domingo, 18 de janeiro de 2026

JAMES JEANS NÃO MORREU...








Meu antigo colega de colégio, James Ferraz, solteirão e aposentado, morava sozinho na propriedade da família e era aceito por todos no seu estilo de vida rabugento e ermitão. Fora lá, nos idos da década de 80 do século passado, que algo insólito lhe ocorreu: um dia, como outro qualquer, ele amanheceu sentindo que havia se transformado em um automóvel! Precisamente um Chevette Jeans, uma edição limitada de um clássico da montadora Chevrolet, com sua pintura de fábrica simulando um tecido jeans desbotado que vinha plotado na sua lataria, alem do forro dos bancos e dos interiores feitos do mais puro índigo blue! Não faço ideia de quantos minutos foram necessários, dentro daquele quarto colonial, até ele se entender como sendo aquela máquina turbinada e o que então se passou por seus miolos atordoados. Inconsciente, embrulhou o estômago em ânsia de vômitos, mas o que realmente lhe ocorreu com isso foi, de um golpe, destravar o trinco do capô e folgar a tampa do radiador onde a água de refrigeração gargarejava como se acordasse de um sono profundo. Sentiu medo daquela água vazar e lhe molhar o pijama, como o medo que sente uma criança em urinar no sonho, já pressentindo estar a dormir na cama. Tentou gritar julgando tratar-se de um pesadelo, contudo, o resultado foi o som estridente da buzina fazer com que um copo d'água, com uma vela de ignição mergulhada dentro, tremesse sobre uma mesa de caixote de frutas improvisada. Era sobre esta mesa rústica que estava pendurado um grande espelho de cristal, herança de seus avós, outrora milionários e que James hesitava em vender, nos períodos de penúria, como já fizera com boa parte da mobília e com o mármore de uma escadaria, fato que gerava muitos atritos com os outros herdeiros que eventualmente lhe visitava. Somente quando ligou os faróis dianteiros - intencionando com esse gesto abrir os olhos - e focar sua luz mercurial no cristal é que pode entender, parcialmente, o que ele era e onde estava! Entrou em pânico e começou a se debater, abrindo com isso as portas laterais, o capô, o porta-malas, girando as manivelas que, por sua vez, faziam os vidros das janelas subirem e descerem como pulmões arfantes... Mas logo entendeu que nada conseguiria com isso! Não era um homem histérico (sic) e, considerando o tédio que era os seus dias e noites, aquela situação, pelo prisma do seu teto solar, espirituoso e afeito à luz, podia ser interpretado como se ele houvesse morrido e acordado no céu dos playboys! Camponês pragmático, decidiu fazer o que fosse possível para explorar suas novas habilidades: ligar o motor só lhe fora possível ao descobrir que sua antena do rádio obedecia aos comandos do esfíncter, o nervo que controla a musculatura genital; sim! Inacreditavelmente, era com o seu pênis, encolhido e franzido pelo frio noturno, que ele comandava os movimentos da antena. Com ela conseguiu apanhar a vela de ignição dentro do copo d'água, instalá-la dentro do motor e injetar um ducha da boa gasolina aditivada e seminal na câmara de combustão, fazendo em seguida seu corpo todo estremecer com um fantasmagórico girar de chaves! Ouviu lá atrás uma carretilha de perdigotes e flatulências intermitentes - enchendo o quarto com volutas de fumaças - de um motor nervoso, ansioso para zarpar. Engatou a primeira marcha e deslizou pelo tapete estreito que ligava o quarto ao corredor do casarão estiolado. sinuoso e afunilado, o corredor não lhe permitia nada além de um providencial recuo e manobra, apontando sua frente e investindo com um mínimo de velocidade contra a parede lateral a deslumbrar, por uma janela, o quintal e e a vasta pradaria, quase deserta de animais, tal o estado falimentar da propriedade. 



 Sentiu dores quando algumas ripas da parede de adobo vergastaram a lataria das quatro portas, como se maçãs atiradas contra o ventre de um gigantesco coleóptero, ficando ali encrustadas. A dor, afastando a possibilidade de ser tudo isso um pesadelo, fez vibrar a percepção da realidade cuja ofuscante luz do sol em seus faróis era-lhe um persuasivo apanágio. Dane-se! Pensou! Isso também pode ser, sim, divertido! Injetou  mais dois esguichos da vigorosa gasosa - havia jantado na véspera um quarto de leitoa assado e o tanque estava cheio - e começou a dar voltas no gramado mal cuidado do jardim, que se emendava com um pasto relvoso e invadido pelo mato. Inevitável para alguém nesta insólita situação, associar a velocidade com o desespero para dela se libertar. Avançou assim sobre a relva seca, derrubou várias taliscas de uma velha cerca separando o galinheiro da horta onde cultivava seus suculentos repolhos e, trepidando sobres as leiras de legumes como se gigantescas "costelas de vaca", ganhou a estrada de terra que cruzava sua propriedade. Engatou as marchas de velocidade que manipulava como simulações de arrotos e regurgitações na "boca do estômago". Na escola onde fora meu colega, quando garotos de calças curtas, ele fazia relativo sucesso com sua proeza anatômica de mexer suas longas e vermelhas orelhas e agora sentia a utilidade desse dom circense ao mover os retrovisores e o espelho interno! Por eles conseguia ver a nuvem de poeira lhe envolvendo, como se patinasse as pernas em um desenho animado por alguns segundos antes de partir como um foguete aloprado. Passou por um raso e pedregoso riacho que espirrou jatos de água fria matinal no seu rabo gordo em porta-malas traseiro transmutado. Um misto de grito e assovio de contentamento lhe saiu pela buzina. Descobriu que podia cantar com ela... E cantou, assustando uma velha mula carregando no lombo um sonolento tropeiro que ficou ali cismar, com o chapéu na mão, se realmente tinha visto um automóvel passar sem motorista ou se a bebida da véspera ainda lhe afetava os miolos. Ligou o rádio como se lambesse um dente molar cariado e vasculhou o dial imaginando sua língua a correr sobre o palato, até, finalmente, encontrar uma estação que sintonizava naquele ermo. As toadas sertanejas das madrugadas, que ele outrora ouvia em silêncio, agora eram acompanhadas por um rouco pistom que trinava feito um concertina, ao encostar a buzina no cano do radiador, simulando uma voz humana em falsete. Seus pensamentos iam enlouquecendo à medida em que os pneus iam ganhando estabilidade na estrada de terra batida e o asfalto da rodovia se aproximava: "E se Janete - uma galega arrumada que trabalhava na casa do prefeito - tivesse se transformado também em um automóvel, uma Belina ou Variant-1600? Iria com certeza enfiar sua antena inteira no tanque de gasolina dela e, se ela vacilasse, enfiaria depois no cano de descarga até o rádio sintonizar estações estrangeiras tocando aquelas músicas de gringo, estas sim, que ele gostava de cantar dentro de casa, embora ninguém - nem ele mesmo - fosse capaz de entender o que diziam as palavras cantadas! 

Seu teto solar, este se abriu sem que ele tivesse a menor intenção ou sequer soubesse da sua existência; foi como estas inspirações que nos acontecem sem aviso, correntes de ideias frescas que nos assaltam e nos arrastam em inopinadas peripécias quase sempre desastrosas (aqui este humilde narrador se identifica com o Chevette, como se um meta-teto solar fosse aberto entre nós e endureço meu estepe dianteiro em sua homenagem, gentil leitora!). Uma destas ideias de contrabando ventiladas lá do céu azul fora a de descer a iminente Serra do Marçal e ir até a cidade vizinha onde a sua Janete trabalhava como governanta do alcaide local, um tal de Fabrício Trambiqueiro. Eufórico com a decisão tomada, entrou em alta velocidade na pista de asfalto abandonando a vicinal e empoeirada estrada da sua garagem natal. Católico rebelde, gostava de invocar a proteção de santos imaginários quando em apuros ou esperançoso de alguma graça; e foi para eles, relíquias do seu imaginário repertório, as suas buzinadas ao descer a serra como se gritasse: _ Valei-me, São Luíz do Esgoto! Santa Carmela do Amendoim! São Roberto do Canavial e Santa Edilandra! - Era um bronco e nada podia ser feito; por exemplo, estava sem freio e só percebeu isso na terceira e mais perigosa curva quando seus dois pneus interiores a esta curva se elevaram uns cinco centímetros do asfalto... E o medo da morte sentou no banco do passageiro, ao lado de Morpheus, a entidade dos pesadelos! Um capão voou assustado, atravessando a pista e James, de surrados jeans como um velho hippie, desdenhando das regras do trânsito, invadiu a pista contrária somente para atropelar a ave que findou-lhe presa no eixo traseiro como uma pedra no sapato e, contudo, ajudando a frear um pouco o seu desgovernado corpo. 

Sentiu - mas só depois se lembraria disso - um prazer pré-histórico, tipo um jipe dos Flintstones, ao assassinar o animal e estava disposto a assassinar qualquer coisa que andasse ou rastejasse em sua frente, e que pudesse ajudar-lhe a frear a descida mortal. Nenhum outro animal, entretanto, apareceu para lhe ajudar. Nenhum irmão automotivo, nenhum semideus da Polícia Rodoviária... Sua velocidade quase dobrou na entrada da outra e sinuosa curva, seu corpo rodopiou fora da pista e um imenso paredão de granito surgiu em sua frente, como um cobertor de estopa que sua babá lançava sobre ele quando adormecia no sofá, sonhando em ser um dia cantor da Rádio Nacional! Acordou com a cabeça zumbindo e dentro de uma abissal escuridão! Que pesadelo estranho! Pensou!...(Continua em breve...)



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