem polar estacionara-se no céu de Buenos Aires e, como um espelho, refletia a tímida luz da manhã. Esse efeito de cristal e o vento soprando pelas frias avenidas faziam os homens andarem cabisbaixos, pescoços e mãos soterrados em sobretudos de lã. O professor Vargas, contudo, destoava desta multidão de pedestres apressados. Ele era cego e, morando a dois quarteirões do Instituto de Letras de Buenos Aires, costumava fazer o percurso em marcha lenta, confiante em sua solidária bengala de marfim e madeira escarlate. Era nesse percurso que costumava elaborar as suas aulas, distinguir as teses e colecionar os exemplos que logo mais usaria diante de uma plateia de doze mestrandas em um curso de Literatura Antiga e Medieval. Para ele era um sublime prazer recordar as histórias encantadas de uma vida debruçada sobre os livros no tempo em que havia vida em seus olhos; também lhe agradava sobremaneira a vivacidade de algumas de suas inteligentes e espirituosas alunas. Os quatro semestres do curso transcorridos havia consolidado uma sólida amizade entre Vargas e suas alunas e ele era capaz de identificá-las por uma simples palavra ou um toque casual. Apesar de conhecer “de cour” o monótono trajeto, Vargas hoje estava transtornado a ponto de repeti-lo várias vezes e ser auxiliado por alguns transeuntes piedosos. Às duas horas da madrugada ele havia sido acordado por um delegado de polícia com uma notícia a lhe deixar insone até à alvorada: no dia anterior, logo após a última aula, precisamente às dezoito horas e trinta minutos segundo a descrição meticulosa do delegado, o diretor do instituto havia sido assassinado com um violento golpe no crânio; um busto de mármore da deusa Palas Athenas, mantido pelo diretor durante anos em uma das estantes do seu gabinete, teria sido a arma do crime. Ainda segundo o delegado, o diretor fora visto meia hora antes no corredor do instituto, havia dispensado mais cedo o seu secretário e pedira ao vigilante para não ser incomodado pois pretendia tratar de um assunto delicado com uma estudante, encontros que aconteciam com certa regularidade de acordo com o depoimento do próprio vigilante que, possuindo o diretor as chaves do portão, saía às dezoito horas e, duas horas depois, um outro vigilante assumia o turno da noite. Este, ao chegar ao local, encontrou o portão aberto e a luz do gabinete acesa, encontrando também o corpo do diretor caído no tapete e telefonando imediatamente para a delegacia. A única turma presente no final desta tarde era a das alunas de Vargas em uma aula de grego ministrada por um padre que nada havia percebido de anormal entre as alunas além do interesse habitual pelas metáforas de Homero; também não observara a saída das alunas pois, ao findar as aulas, era o primeiro a sair apanhando um bonde até outro colégio no lado oposto da cidade onde completava o seu mísero salário. Em um país subjugado por uma tirania militar, como era a Argentina nesta época, não fora difícil para o delegado manter a imprensa afastada do caso. Havia marcas evidentes deste espírito autoritário na maneira como Vargas fora acordado em sua casa durante a madrugada.
_ Sr. Vargas! - Havia ele dito - ... olhei a ficha escolar de todas estas alunas e nada descobri de comprometedor exceto o fato de todas elas deverem muitas mensalidades. O Sr. Sabe da crise financeira que estamos atravessando! - Seus braços moviam-se em uma teatralidade desnecessária diante de um cego de pijamas - ... mas não acredito que uma dívida deste tamanho tenha algo a ver com este crime, aliás, um crime nestas circunstâncias não resolveria nada...
_ O Sr. já pensou na possibilidade de um estranho ter penetrado no colégio, um latrocínio ou mesmo um acidente?
_ Já pensei em tudo isso. Nada de valor desapareceu e a cena do crime expulsa qualquer possibilidade de um acidente. É por isso que ainda não intimei as suas alunas para depor. Uma delas é a assassina e o segredo é um de nossos métodos de investigação. Também estamos investigando a vida desse pobre diretor; talvez ele tenha um obscuro episódio em sua vida motivando esse crime, uma dívida de jogo, uma amante... - o delegado parecia hesitar em suas suspeitas.
_ E que tipo de ajuda eu posso oferecer?
_ Em primeiro lugar, eu gostaria de saber se você conhecia alguma particularidade nos hábitos da vítima, algum detalhe sigiloso, uma confissão distraída... o Sr. é famoso por possuir uma memória prodigiosa!
_Não tenho nada de prodigioso; tenho a memória que um cego comum necessita ter. Recordo a distância entre os obstáculos, sei reconhecer alguém pelo toque das mãos e outros truques que aprendemos nesta miserável condição! Quanto ao diretor, as poucas conversas que tivemos resumiam-se à questões enfadonhas e literárias. Ele era um helenista amador, nunca havia publicado nada sobre o seu tema favorito, a mitologia grega, mas gravitava nela todas as suas conversas e confesso que muitas vezes ele me entediava com a sua erudição... não a ponto de querer silenciá-lo de um modo tão violento!
_ Há um outro favor que o senhor poderia nos prestar, prof. Vargas. De acordo com o programa, as doze mestrandas estarão logo mais assistindo à sua aula e este é o motivo maior desta minha visita tão inoportuna,... - o delegado sabia ser polido quando lhe convinha - ...gostaria que o Sr. observasse-as com extrema atenção; alguma conduta anormal, alguma pista ou álibis... vou intimá-las no final da tarde e sua sagacidade será para nós um poderoso aliado.
_ Não lhe parece estranho pedir um favor destes a um homem cego?
_ Sim, mas não temos escolha. Não podemos manter esse crime em sigilo por muito tempo. Quando for revelado as aulas serão suspensas e é seu o primeiro horário. Se eu ou um outro estranho assistir à sua aula, a assassina, supondo que seja mesmo uma delas, tomará maiores precauções. Por favor me telefone antes do almoço, poderemos almoçar juntos. Desculpe-me o incômodo de lhe acordar a esta hora e de suspeitar de uma de suas alunas. Não precisa me acompanhar até a porta.
Vargas recordava esta cena noturna como um pesadelo e chegou ao Instituto de Letras sem ter a mínima ideia do que iria falar durante a aula. A morte brutal do diretor e a suspeita de ser a assassina uma de suas alunas abatiam o seu espírito e ele mandou avisar que iria se atrasar por uns quinze minutos. Bebeu um gole d’água no corredor e entrou no gabinete do diretor onde havia um policial à paisana folheando revistas no sofá da recepção. Logo percebeu que a ordem meticulosa dos objetos, pela qual a vítima tanto zelava, estava um pouco perturbada. A sua mão deslizou sobre a estante de livros e sentiu a falta do busto de mármore recolhido pela perícia em busca de digitais. “ Todas as minhas alunas usam luvas !”, Vargas pensou e arrependeu-se de estar agindo como um policial. Recordou os momentos agradáveis passados ali naquela sala quando o diretor lhe oferecia um saboroso “Corona” e juntos davam longas baforadas; sua mão procurou a caixa de charutos sobre a escrivaninha encontrando-a fechada. Inadvertidamente tentou abrir a caixa quando a sombra de uma ideia projetou-se em seu espírito inquieto. Escondeu a caixa de charutos sob as roupas, dissimulou-se atrás de uma milonga bem assobiada e saiu apressado do gabinete. Após algumas voltas no pátio, com o semblante mergulhado em profundos pensamentos, ele cruzou a porta da sala-de-aula. Um feminino e uníssono bom-dia ressoou pela sala. Como um maestro percebendo a afinação dos seus instrumentos, Vargas conseguia distinguir a voz de cada uma de suas alunas. Sentiu que uma delas estava resfriada, outra deprimida e muitas ainda ressentida com as notas baixas que ele havia distribuído na última prova aplicada. Ele costumava iniciar a aula com uma prévia exposição dos temas e problemas visados mas estava nesse dia bastante circunspecto e obnubilado. Seus olhos baços e perdidos sugeria hesitação e insegurança.
_ Minhas queridas alunas, - começou a falar com a voz embargada - tenho o costume de expor uma tese e depois narrar uma história como ilustração, um procedimento à moda platônica sem pretender contudo às potências míticas e dialéticas deste grande filósofo. Hoje limitar-me-ei a uma simples narrativa, o motivo vocês logo o saberão. Salvo engano, o episódio que irão ouvir encontra-se no livro “História Verdadeira” de Luciano de Samósata, um dos primeiros autores gregos de contos fantásticos, mas não sou muito bom em títulos, autores e datas e posso estar enganado. Trata-se de uma aventura, provavelmente inspirada em Simonides, vivida pelo poeta Homero durante uma viagem à Frígia, região da Ásia Menor. Não havia ele escrito ainda este que talvez seja o mais belo livro da humanidade, “A Ilíada”, mas já era completamente cego e nesta viagem recolhia os testemunhos e as lendas sobre a fabulosa guerra de Tróia. Fabulosa também era a memória necessária em apreender tantas informações, o nome de tantas naus, tantos guerreiros e filiações, tantas rimas e metáforas consolidadas no canto dos aedos. Podemos acreditar ser toda a vida de Homero dedicada a esta obra, sonhando-a em noites de obstinadas e transcendentais recordações. Além de uma concentrada atenção nos fragmentos históricos ouvidos em praças e mercados, Homero possuía uma soberba mnemotécnica capaz de associar nomes e números, fatos e descrições, os detalhes mais diversos cifrados em rimas habilidosas. É notável que muitas descrições da Ilíada coadunam com as recentes descobertas arqueológicas no sítio de Tróia, o que faz de Homero, escrevendo séculos após a estória transcorrida, um raro e feliz exemplo do conhecimento do primeiro gênero, isto é, por ouvir dizer (esta referência histórica tem assombrado comentadores no mundo inteiro). Segundo o nosso autor, Homero costumava escrever laudatórios poemas e encômios para reis e rainhas garantindo assim o custeio de suas viagens e pesquisas. Durante a sua estadia na Frígia, o emissário de uma rainha chamada Astréia lhe faz uma visita e encomenda-lhe um longo poema em homenagem à rainha que seria declamado no dia do aniversário dela em um banquete no palácio. Homero não hesitou. Sabia que o melhor caminho para alcançar a glória literária era dedicar o seu texto à uma mulher; vaidosas, elas tudo fariam para que a obra e a dedicatória fossem lidas por muitos...
Um murmúrio de protesto ressoou pela sala!
...Homero combinou então o preço do seu poema com o emissário, doze talentos de ouro, sendo metade adiantado e metade após a leitura durante o banquete. Após fazer muitas perguntas sobre a vida e a fisionomia da soberana, Homero despediu o emissário e dedicou-se à gênese do poema. A rainha Astréia orgulhava-se de ser descendente das lendárias amazonas e fomentava a lenda de façanhas guerreiras à frente de um poderoso exército. Em breve um canto épico começou a florescer no espírito do poeta cego. Muitas das célebres metáforas da Ilíada foram usadas neste canto. Sobre as armas da rainha, ele dizia haver “um desejo de morte na flecha que voa”, o seu olhar belicoso era “um feixe de flechas disparadas com um único alvo” e a “aurora de dedos róseos tinha esta cor devido ao sangue das vítimas da soberana amanhecidas no campo de batalha. Como era de costume nestes cantos de soberania, quando era tecida a filiação divina do homenageado, Homero compôs um longo paralelo entre a rainha e Palas Atenas, a deusa da guerra e da sabedoria. Uma semana depois o emissário retorna e o conduz até ao palácio onde o banquete seria consumado. Viajaram ao amanhecer, cruzando mercados, desertos e trilhas nas montanhas. O olor de um bosque florido venceu o suor dos cavalos às portas do palácio. Um incenso de lótus evoluía pelas solenes escadarias e o sândalo impregnava os aposentos onde o poeta fora instalado. Ele nunca antes havia inalado perfumes tão distintos e delicados, a composição e a intensidade dos aromas no palácio sugerindo uma exótica ciência e produzindo no poeta sublimes estados de alma. A corte da rainha Astréia era composta por onze mulheres, esposas de chefes tribais e guerreiros, mas nada desautoriza crer serem elas quem de fato exerciam o poder. Eram doze matronas renomadas e Homero logo imaginou estar diante das mais iniciadas perfumistas da antiguidade. Conheceu e confabulou com todas elas e maravilhou-se com a adequação que parecia haver entre o perfume e a personalidade da usuária e, em breve, passeando pelo interior do palácio era capaz de dirigir a palavra sabendo quem estava ao seu lado graças aos aromas exóticos que as cortesãs emulavam. Após o banquete de aniversário, todos permaneceram em volta da grande mesa de alabastro e Astréia pediu a Homero que declamasse enfim o seu poema. Através da boca bem-aventurada jorrou-se as mais doces palavras que u’a mulher pode ouvir. A rainha sorria e ruborizava-se diante de tão generosos epítetos e louvores exaltados. Então, na metade do seu poema, Homero abordou a filiação da rainha à deusa Palas Atenas e, inflamado, passou a elogiar a deusa, seus olhos glaucos, a sua inteligência e seus feitos heroicos de guerra; neste encômio usando toda a segunda parte do poema.. A sua cegueira e o seu entusiasmo impediram-lhe perceber a mudança de humor nas faces ciumentas da rainha. O seu espírito religioso, entregue aos louvores à deusa, turvou-lhe a sua já delicada percepção da realidade. Um longo silêncio perdurou após a declamação do poema que parecia, por um tempo, ainda ressoar nas frias paredes de mármore do palácio. Em um tom sinistro e jocoso, a rainha pronunciou-se:
_ Divino poeta, confesso jamais ter ouvido versos tão belos e, se pudesse ver a lágrima corrida em minha face, desnecessárias seriam estas minhas palavras de agradecimento. Provavelmente a deusa Atenas deve estar tão emocionada quanto eu. É uma honra imensa filiar-me a uma deusa que parece ser a mais sublime do universo após o encanto do seu poema. Quero lhe fazer uma proposta que será também uma homenagem a esta esplêndida divindade. Você compôs metade do poema para ela e metade para mim. Os seis talentos de ouro que lhe foram adiantados será a minha parte do pagamento; a outra metade deixaremos que a deusa lhe pague ! Acredito que você mereça muito mais como recompensa...
Um sorriso irônico brotou nos lábios das cortesãs, não encontrando censura no olhar vingativo da rainha. Homero enrubesceu como a aurora de suas metáforas e sentou-se constrangido e transtornado; sentiu os seis talentos de ouro naufragarem na mágoa de seu fracasso. Novas conversas, das quais Homero não entendia nem fazia parte, envolveu as comensais e a sua amada rainha. Homero esperava uma chance para se retirar envergonhado quando um servo apresentou-se na sala real e informou haver no pátio u’a mulher em trajes de guerra desejando ver o poeta e exigindo que ele viesse sozinho. Homero cumprimentou a rainha com descompensada mesura e, guiado pelo servo, retirou-se do recinto. No pátio, onde deveria estar a intempestiva visitante, um clarão de luz desenhou na sua consciência a imagem de uma guerreira com paramentos de ouro, um arco e uma aljava de flechas na mão. Ouviu-se um trovão ensurdecedor retumbar pelas montanhas; em seguida o teto de mármore do salão desabou esmagando a rainha Astréia e suas onze convidadas. Após o pânico que assaltou o palácio surgiu um embaraçoso problema: os corpos estavam tão desfigurados sob os escombros que os parentes das vítimas não conseguiam identificá-los e já se falava em uma tumba coletiva quando Homero apresentou uma solução ao problema. Ele se lembrava do nome e do respectivo perfume de cada uma das ilustres comensais. Os servos recolhiam os cadáveres informes em lençóis e Homero, sem esconder uma profunda repugnância, inalava os corpos em busca do perfume e pronunciava solene o nome da vítima. O autor desta funesta história acentua a vingança da deusa pela afronta ao seu nome e ao seu dedicado poeta, a recompensa de ter-lhe salvo a vida com uma intervenção pessoal e faz desta aparição da deusa no palácio uma homenagem ao seu autor preferido, Eurípedes, acusado de abusar das aparições divinas em suas peças de teatro. Para nós – concluiu Vargas – a singularidade desta narrativa é a prodigiosa e inusitada memória do poeta grego!
O silêncio na sala de aula sugeria ter as suas palavras impressionado bastante as doze ouvintes de Vargas. Ele continuou:
_ Quero agora explicar a desagradável inspiração e o motivo de ter-lhes narrado este escatológico episódio. Ontem, no final da tarde, o nosso diretor foi brutalmente assassinado, golpeado no crânio com um busto de mármore. Além de alguns funcionários, só vocês estavam presentes nesta tarde; como ele costumava conversar reservadamente com algumas de vocês à portas fechadas em seu gabinete - o tema destas conversas em nada me interessa - o delegado resolveu tomar-lhe o depoimento; vocês podem imaginar a ridícula suspeita que anima esse sujeito. Felizmente, acredito ter descoberto uma maneira de atenuar esse constrangimento pois não é possível haver qualquer relação entre vocês e este crime grotesco... - os dedos de Vargas tamborilavam sobre a caixa de charutos - ... como vocês sabem, a diferença entre Homero e um cego comum é o gênio do primeiro e não o cultivo da memória que para nós é quase um instinto de sobrevivência. Ao longo de muitos meses, e não somente por uma noite como na fábula narrada a pouco, eu tenho convivido com vocês e venho habituando-me aos delicados perfumes que habitam esta sala; é através deles que lhes reconheço quando nossos passos se cruzam nos corredores ou quando vocês se aproximam com alguma questão ou comentário. O local é uma sala pequena, as janelas estavam fechadas devido ao frio rigoroso e ele não fumava na presença de suas alunas. Acompanhem então o meu raciocínio: a sua caixa de charutos ficava de costume aberta sobre a escrivaninha onde, com o golpe mortal, caiu o corpo do diretor fechando a caixa. Estas caixas são feitas com bordas aveludadas para que não se perca o “buquê” dos charutos e fora lacrada horas depois pelos homens da perícia que tinham ordens expressas de nada tocar, nem abrir, nem fechar.. . O que pretendo fazer para evitar o constrangimento de vocês serem interrogadas é convencer o delegado de que há um pouco da atmosfera do crime, um vestígio dos corpos dentro desta caixa, que posso reconhecer o perfume usual de cada uma de vocês e, não os encontrando, afastar esta suspeita absurda; além do mais, quem sabe não descubro alguma pista sobre o verdadeiro assassino? O cheiro de uma bebida, um hábito alimentar ou mesmo uma outra marca de perfume ou desodorante? O que vocês pensam de tudo isso?
Uma onda de suspiros e lamentos indignados varreu a sala.
_ O constrangimento é o menor dos nossos problemas, professor, - disse uma delas - ... diante de um crime tão brutal como este. Só podemos agradecer a sua disposição em nos ajudar mas a nossa inocência é a melhor defesa que temos; ela nos dará o ânimo para enfrentar todas as acusações. Sugiro que esta aula seja encerrada, estamos muito transtornadas... seria melhor irmos para casa e nos preparar para o depoimento...
_ Pode haver fotógrafos na delegacia! - Suspirou uma outra aluna.
Após a despedida, um pouco mais emotiva do que de costume, as alunas se retiraram; uma delas, nutrindo por Vargas uma secreta e gratuita antipatia, passou perto dele e disse:
_ Agora entendo porque o Sr. nunca precisou de um cão para guiá-lo… com um faro destes!
Vargas voltou ao gabinete do diretor com a caixa de charutos na mão. O policial havia saído para o almoço. Ele sentou-se na poltrona sentindo-se solitário e hesitando em telefonar ao delegado. Temia não ser convincente o seu mirabolante estratagema e temia ainda mais o ridículo decorrente. Ser motivo de risos era uma expectativa assustadora para um homem velho e cego. Ouviu então batidas suaves na porta e uma voz feminina:
_ Posso entrar?
_ Ruth! - Vargas reconheceu a voz e o cheiro campestre de verbena.
_ Podemos conversar um pouco?
_ Sim. Sente-se.
_ Fiquei muito impressionada com a sua história!...
_ Penso que não fui tão enfático como pretendia...
_ Foi sim, e muito! - Ruth torcia a bolsa entre as mãos e transpirava. -
...Eu estava aqui nesta sala na hora do crime, mas não sou assassina!!!
_ Mas como? - Vargas deu um pulo da poltrona.
_ Eles não vão acreditar em mim! - Ruth pôs as mãos no rosto e começou a chorar.
Vargas, sem saber o que fazer, esperou ela se recompor.
_ ...Ele pediu que eu viesse a sua sala após a última aula, sozinha e em segredo. Queria tratar das mensalidades atrasadas. Eu tinha ouvido dizer que muitas de minhas colegas tiveram suas dívidas perdoadas e fiquei com esperanças de conseguir um perdão semelhante para as minhas… Ele porém abordou o problema em um tom profundamente ameaçador e depois pediu-me um estranho favor: queria que eu vestisse o novo uniforme de ginástica que ele planejava adotar! Eu fui ao banheiro ao lado da sala e o vesti. Recordo-me que esse uniforme, além de muito decotado, era inspirado nas vestes gregas com bordas geométricas e gola caída como um discreto manto. Quando ele me viu assim vestida, quis me violentar... aí mesmo nessa poltrona onde o Sr. Está sentado. Ele era muito forte e cobriu-me a boca com as mãos. Eu comecei a rezar e lembro-me de, no meu desespero, tomar aquele busto de mármore ali no alto da estante como uma imagem da “Virgem de Guadalupe” de quem a minha mãe é devota... quando então soou o interfone. Ele o atendeu com a mesma mão imunda com a qual me despira, a outra, que eu tentava morder em vão, ainda sobre o meu rosto. Ele pareceu transtornado com a ligação; largou-me com uma expressão patética e ofegante dizendo-me :
_ Vá! Estão lhe chamando lá fora! - Sentando-se no sofá como se tivesse tendo um enfarto. Eu saí correndo ainda ouvindo suas ameaças para que eu fizesse silêncio sobre o que tinha acontecido. Agora vem a parte mais difícil... ninguém irá acreditar nisso...
_ Prossiga, por favor.
_ No corredor parecia haver uma luz incomum e uma névoa envolvia todo o pátio. Dentro dela parecia haver uma esguia mulher com um manto resplandecente; Tinha olhos verdes, cabelos vermelhos e algo semelhante a uma lança nas mãos. Deve ter sido tudo uma alucinação pois não havia ninguém esperando por mim no portão. Foi quando percebi que estava com o uniforme de ginástica e resolvi voltar ao gabinete para apanhar minhas roupas e a minha bolsa. Não tive mais medo dele recomeçar o seu jogo imundo. Uma estranha sensação de proteção me acompanhava. O que então eu vi no gabinete do diretor… oh! Deus!...- Ruth voltou a soluçar. - Vi o corpo do diretor caído no tapete e um filete de sangue a escorrer; mas o grande pavor que senti foi olhar para o busto de mármore e vê-lo sorrindo para mim. Troquei de roupa e saí correndo até a esquina de minha casa quando parei um pouco para respirar. Hoje na sala de aula eu quase desmaiei ao ouvir a sua História… Eles vão pensar que estou louca ou, pior, a assassina! Ajude-me por favor!
Vargas ficou um longo momento sem saber o que dizer. Não conseguia imaginar o rosto de sua aluna que chorava ao seu lado nem, muito menos, a imagem de um busto de mármore sorrindo. Tocou-lhe a face morna e sentiu lágrimas escorridas na ponta de seus dedos. Ela o abraçou enquanto ele a consolava afagando-lhe os cabelos.
_ Você não é obrigada a dizer nada ao delegado. Se você é inocente, tente esquecer o que se passou. Nós sempre recalcamos as coisas que a nossa razão não compreende. Vá para a sua casa e descanse um pouco. Eu estarei na delegacia na hora do depoimento.
Vargas acompanhou a sua aluna até a porta do colégio. Quem visse os dois andando não saberia dizer quem guiava o outro tão unidos e abalados estavam com tudo o que se passou. De volta ao gabinete ele telefonou ao delegado e desmarcou o almoço combinado informando-lhe não haver percebido nada de anormal entre as suas alunas. Estava um pouco confuso e resolveu não levar ao fim o seu insólito plano da caixa de charutos; abriu-a displicentemente como se o caso já estivesse resolvido. Um suave e bucólico cheiro de verbena invadiu lentamente as suas narinas. No seu cérebro excitado pareceu-lhe ver bailar o rosto de Ruth, nunca visto antes, que ele imaginava agora como uma longa madeixa de cabelos ruivos a envolver dois úmidos e rasos olhos verdes. Uma lágrima aflorava neles e, cruzando alguma válvula misteriosa, correu sobre a face sulcada de Vargas. Ele acendeu um charuto e logo o aroma etéreo cedeu ao fumo estupefaciente. A visão do rosto de Ruth desapareceu e a sua consciência mergulhou na habitual escuridão.
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