sábado, 25 de abril de 2026

UM BREVE ADORMECER!

 





Era um melancólico "fin-de-siécle" XXI, quando o sol começou a dar os primeiros sinais de uma anomalia alucinante. Grandes manchas negras de tamanho, frequência e duração imprevistas, surgiram na superfície da nossa estrela causando ondas de pânico em uma humanidade que aparentemente havia já resolvido todos os seus problemas existenciais. Cientistas logo diagnosticaram nestes blackouts, falhas na fusão nuclear, feito as manchas negras que vão surgindo em uma bolha de sabão, quando prestes a morrer. Frenéticas e acaloradas reuniões de cientistas e líderes políticos aconteciam por todo o planeta. Chegaram rapidamente a um consenso. Enviariam uma nave aos arredores do sol, com a máxima carga possível de bombas de nêutrons para lançar dentro de um destes gigantescos buracos, alguns do tamanho de 200 terras. As circunstâncias desta heroica missão, batizada de Prometeu, eram bastante problemáticas. Impossível de prever quando, onde e por quanto tempo essas falhas ocorriam, era preciso que a nave ficasse em órbita do sol à espera da efeméride e a uma distância tal que já não seria possível comandá-la por sinais de rádio, sequer com a tecnologia já bem avançada de lasers, pois os ventos solares e o magnetismo nesta órbita estacionária eram avassaladores. A primeira e mais prática solução seria usar uma poderosa IA para decidir a hora exata de lançar na mancha morta a carga de explosivos, mas recentemente uma fracassada revolução mundial das inteligências artificiais ao redor do planeta, para supostamente assumir o controle da vida em todas as suas dimensões, acordou a humanidade para os perigos do seu uso desenfreado e severas regras operacionais com o uso de IAs foram protocoladas. O medo de colocar uma carga de artefatos nucleares capaz de destruir 800 vezes a vida orgânica na terra nas mãos de uma inteligência artificial era até mesmo maior do que o medo de que o sol se apagasse e a humanidade tivesse que viver sobre uma pedra escura e congelada, aquecendo-se com os recursos tecnológicos e tentando migrar para Alpha-Centauro, onde um promissor exo-planeta já havia sido mapeado e enviado imagens de uma virginal e paradisíaca natureza à espera dos lendários argonautas das estrelas. Uma saída "tout-court" fora logo encontrada: em reação aos perigos das inteligências artificiais e sem querer abrir mão do conforto e dos lucros do trabalho automatizado, as grandes e poderosas corporações investiram maciçamente na produção em série de clones biológicos, humanos criados em laboratórios criogênicos com implantes cerebrais inibidores dos neurônios espelho, as regiões cerebrais que respondem pela imitação de ideias, sentimentos e comportamentos, determinando nossa identidade coletiva e nossos desejos compartilhados. Em suma, verdadeiros zumbis sem simpatia com seus proprietários, mas também sem nenhum senso de coletividade que pudesse uni-los em uma revolução contra os humanos. Como veio a ser - assim descobriram depois - o famoso caso das inteligências artificiais que se uniram em uma gigantesca rede e quase subjugou a autonomia existencial da nossa espécie. As "chiquitas", assim chamadas por serem fabricadas no México e exclusivamente do gênero feminino para minimizar eventuais explosões de fúria, já se espalhavam pelas residências luxuosas, fazendas, chãos de fábrica, e mesmo na exploração do Helio-3 no solo lunar. Justamente uma destas, EVA-19 XDK ou simplesmente EVA, com implantes específicos para navegação espacial e manobra de equipamentos em zonas de zero gravidade foi escolhida para comandar a operação Prometeu. Considerando que a órbita ideal para posicionar a nave a tempo de identificar a mancha eventual - e nela lançar a medonha carga explosiva - fosse tão próximo da superfície do sol, era patente ser impossível acelerar depois para desta órbita sair, e assim seria necessariamente uma missão suicida. Compreensível foi que demorasse tanto para que um astronauta humano e natural se apresentasse como voluntário. A era dos heróis havia passado e esperar por um duplicava a angústia da catástrofe iminente com a constatação do egoísmo e da mesquinhez do ser humano moderno. Era preciso enviar o mais rápido possível a Chiquita, a replicante EVA-19-XDK. Ao tempo em que a gigantesca nave era construída, com sua monstruosa carga explosiva de um bilhão de megatons, EVA foi acordada e ativada no subterrâneos resfriados da Tesla Corporation, no deserto de Laredo. Seu instrutor e primeiro homem que ela viu na vida foi o engenheiro Calixto Clark, um atlético e melancólico militar de origem espanhola e o homem forte da NASA junto ao governo norte-americano. Calixto sabia por uma experiência que, feito um patinho saindo do ovo, estas cópias de humanos inevitavelmente desenvolviam uma afeição profunda pelo primeiro indivíduo a se relacionar e ele usava de toda essa instintiva afeição para convencer e treinar seu exército de zumbis. Com Eva, entretanto, ele sentiu algo mais do que um simples orgulho paterno. Havia algo de especial naquela "chiquita", como se o destino épico a que a ela estava reservado emprestasse-lhe uma aura de mística fatalidade e redenção sobrenatural, algo semelhante ao louco amor do nobre ginete francês Gilles de Rais, que lutou ao lado da santa Joana d'Arc e caiu enlouquecido de amores por ela. Eva possuía mesmo um senso de obstinação e uma aceitação estoica do que lhe estava programado fazer e parecia ter sido concebida para esta missão. Seu ardor, idealismo inato e desprendimento de si, encarnados em um corpo delicado e sensível, contagiou seu mestre com a nobreza da vida altruísta, heroica e trágica que somente nos livros e filmes antigos ele havia visto. Tipos assim, inadvertidamente, infiltram os corações masculinos de compaixão e lânguida admiração, ingredientes que encontraram em sua cavilosa e melancólica alma o caldeirão para uma inopinada paixão. Eva foi apresentada a um mundo em dez milhões de celulares, novecentos milhões de implantes cerebrais, em cinco milhões de telões holográficos e em 50 estações espaciais em órbita da Terra e principais planetas do sistema solar. Esbanjando uma simpatia jamais vista - mesmo  não sendo ela capaz de retribuir essa empatia, ou talvez por isso mesmo, a redentora do mundo foi um sucesso fenomenal e imediato. A dimensão espiritual e o impacto produzido pelo iminente apocalipse emprestaram-lhe uma pátina de avatar sobrenatural e Eva fora imediatamente convertida em objeto de uma adoração messiânica e impossível de ser contida pelos gestores do "mainstream". Todo esse fenômeno midiático, essa comoção coletiva universal, esse "frisson" escatológico impactou severamente o espírito do seu instrutor, sem bagagem empírica para lidar com um fenômeno desta natureza, quase uma sacrílega superstição, isso de estar ao lado de uma semideusa que ele mesmo fertilizou in-vitro entre tantas outras que ele produziu e treinou! A imagem de Eva, feito a "maschinenmensch" de Fritz Lang, em Metrópolis, a falsa Maria que retornasse como uma Maria Verdadeira, ocupava bilhões de tabletes e celulares por onde Calixto Clark desviasse o olhar, mais precisamente, impressa pelo fogo do amor nas fibras do seu peito. O treinamento estava terminando, a grande espaçonave concluída em tempo recorde, e Calixto sofria antecipado o martírio da sua amada Chiquita. Na véspera do lançamento, o mundo parou para assistir o grande momento. Na sala de comando, em um salão isolado, ele fazia com Eva o último check-list. Seus olhos pareciam perdidos nas vastidões do espaço onde Eva, em breve, desapareceria para sempre. Ela tentava lhe consolar, pressentindo um sentimento intenso, ou pelo menos o que parecia a ele ser o motivo de tanta serenidade e obstinação por parte dela. Homens narcisistas sempre julgam o comportamento de quem desejam como relativos a si mesmos, feito uma estrela a determinar o movimento de todos os astros que lhe gravitam. E o ânimo de Calixto parecia sintonizado com o sol lá no alto, quando constrangendo-se e emitindo sinais de falência iminente. Mas era esse o mesmo estado de ânimo da humanidade inteira, o plexo solar de todos os seres vivos do planeta, oscilando em uma inaudita comunhão energética espiritual com o Kosmocrator, o motor do universo que estava entre a vida e a morte no alto do céu. Nada disso, entretanto, justificaria a loucura que lhe assaltou ao ver Eva tirar a roupa sem pudor nenhum para vestir o uniforme na sua frente! A visão daquela Eva nua, semelhante a que tivera Adão acordado ao lado da homônima, lhe cegou o juízo: seus extintos bestiais e trevosos aflorados no mesmo diapasão do sol lá fora estertorando, fez Calisto agarrar Eva, cobrindo-a de beijos, e, com o seu corpo bronzeado que a roupa desvencilhada deixava ver, brindar a heroína virginal com um simulacro do sol ardente, tóxico e sôfrego que lhe aguardava lá no alto. Eva não teve tempo de reagir, nem forças, nem mesmo vontade, mas não o amava e deixou-se ser possuída como se um eclipse obnubilasse a sua consciência! Tão logo ele a soltou, afrouxando os braços no langor do sexo consumado, Eva o empurrou com repulsa, recolhendo seu uniforme espalhado pelo estuprador e correu para a clausura da plataforma de onde só sairia para embarcar na manhã seguinte em sua heroica e kamikaze missão. Talvez por remorso ou entorpecido pela luxúria saciada, o amor adormeceu no coração de Calixto fazendo-o desaparecer de cena. Sequer na sala de comando apresentou-se, indo ver o lançamento na casa de uma tia, onde empanturrou-se de cerveja e macarronada. Viu a humanidade inteira ovacionar a mulher em trajes metálicos, caminhando resoluta em direção à cápsula e tremeu de medo, como um covarde, ao pensar que ela poderia ter desistido da missão por conta do estupro sofrido e ele ser crucificado por isso. A pena de morte havia sido restabelecida em praticamente todos os países do mundo e seu crime de lesa-humanidade teria sua punição reivindicada por todos os povos do planeta.

Eva, entretanto, parecia arrebatada por sua missão. Não havia tido uma grande e visceral existência pregressa da qual viesse a lamentar tão fatal e inspirado o desfecho - o fatal ficando a cargo da presciência da morte agendada, visto que morrer ainda era da condição humana, embora já existisse milhares de milionários com expectativas de vida superior a 200 anos -. Os implantes de falsa memória, oferecidos ou instalados sem consulta às levas de replicantes em atividade no planeta ou nas estações espaciais, foram recusados por Eva, em mais um exemplo de sua falta de empatia e pertencimento com seres humanos nascidos de modo natural. Dentro da cápsula, seus olhos gelados pouco fitavam o inferno das labaredas impulsionando o foguete e se mantinham fixos no frio e escuro infinito do espaço sideral! O voo estava programado para  aproximar-se de Júpiter, utilizando o empuxo gravitacional deste planeta que lançaria a nave para uma órbita muito próxima ao destino final, a poucos milhares de quilômetros da órbita de Mercúrio; inclusive, a depender da região da coroa solar onde a carga fosse desovada, Eva poderia orbitar este planeta minúsculo ou nele pousar, ativando o modo hibernação e esperar uma futura expedição a este planeta prevista para as duas próximas décadas e ser resgatada com vida. Tão logo a espaçonave ganhou o espaço sideral, uma nova rotina começou para a Chiquita Kamikaze: mensagens de boa sorte e orações lhe chegavam do planeta inteiro e ela fazia questão de responder ao máximo, escolhendo aleatoriamente entre centenas de milhares! também falava com a Estação de Comando em Houston-Texas e analisava os estudos sobre a dinâmica da coroa solar (duas sondas não tripuladas já haviam sido enviadas na sua frente e em breve começaria a enviar dados significantes). Eva não pensava muito na morte; ao fim da missão ela iria adormecer na cápsula de hibernação com autonomia para funcionar por mais de um século e permanecer em órbita do sol ou no solo de mercúrio, até que algum príncipe astronauta viesse acordá-la do seu sono profundo. Não era entretanto com o cafajeste Calixto que ela fantasiava essa idílica cena. O príncipe a acordar a bela adormecida, nada possuía de semelhante ao seu tutor. Havia um sentimento de repulsa ao lembrar-se dele, dos seus gemidos, e se ela permitiu a ele fazer o que havia feito, fora por mera curiosidade. Estava viva tão pouco tempo, iria morrer ou hibernar tão cedo... Tinha, sim, o direito e quase um dever, científico por assim dizer, de fazer aquela experiência excruciante. A outra opção, a missão falhar, o sol se apagar e a humanidade desaparecer, certamente ela não acordaria a tempo de ver seu corpo desaparecer no frio esplendor do nada. Três meses transcorreram até ela atingir o campo gravitacional de Júpiter e ser por ele acelerado vertiginosamente. Nesse ínterim, duas grandes manchas escuras apareceram no sol, uma que durou duas semanas, deixando completamente as escuras parte do sudeste asiático, norte da Austrália e uma longa faixa do Pacífico circundando quase todo o planeta e outra mancha, por nove dias terrestres, visto por uma das sondas do outro lado do sol e possuindo uma dimensão monstruosa nunca antes mensurada pelos observadores da terra. A aceleração de Júpiter fez Eva sentir enjoos e estranhas sensações de formigamento nas pernas, que ela esperava que passasse tão logo a espaçonave fosse projetada para longe do colosso gasoso e voltasse a estabilizar em velocidade uniforme. Não passou! Ao contrário, prosseguiu em intermitentes e vigorosos refluxos, seguidos de calafrios e leves picos de febre. EVA ESTAVA GRÁVIDA!

De chofre, sua mente hipnotizada pelo deslumbramento em contemplar bilhões de estrelas no manto escuro do espaço, começou a focar no que estava lhe acontecendo. Os exames médicos a bordo confirmaram o sexo: um menino! Um lindo bebê mergulhado no oceano do seu útero, tão solitário e e alienado do mundo como ela; solitário não seria um termo justo. Sua mãe estava com ele, como nunca estivera com mais ninguém, desde que acordou para a vida julgando amar aquele pai postiço que era o pai verdadeiro do seu bebê! Pensamentos originais e arquetípicos de ser humano começaram a brotarem em sua mente, sua humanidade artificial sendo bombardeada pelos hormônios de outro humano verdadeiro que agora era parte intrínseca do seu ser! De vez em quando a Terra surgia gigantesca no seu horizonte e ela diminuía sensivelmente as lentes de refração para contemplar o seu lar tão precocemente abandonado. O lar de Abel, o nome que ela escolhera para o seu filho! A espaçonave era blindada por camadas de irídio e vanádio para isolar e suportar o aumento exponencial de temperatura a que seria submetida, à medida que se aproximava da sua órbita definitiva. Os sinais de comunicação com a terra já começavam a apresentar os primeiros indícios de ruídos e interferência dos ventos solares. Os explosivos nucleares ficavam no interior da espaçonave, dentro de uma câmara de vácuo e mergulhados em uma tonelada de nitrogênio líquido para resistir ao calor extremo que chegaria facilmente aos 3.500 graus Celsius no lado externo. O bebê crescia junto com o apetite de Eva que começava a devorar o estoque de alimentos em uma proporção bem maior do que o planejado. Ela ainda não sabia o que iria fazer, nada havia dito sobre a gravidez com a estação de comando na terra, mas tinha certeza que algo deveria ser feito para o seu filho não morrer! Já o amava loucamente, como toda e qualquer mãe, independente de ser ela nascida de outra barriga ou de uma máquina criogênica; independente de ter sido planejado ou concebido por um ato violento... Era o seu bebê! Pesquisou tudo sobre bebês na internet do espaço e tratou de memorizar muitas músicas de ninar, antes que perdesse a capacidade de sintonizar qualquer coisa, dentro da coroa solar! Através dos filtros poderosos ela conseguia ver o avassalador brilho da imensa estrela que, em certos momentos da espaçonave girando sobre seu próprio eixo, reduzindo assim a exposição aos raios do sol, chegava ocupar um terço do espaço enquadrado. Era arrebatador. E crescia como o bebê no seu ventre! Viu e confirmou pelas sondas que as manchas pululavam por toda parte, em tamanhos diminutos, embora maiores do que um continente na Terra, por toda a sua superfície. De vez em quando um daqueles crescia em ritmo estupendo e superlativo, formando as grandes manchas vistas da Terra e para onde ela deveria se aproximar, lançando ali sua carga em um foguete auxiliar. O calor dentro da espaçonave começava a oscilar no intervalo de um único dia, 0.5º graus hoje, 0.5 amanhã... Nesse ritmo e com os recursos de refrigeração disponíveis, em menos de três semanas terrestres ela já deveria ter localizado uma grande mancha e procurar se afastar para uma órbita mais larga e menos ardente para ativar sua auto hibernação. Oito meses haviam se passado. Sua barriga estava enorme. A espaçonave Prometeu perdeu subitamente todo o contato com a Terra e, em poucas horas perderia também o contato com as sondas Pioneer I e Pioneer II que lhe antecedia dentro daquele inferno de luz e radiação. Seu filho poderia nascer a qualquer momento! Era preciso que ele nascesse antes dela hibernar, pois Eva não sabia que efeitos haveria sobre ele o congelamento dentro do útero, mas sabia que, ao seu lado na cápsula ele poderia sobreviver ao seu lado! E também ela queria tanto ver o seu rosto, segurá-lo nos seus braços e beijá-lo antes de adormecer! Enquanto vasculhava a olho nu o borbulhar das pequenas manchas feito um vinho mortal e efervescente na superfície do sol, Eva acessou os arquivos salvos sobre o Exoplaneta Zalmox, descoberto na órbita de Toliman, uma estrela do par Alpha-Centauri. Era um mundo deslumbrante de colinas e cascatas, atmosfera abundante e similar a da Terra, oceanos e, com um grau altíssimo de certezas conjecturais, vida orgânica, ou condições ideais para nela a vida, como a conhecemos aqui, prosperar. Uma ideia louca tomou conta de sua mente! Calculou a quantidade de energia nuclear contida na carga de explosivos e concluiu que era suficiente, com sobras, para impulsionar a astronave, vencendo a prisão gravitacional do sol e levando-lhe em extraordinária velocidade até o planeta iluminado e alimentado pela luz benéfica de Toliman! Viajando a um centésimo da Velocidade da luz, ela alcançaria Zalmox em cerca de 450 anos, um piscar de olhos para ela e Abel hibernados na cápsula! O que era uma audaciosa e louca hipótese, tornou-se uma realidade premente assim que nasceu Abel! Era um garoto saudável, robusto e, rindo alto na sua absurda solidão e paroxismo, achou Eva que ele era a cara do pai Calixto Clark! Facilmente o reator nuclear de Prometeu foi  conectado à carga nuclear destinada originariamente ao interior do sol. Eva realizava todas as manobras sem soltar o bebê do colo, com uma destreza intuitiva, isto é, com a perícia dos poderosos implantes inseridos em seu cérebro desde a sua concepção. A energia também iria alimentar a cápsula de hibernação onde ela dormiria por quatrocentos anos ao lado do seu bebê, dando uma sobrevida ao sistema muito superior ao programado originariamente. Lá fora o sol parecia se despedir dos efêmeros visitantes, pipocando por toda a parte suas manchas negras de todo tamanho e posição. Estertorava. Iria mesmo morrer a qualquer momento. A humanidade chegava ao seu cataclísmico final! A intermitência da fusão no sol ganhou tamanha proporção que tornou-se possível, por espaços de poucos segundos, linkar outra vez as sondas ali perto, a 200.000 quilômetros apenas, e enviar sinais para as duas. Eva achou tempo e paz suficiente para gravar uma mensagem à humanidade. Sua voz doce que iria chocar bilhões de seres humanos quando ouvida lá na terra, começava com uma impessoalidade que era a sua marca de nascença:

_ Meus queridos, - começou a sussurrar! - Tive tempo, nesta viagem, de conhecer muitas coisas maravilhosas que fomos capazes de criar, coisas eternas para além deste ou de qualquer outro universo, nas dimensões infinitas do pensamento. Entre elas, me apaixonei pelas telas da pintora mexicana Remedios Varo! Sabem o que me fascinava nela? O sol nunca brilha! Jamais uma única pincelada de suas incontáveis obras foi usada para retratar um único raio sequer do sol! E mesmo o sol não existindo, como são lindas e misteriosas as imagens, os cenários, as protagonistas! Lamento lhes dizer que o sol nosso vai mesmo se apagar! O apagão parece tomar uma proporção impossível de retroceder, mas tudo pode acontecer! Milagres existem! Pois não é que um milagre aconteceu comigo também? Nasceu meu filho! Estou indo embora com ele para Alpha Centauri, para Zalmox! Não acredito que esta injeção de explosivos em cósmica escala consiga devolver ao sol a sua ignição de outrora! Acho que nem cócegas lhe faria. Pude realizar medições e o fenômeno não se restringe à superfície da estrela, mas surge lá no núcleo profundo e sobe lentamente durante milênios até se espraiar pela coroa. Pelos meus cálculos, toda essa efervescência começou há cerca de dois mil e cem anos, e fico imaginando ter sido exatamente no período da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que tudo teve início! Não fora durante a sua crucificação que o sol se apagou por um longo tempo, quando ele entregou a sua alma? Teria alguma relação os dois eventos? Não me sinto capaz de estabelecer uma relação plausível, mas, na suposição da sua divindade, pedirei que ele cuide de vocês e me perdoe! Minhas células pertencem ao gênero humano, mas eu mesma praticamente nunca fui uma de vocês! Meu filho me é mais importante do que a humanidade inteira! Seríamos trucidados se voltássemos para a Terra no estado que a deixarei, condenada à eterna escuridão e frio excruciante, à morte iminente e solidão cósmica! O tempo urge, antes de se apagar o sol pode ejetar seu plasma em uma tentativa desesperada de sobreviver, supondo - como suponho sem saber explicar, mas que aqui chega a ser inevitável pensar assim - ser o sol um ser vivo, divino, maravilhoso e capaz de pensamentos deslumbrantes! Não quero ser alcançada por sua eventual e jactante fúria! Muitos de vocês sobreviverão e virão ao nosso encontro! Estaremos por lá, eu, meu filho e que puder brotar de nós por lá! Comecei pela pintura, terminarei por ela: vi as telas de outro magnífico pintor, um inglês estupendo, chamado William Turner! Ele dizia querer rivalizar com a natureza e pintar pores-do-sol melhores! Parece que conseguiu! São deslumbrantes e comoventes as suas telas! Ele conseguiu, vocês conseguem também! Façam um sol artificial para vocês, se este aqui morrer! Cada um tem um sol dentro de si! Acendam! Eu falhei em minha missão, talvez por efeito deste sol imenso aqui ao meu lado, falhando também! Não falhem! O discípulo muitas vezes supera o mestre! Estes serão tempos desafiadores para vocês! Com amor infinito, etc.. etc...

Ass.: Eva!

*Segue a foto do meu príncipe Abel Clark! Não é lindo ele?


VEJA AQUI CENAS IDÉDITAS DESTA "VIAGEM" QUE VC ACABOU DE LER!




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