domingo, 6 de março de 2022

FANTASMAS NO TRIBUNAL

 


O presente é uma dimensão do tempo profundamente desagradável e sempre hei de preferir requentar casos antigos a ser um cronista. Agora mesmo estou a recordar de um fato escatológico ocorrido em Itambé-Ba nos idos de 1970 e lá vai fumaça. Uma agiota reputada fora brutalmente assassinada e seu corpo, nunca encontrado, mas fortes indícios ligavam seu desaparecimento a um de seus clientes (soube-se depois que, em uma macabra reunião, seus devedores sorteavam um deles para matar a agiota sem que ninguém ficasse sabendo quem foi o sorteado e todos se comprometiam a dificultar o máximo possível as futuras investigações. Na verdade, rumores posteriores deram conta de que todos sabiam o resultado do sorteio: quem tirasse do baralho um valete iria fazer o serviço supostamente no anonimato. Acontece que todos sabiam só haver valetes no baralho menos o escolhido para ser o assassino, um rude mecânico que devia até a alma à agiota, mas incapaz de adivinhar o ardil montado pela mente capciosa do pecuarista Ry Cabritto). Sangue nas roupas, testemunhas que afirmavam terem visto o assassino entrar na casa da vítima, gritos abafados... Uma série de “provas técnicas” capazes de indiciar e levar alguém aos tribunais, mesmo na ausência do corpo da vítima, foram elencados pelo delegado Corcoran e usadas para indiciar o negro Aroldo como o assassino. “Suffit Supositas” era o eclesiástico termo do processo que o  levou ao banco dos réus pelo assassinato de Dona Dionê (ou Dionê doida, como era conhecida). O promotor, Dr Heitor, elencou as provas técnicas e acusou impiedosamente o mecânico. Seu advogado, o empedernido e empertigado Dr. Gallo, arriscando sua já duvidosa reputação, usou de um lambanceiro e capcioso artifício. Limpou a garganta e falou para o tribunal apinhado de simpatizantes (quase toda a cidade devia dinheiro para Dionê doida):

- Meritíssimo! Vou provar peremptoriamente a inocência do meu cliente, aqui tão difamado. Ao estalar dos meus dedos, a vítima, a suposta assassinada Dona Dionê irá entrar por aquela porta lateral, vivíssima e vendendo saúde, ou emprestando, como queiram. E faço isso agora.  ENTRAI!

E apontou enfático para a porta lateral como Moisés no promontório apontando ao mar vermelho. A multidão, os jurados, o juiz e os guardas, todos se voltaram para o local em um murmúrio silencioso e comovente. Passaram alguns segundos e, obviamente, ninguém passou por ali. O ardiloso prosseguiu:

_ Viu só, meritíssimo? Todos os jurados se voltaram ansiosos à espera que a vítima aparecesse e inocentasse o meu cliente. Como poderiam então estar eles certos de haver nesta sala um culpado? Peço, senhores jurados, que considerem esta dúvida solerte em suas consciências quando decidirem sobre a ambigüidade dos fatos pela promotoria apresentados!

Os jurados se retiraram para o veredicto prontamente lido pelo juiz, após um curto e solene intervalo. Impassível, o magistrado bateu o martelo e declarou o mecânico culpado, estipulando-lhe a pena máxima. O advogado protestou:

_ Meritíssimo! Todos olharam para a porta esperando a comprovação da inocência! A opinião, o foro íntimo – realçando essa palavrinha que era moda, então -  do nosso povo não deveria ser levado em consideração?

_ Sim! – Arrematou o preclaro – Todos olharam para a porta à espera de Dona Dionê. Menos um: o seu cliente; que, talvez pelo escabroso peso da culpa, permaneceu o tempo todo cabisbaixo, certo de que nem mesmo o fantasma da morta, se fantasmas houvessem, viria inocentá-lo depois da barbárie por ele praticada. 

Detalhe: o Juiz e o advogado também deviam dinheiro para a agiota, o que faria desse julgamento, se de fato tivesse mesmo acontecido, uma farsa e da minha história, uma mentira descarada! Deixo a dúvida no ar e, para que nenhuma testemunha viva ainda morando lá em Itambé possa desvirtuar os fatos aqui compilados, estou descendo a Serra do Marçal para finalizar seus CPF’s!

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