domingo, 4 de outubro de 2026

Apontamentos Para Uma Nova Metafísica Dos Costumes!

 









   Em um mundo onde o dualismo aparentemente dominou o espírito humano - ou o que dele restou - é quase natural, no universo das doutrinas políticas, o sectarismo e o posicionamento antagônico das ideias dominantes. Isso hoje é bem evidente quando observamos a compreensão que duas vertentes hegemônicas fazem sobre o consumo de bens duráveis ou perecíveis produzidos pela sociedade. De um lado, o liberalismo busca no livre e vertiginoso fluxo de mercadorias o índice mais convincente da pujança econômica de um país. Do outro, os comunistas - ou o que deles sobrou - adotando uma postura crítica e planificada da mercadoria como um tóxico instrumento de alienação (o consumidor desconhece os meios de produção daquilo que consome com sofreguidão). Assim definidos, parece que tais posicionamentos orientariam outras características desses grupos. Os marxistas ficaram, portanto, responsáveis pelo comércio dos verdadeiros bens do espírito não redutíveis à mercadoria, a saber, a cultura, a ciência, o progresso e tudo que não viesse a ser contaminado pelos critérios alienados e alienantes do modo de produção e consumo capitalista (a crítica à ideologia no pensamento marxista é o grande apanágio dessa missão peregrina dos paladinos da humanidade). Na ausência de uma reflexão mais profunda, parece restar aos liberais capitalistas apenas a desqualificação de todo esse aparato conceitual e crítico do consumismo como uma galimatia esquisita dos seus adversários, o que se revela - e explicar isto é a pretensão deste apontamento - uma crassa estupidez como a de jogar fora a bacia do banho com o bebê dentro. A crítica ao consumismo é imperativa para o universo do liberalismo pelo seguinte e forâneo motivo: diferente dos socialistas, que surfam nas ondas da modernidade, das vanguardas, de modo irrefletido e intimorato, exaltando tudo que for novidade e prenúncio do futuro, os liberais buscam fundamentar seus costumes e seus valores na preservação de suas tradições, linhagens, ritos e etiquetas a se perderem nas brumas do tempo. Exemplo disto é a afinidade dos liberais com as monarquias, com o direito, consuetudinário, com o classicismo e com tudo que exale o perfume do passado. Ora, é evidente como o consumismo se revela incompatível com esta mentalidade, por assim dizer, aristocrática (uso esta palavra ao recordar aqui um divertido conto do Oscar White, O Fantasma de Canterville, onde um castelo medieval na Escócia recebe a visita de uma família de novos ricos americanos, suntuosos e inveterados consumidores de todos os modismos vindos na bagagem e no mal-estar que a presença deles causa nos fantasmas centenários que habitam e assustam o lugar). O que esse comportamento de desvairado consumo possui de perverso deve-se ao fato dele solapar uma virtude teologal de pequena estatura na hierarquia das virtudes, mas, assim como ela solapa uma dimensão inferior da vida social, o vício pode se estender a outros vestíbulos de nossas relações e conspurcar outras virtudes. Explico: quando consumimos e, principalmente, descartamos as mercadorias, sem ponderar uma ação de eventual restauro e reutilização, alienamos nesta relação - já em sua essência alienada - o zelo (do grego zelós, fervor), o cuidado em conservar, cujas implicações tentarei registrar aqui, com minucioso rigor. Deixarei de lado a indústria da reciclagem que, sob a pátina de um zelo objetivo e reificado, se exaure nas praias do mercado, sem nela incorporar o processo pedagógico no ser humano e que é o foco deste esboço. Quando nossos avós muito cedo aprendiam a cerzir uma meia, remendar os fundilhos de uma calça, trocar o solado de um sapato, faziam isto de modo quase inconsciente e religioso, assim como consertavam um velho portão, fervia os vidros para reutilizá-los em novas conservas, penduravam na mesma parede da sala a mesma foto de seus antepassados por toda a vida naquela casa. Ninguém vendia imóveis ou propriedades... Reformava-as; os casais não se divorciavam... Acostumavam-se; as crianças só mudavam de escola quando cresciam e não havia mais o que nelas cursarem. Em tudo percebia-se o zelo fervoroso, para além da necessidade puramente material, com que as coisas eram consumidas, aliás, a consumação definitiva era justamente o que se buscava evitar. Conjurava-se a morte da mercadoria como símbolo da morte não desejada, da mudança definitiva de algo em lixo, entulho ou quinquilharias abomináveis. O sentido arraigado no coração das famílias de que tudo o que muda, muda para pior, expandiu esse zelo - quando não o tomava por inevitável corolário - a todas as dimensões da vida social e afetiva, à família, à realeza, às instituições, ao idioma e à cultura, aos símbolos pátrios... Eram todos tratados pelo mesmo zelo aplicado a criar um estofo, um solo arável para o cultivo de outras virtudes maiores, como o respeito, a veneração e a solenidade, virtudes estas que voltarei a dissertar no âmbito de uma teoria da mercadoria, tão logo esta introdução tenha sido decorada, "de cour" e salteada, com extremado e colegial fervor, para perdurar ao máximo em vossas lembranças, feito uma vacina para todo o consumismo e o descarte, como outrora os textos eram tratados, sob a chancela do sagrado!

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BACKYARD OF A MEDIEVAL CASTLE - Nos Castelos medievais e mesmo em grandes mansardas de outrora, a grande vida acontecia de fato nos fundos, na cozinha, especialmente no inverno, onde tudo girava em volta do fogo elementar, onde todos se reuniam, vindos de surpresa pelos vastos e abertos quintais e quintas separadas do campo de pastagens e dos bosques por um fiapo de ribeirinho, uma cerca já quase apodrecida e engolida por arbustos selvagens. Por ali começava o azáfama de porqueiros e granjeiros vizinhos, comerciantes de panelas e viajantes famintos, cruzando estrebarias e currais, casas de servos cercadas de galinhas e cachorros esquálidos, hortas e muros de pedra cobertos de musgo... E uma ausência absurda de quinquilharias na grama verde em volta do lugar: nada de garrafas de plástico nem embalagens vazias, latas ou tubos espremidos de dentifrícios, frascos de desodorantes e pedaços de papelão, tampas de refrigerante, absorventes e pedaços de papel higiênico, marmitex de alumínio machucado e talheres de plástico, seringas e tênis furados, rodas de carrinhos de brinquedo e arames de caderno sem caderno, cacos de vidro e molas de colchão enferrujado, maços de cigarro e sacolas sem alça... Penso que fora por falta de lixo reciclável que teve fim o tempo da história que chamamos de Período Medieval! 
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