quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Na Biblioteca de Jorge Luís Borges

 






      A sensação de estar lidando com um labirinto, atributo essencial da obra de Borges, duplica-se quando se tenta fazer dela uma reflexão. O autor desaparece e a obra labiríntica se torna o próprio minotauro inacessível na trama dessas infinitas linhas. Esta impessoalidade não só torna evidente a condição trágica de um pensador perdido como é marca também de uma admirável atividade estética: por um lado a polidez e a univocidade desta escrita funcionam como um espelho e um convite para os leitores hedonistas: por outro, a filigrana barroca dos adjetivos e dos avatares complicados deforma e corrige este espelho, e gratos são os réprobos que não gostariam de ver o seu rosto refletido nos seus textos. Seguindo esta via da impessoalidade, veremos que ela é a condição necessária de todo escritor que sabe contemplar os acontecimentos e se deixa levar por eles. Os acontecimentos são impessoais por natureza; impassíveis e incorporais, eles não se reduzem a um sujeito psicológico, a uma objetividade material e científica, a uma descrição coordenada e verdadeira. Expressos na linguagem, eles exigem na sua concretude uma língua descentrada cujo único ponto de vista adequado é a visão noética e espiritual de um pensamento que transcende o sujeito, de um duplo em nós que pensa e se expressa, um duplo tão intenso que pode mesmo nos ocultar o Borges verdadeiro. Nos sonhos, diz Borges, as imagens são criradas em função dos nossos temores e anseios. Na vigília, acredito, era a imagem dele no espelho, símbolo desse duplo que lhe consumiria os olhos e os dias. a causa dos seus pesadelos. Essa ideia de um duplo é um obsessivo personagem na literatura universal e Borges, com obstinação, mapeava suas pegadas, do Kolossós grego à Jane bifronte dos poemas.de William Shakespeare à Stevenson e a Poe, e o mérito de Borges foi fazer esse duplo funcionar no contexto de livros polidos como a superfície dos espelhos. Borges teve o ceticismo necessário para duvidar de uma teoria natural e evolucionista da linguagem e isso lhe aproximou do fervor teológico que pensa a linguagem como o instrumento de uma revelação: os acontecimentos são eternos e podem se reencarnar, serem contra efetuados na medida em que tenhamos posse das palavras adequadas, da perfeita combinação e da justa sonoridade. Borges mergulha na poesia e na Cabala. Neste verso "Buenos Aires é quase Benares", ele expressa o sonho do oriente místico e transgeográfico, uma região do pensamento onde as teologias divinas e reveladas, os desertos de tempo e areia e a poesia dos profetas inflamados são partes da rotina dos homens e de seus hábitos. Mil e Uma Noites leva Borges a fabricar o seu "golem", o boneco insuflado de vida pelas palavras mágicas de um rabino em Praga; hoje somos nós os bonecos a polir com veneração a sinagoga de seus textos esmerados. A pré-existência da língua na forma de sentidos virtuais é um aspecto da Cabala que nos traz de volta o tema da impessoalidade que seria, segundo Borges, uma virtude eminentemente oriental: talvez nenhum texto tenha mais ressonância com a sua obra que "As Mil e Uma Noites" o sonho de incontáveis autores anônimos atravessando tempo e espaço em ondas literárias, a cruzar os mares do sul, invadir a biblioteca de Buenos Aires e, pela boca de um bem- aventurado, prosseguir a intermitente viagem de infinitos contágios. Um enunciado do autor ilustra bem a sua relação com a filosofia: "A metafísica é um gênero da literatura fantástica”. Aristóteles definiu a metafísica como a "ciência do ser enquanto ser" e acrescenta depois que tal ciência  causa em nós de uma sensação: o espanto; a nossa relação com os conceitos abstraídos da sensibilidade suspenderia os laços com o mundo cotidiano, desviaria a atenção dos problemas habituais deixando-nos surpresos e atônitos que são outros sinônimos para o quê o estagirita chamava de espanto. Para Borges, outras narrativas seriam capazes de produzir em nós esta sensação além dos textos conceituais. As novelas góticas, as teogonias, as mitologias, as Mil e Uma Noites — títulos possíveis para a obra deste escritor não pararam de produzir novos mundos.de arrastar nossos pensamentos da banalidade cotidiana. O maravilhoso lida com fábulas e cenas sobrenaturais, o realismo nos remete de volta para o mundo banal e científico das leis naturais; o fantástico habita o intervalo entre esses dois gêneros e nele as crenças hesitam, as verdades se abalam, o entusiasmo se inflama. No prodigioso conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius". vemos um mundo surgir da imaginação dos homens para as páginas de uma enciclopédia mas nesse mundo sonhado os objetos possuem o dom da ubiquidade, duplicam-se como imagens no espelho e ficamos perplexos quando Borges descobre na Biblioteca de Buenos Aires volumes desta enciclopédia ainda não escritos pelos homens da terra e que seriam símiles prováveis e concretos de um congênito mundo ideal; porém, muitas são as tendências estéticas de Borges e mais adequado será definir a literatura fantástica como um gênero da sua atividade literária. Mapear gêneros é semelhante a decompor um quadro em mosaicos e por mais exaustiva que seja a nossa inteligência, perderíamos sempre o ato simples e criativo do pensamento que para se expressar inventa todas as formalidades. Os poemas espalhados por sua obra refletem bem o predomínio de uma inspiração profunda, de origem divina, de uma emotividade dobrando a ontologia formal da linguagem (os inspirados e a sua morada). Quem suspeitaria que seus versos foram arduamente lapidados quando o ritmo e a sonoridade parecem decorrerem com naturalidade do entendimento e do fluxo intrínseco da sua alma? Com a sacralidade que exigem os poetas, deixamos que um poema seu fale por nós no silêncio de uma língua prosaica: LIMITES: Se para tudo há fim e certa taxa,/ E última vez e nunca mais e olvido,/ Quem nos dirá de quem, aqui na casa,/ Sem o saber, nos temos despedido?/ Atrás da gris vidraça a noite cessa./ E dentre os livros que uma sombra trunca,/ Esparramando-os pela vaga mesa,/ Um haverá que não leremos nunca!/    Na aurora creio ouvir atarefado/ Rumor de muita gente se afastando,/ São os que me quiseram e me esqueceram:/ espaço e tempo e Borges me deixando! O esquecimento, o crepúsculo, a despedida, muitos são os temas empalidecidos pela sombra das suas clássicas narrativas. são faces pouco usuais de moedas que a poesia soube resgatar. No anverso de “Funes, o memorioso” encontramos o olvido; no mapeamento exaustivo da eternidade ouvimos murmurar o rio de Heráclito e o ser do devir: e as arquiteturas sinuosas de seus complicados palácios parecem se assentar sobre lisos desertos não menos labirínticos. Borges, vivo e anônimo em Buenos Aires, Borges morto e vivo nos eternos livros, vida e arte em Borges são dois espelhos conjugados e polidos. Do vasto imaginário borgeano talvez a mais bela das imagens nos passe despercebida por serem elas todas as imagens, inclusive a nossa ao ler os seus livros: o cristal, o jogo das contas de vidro, o palácio de tempo e espaço feito de espelhos infinitos. Cada página extremamente polida pela magia da sua escrita faz brilhar uma cor inconfundível como graus luminosos em harmonia com outras páginas de outros livros. Bem-aventurado aquele que definir sua obra como um esmerado e perfeito prisma. Dentro dele um homem cego sonha e escreve, um terceiro olho brota nas redes labirínticas do cérebro e inunda de luz o universo onde vivemos e que é apenas a face côncava desse ponto luminoso onde jorra a poesia, Aleph imemorial e convexo. Se hoje procuramos esquecer esta obra como ele também quis se esquecer do Aleph é por ser nossa memória incapaz de reter o infinito palimpsesto que além do real contém todos os possíveis universos: cidades crepusculares e gaúchos heroicos em lupanares perversos, alquimistas desfolhando essências como pétalas da rosa de Paracelso, jardins orientais com finas luas refletidas em estanques cisternas, com tigres azuis e sedentos, com imperadores que sonham ser uma libélula. adagas, cimitarras e punhais nas finas lâminas de um poema. paradoxos da luz que nos ilumina ao mesmo tempo que nos cegam. Este poeta acreditava que a reunião de todas as imagens do universo comporia um grande rosto dormente, fiel, incorruptível: a face impávida de Deus. a Facie Toties Universi. Este sonho que remonta a Santo Agostinho e que foi sonhado incessantemente nas noites medievais, ganhou em Borges um acréscimo de novas imagens e Deus deve ser grato pelas novas cores no seu rosto opalescente: crepúsculos escarlates, a sombra e o ouro dos tigres, o aço das espadas e o ornamento dos símbolos; o tigre, animal que o fascina, também é o negro das árvores e o sol dourado da floresta; a noite com incontáveis estrelas é a hidra com mil olhos que lhe espreita, os livros são letras de um alfabeto divino e o universo, uma infinita biblioteca. A conjugação destes símbolos em páginas de livros enciclopédicos, na coalescente memória de um cego, formam intrincados labirintos. Espalhadas pelo vasto universo, estas imagens se perdem aos olhos comuns e ao olhar inteligente: para uni-las e compor esta face absoluta de Deus é preciso desviar os olhos da vida cotidiana e aspirar pelo "nôus", a visão intuitiva que é o dom secreto dos cegos. "Demócrito de Abdera arrancou os olhos para pensar / O tempo foi meu Demócrito". Claro está que esta confissão pode ser apenas outro símbolo da sua ascese. No mundo de sombras em que vive um escritor, realidade e símbolo no caso de Borges, a força estoica de afirmar o destino ilumina suas noites e os poemas, que são outras estrelas, brilham nesta penumbra. Na Divina Comédia de Dante Alighieri os primeiros versos dizem: "No meio do caminho de nossa vida / me encontrei em uma selva escura..." Mais que um símbolo, a escuridão, a cegueira e a noite de um escritor refletem um abandono deste ao mundo das tolices, dos valores do seu tempo, das banalidades cotidianas. Livre das escolas e dos gêneros contemporâneos, o escritor intempestivo estuda a literatura de todos os tempos e as páginas que emergem desse encontro, os prólogos, as criticas e os ensaios de Borges, enquanto leitor exaustivo, fazem parte inseparável da sua obra, do seu tempo e do seu estilo. A obsessiva, imóvel e eterna imagem do espelho retorna ilustrando esta nova face do autor: o polido leitor e a serena reflexão desse vasto mar literário onde se afoga sua visão. Tratar os livros como acontecimentos, dissecar os acidentes literários e nos ofertar a essência das tramas e as novelas em sua gênese ideal é uma vertente da sua generosidade. Os livros são outros tantos personagens, com ornamentos próprios: tipos de letras, capas e gravuras, lombadas em ouro e aço, edições e proveniências, detalhes reais e imaginários de livros que vivem por conta própria, tramas e aventuras diabólicas. O "Livro De Areia" passa por muitas mãos, enlouquece homens com suas páginas infinitas e determina as condições do seu esquecimento: impossível de ser destruído, os confins de uma biblioteca empoeirada lhe é o único fim adequado. A referência e a intimidade com outros livros. mais que um exercício de erudição. faz parte do jogo babilônico de embaralhar todas as páginas, construindo e interditando ao mesmo tempo o sonho de um livro absoluto. Se Deus, o personagem maior de suas ficções, pode ler esse livro absoluto, é na medida em que vive sonhando e nós, as estrelas e os poemas sendo partes desse eterno sonho, Quem saberia dizer o que veio primeiro: a experiência dos sonhos noturnos ou o exercício literário das noites insones? Para Borges, o escritor é inseparável do seu duplo: à noite um de nós fabula e um outro contempla o sonho, Na vigília, as funções se invertem, a inteligência então trabalha as árduas páginas e o antigo esteta, o inconsciente, agora contempla. No admirável conto "O Outro" dois personagens se encontram: Um ancião explica para um jovem que eles são uma única pessoa, separada em distintos momentos do tempo. O segundo descrê por não ter vivido o suficiente e segue-se uma longa persuasão. O futuro lhe é revelado como um sonho e após a separação, o ancião, que não é outro senão Borges, concebe a seguinte explicação: O encontro fora real, os dois se encontraram em distintas dimensões. Quando jovem, ele experimentou este encontro na forma de um sonho e pode esquecê-lo; na velhice ele reencontra o seu duplo sonhador vagando pelas dimensões do tempo que se confundem nos sonhos; O presente sendo apenas um vidro transparente entre o passado e ○ futuro que nos assombram. Felizmente o passado e talvez o futuro, este espelho que foge, são suscetíveis dessa grande saúde que é o esquecimento. O que era maldição e causa da ignorância para homens como Platão, por exemplo, para Borges ele é uma dádiva do tempo, ele empalidece os acontecimentos outrora trágicos que podem ser tratados sob a forma de contos serenos. Esquecer uma história é comprometer seu grau de realidade, é habitar as fronteiras do real e do sonho, Iugar adequado para as ficções. No esquecimento da morte somos imortais, no esquecimento de certas páginas os livros retornam com o sabor das novidades. Na clássica narrativa "O imortal", Borges ilustra, com as peripécias de um romano em busca de uma cidade eterna, a tese de ser o esquecimento um rio de águas frescas capaz de nos dar a imortalidade. "Fumes, o Memorioso" é o contraponto dos dilemas que representa para um pensador a memória prodigiosa: a impossibilidade de abstrair, generalizar e operar uma língua conceitual, língua esta que na sua finitude essencial se vê incapaz de recobrir um repertório de singularidades inumeráveis. Memória e esquecimento são duas faces da mesma moeda: o tempo. Neste rio onde escoam os incolores acontecimentos, Borges será o agrimensor, e o mapa que sairá das suas mãos revelará um tempo caudaloso, pleno de acontecimentos que coalescem em afluentes labirínticos. Sentimos na sua obra a afirmação de ser real as rês dimensões do tempo: o passado na sua pálida virtualidade, o presente quente dos corpos e o futuro na batalha dos possíveis lógicos. No fantástico conto "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam", lemos a construção de um labirinto no tempo, série de acontecimentos ordinários constituindo estórias paralelas e divergentes, pontos do tempo encaixados e comuns a estas estórias e a soberba arte de pôr um personagem no centro de tramas congruentes. No centro, na fugacidade do presente, os passados virtuais se confundem, os diversos desfechos encontram fundamentos e a imprevisibilidade do corpo que habita distintas linhas simultaneamente é causa de um breve e metafísico suspense, até que um desfecho preciso resolva as aporias do destino e ponha de novo nos seus eixos o tempo. Há em Borges um fascínio pelo Oriente e vasta é sua intimidade com a literatura desta terra que com poesia ele denomina "Terra dourada pelo ouro do sol nascente". São frequentes, em sua obra, alusões à Avicena e Averróis aos textos judaicos e indianos, às cosmogonias persas, ao islã, Zen, Veda, Bramanismo, Xintoísmo e Budismo. Sobre este último, ele escreve um livro, o que é índice de uma grande simpatia, contudo, as interpretações morais de fábulas e religiões fogem ao interesse e salvo o uso didático, é o lado estético que atravessa as suas fabulações. No Budismo, o mundo físico é um véu de ilusões, maya, fenômenos... Em outros termos, o mundo é um sonho e cada vida é a metempsicose de uma outra como sonhos dentro de um sonho. Um único Ser primordial sonha a todos nós no centro desse labirinto das existências. Atingir o Nirvana é se libertar dessa cadeia de ilusões que segrega o Karma de novas existências e acordar no seio da divindade. No conto "As Ruínas Circulares" um homem se retira para uma floresta desolada, investe todo o seu desejo no sonho de se duplicar no corpo de um outro: por obra do tempo e da magia, o seu discípulo sonhado ganha vida e se retira para repetir o ciclo até que um dia as labaredas de um incêndio revelam ser esta réplica um simulacro, tal como o fruto dos seus sonhos, e a possibilidade de ser ele também o sonho de um outro em uma cadeia infinita estende até nós o seu espanto. Claro está que o esforço de escrever belos livros, à revelia da renúncia absoluta apregoada pelo Budismo, explica a busca de uma inspiração estética nos textos religiosos, estórias escritas por Borges com a marca do seu sereno ateísmo. Além do Budismo, outros temas originais foram matérias de uma atividade singular em sua vida: as conferências, ricas em erudição, entendimento e fascínio. Nelas, o livro, o tempo, a eternidade, a cegueira, o pesadelo, a cabala, A Divina Comédia… são tratados com a maestria de um regente conduzindo múltiplas referências e citações, explicando com clareza temas labirínticos. A intimidade e a paixão, a relevância de detalhes esquecidos, são novas configurações de temas milenares e sentimos nelas o gosto inequívoco da criação. As conferências e entrevistas põem em cena duas virtudes desse pensador alegre: a ironia feita de jogos imprevisíveis da inteligência e o humor que é o modo original de se pôr diante dos problemas da vida. A um professor da exótica língua quéchua, que lamentava ter apenas um aluno, Borges o consola com tapinhas no ombro dizendo-lhe:_ "Não se desespere, querido senhor, a qualquer momento poderá ficar sem nenhum!" Em outra circunstância, diante de críticas a seus livros publicados nos jornais, ele se lamenta: "Eles são muito tímidos, não passo um dia sem tecer sobre meus livros as críticas mais ferozes: gostaria que esses críticos se correspondessem comigo antes de escrever sobre eles, acho que poderia ajudá-los". Nas vastas dimensões da sua memória, onde tudo se mistura e conspira, encontramos os traços de uma região distinta: a pátria argentina, que um poeta diria ser um espelho de prata refletindo o rosto do poeta. Translúcido, este espelho argentino seleciona as imagens e a pátria que encontramos em seus poemas é a mítica Buenos Aires desconhecida dos mapas geográficos: "Os pampas de dimensões infinitas,/ Cortam como lâminas o horizonte, e o poente/ Que sangra ilumina os rios confluídos/ Em uma cidade de gelo, de ventos austrais de homens infames." O cego Homero cantou a glória de Aquiles e dos bravos guerreiros de Tróia. Borges aceitou esta herança do destino e cantou os obscuros guerreiros da sua pátria, gaúchos sem nome e sem história, generais redentores e soldados épicos, homens cujos destinos se confundem com os rastros da pólvora e com fagulhas de adagas em guerra. Como Homero, que recompilava as tradições da poesia oral dos arcaicos gregos, Borges encontrou nas páginas de poetas nacionais o canto gauchesco dos "repentistas", o drama de um povo nômade improvisado em violas e milongas. Uma língua, um povo e uma história enriquecem a sua infinita erudição. Exemplo desta região da sua memória é a saga "Martin Fierro" do escritor misto de gaúcho e revolucionário, José Hernández.

 É uma tradição dos livros medievais terem as páginas ilustradas por um vasto bestiário, símbolos análogos aos temas nelas abordados. Sentimos também que a obra de Borges compõe de maneira abstrata um livro dos seres imaginários: Os gaúchos em relação vital com os cavalos se metamorfoseiam em centauros; nas páginas de espelhos e água encontramos o fetch, o duplo que convive em cada um de nós e o peixe, primeiro animal, segundo a mitologia grega, a se libertar do jugo icônico que sofre as imagens no espelho. Do outro lado das páginas especulares, que leitor não se sente um golem insuflado pela magia das suas palavras? Que leitor não se torna um minotauro, amando e habitando a arquitetura de suas labirínticas páginas? Quantas vezes não sentimos, nos imprevisíveis desfechos e nas páginas luminosas, as surpresas análogas ao salto de um tigre em florestas simbólicas? 

O processo deste texto, se entendido como uma literatura borgeana, nos aproxima por analogia a uma definição genérica de toda a história da escrita: a investigação, o inquérito, a busca de soluções para os mais variados problemas; de Hesíodo e a origem divina dos monarcas, de Aristóteles e a busca da verdade, até os empiristas e os inquéritos sobre a natureza humana, os livros estão cheios de pistas, de dúvidas e indagações. A literatura policial pode ser entendida como um gênero com data precisa de nascimento. A princípio, articulada com objetos transcendentes, Deus, verdades e cidades eternas, Santo Graal... As narrativas mudam de objeto e as leis humanas, morais e lógicas, passam a reger as artes da escrita. "Do assassinato como uma das Belas-Artes" de De Quincey é o manifesto da nova estética policial e Borges, leitor assíduo de novelas policiais, dará novo ânimo a este gênero com novelas clássicas como "Emma Zuns". "A Morte e A Bússola" e a série "Seis Problemas Para Dom Isidro Parodi". escrito em colaboração com Bioy Casares. Neste conjunto de tramas burlescas, Borges intensifica o caráter lúdico das novelas policiais. O detetive, imóvel numa cela de penitenciária por um crime que não cometeu, possui dos fatos policiais apenas sinais equívocos: artigos de jornais, murmúrios de outros prisioneiros e relatos parciais de visitantes envolvidos no caso. Um elemento essencial deste gênero literário é ser o detetive capaz de reconstruir o acontecimento por raciocínios lógicos, deduções e inferências causais; é possível, então, que Dom Isidro possa resolvê-los com distinção e clareza de acordo com as correspondência entre a razão e o real; a paródia emerge quando o nosso herói, com os escassos elementos que possui, compõem explicações surreais que o acaso, regente do mundo e do pensamento, se encarrega de ajustá-las com a absurda realidade das leis e dos assassinatos. O escritor Borges sempre desconfiou da soberania da razão e quando escreve uma novela policial no estilo clássico (A Morte e A Bússola), a trama das causalidades é apenas uma armadilha de crimes simulados que tece um facínora visando eliminar um inimigo, um lógico e eficiente detetive policial!

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