sábado, 24 de janeiro de 2026

O SOM E A FÚRIA ou As Trombetas de Jericó





O SOM E A FÚRIA -  Roteiro Cinematográfico – Curta Metragem  (00:19)

1. ARGUMENTO

O Museu da Imagem e Som de Recife inaugura, em sessão solene, uma ala dedicada à pesquisa de um renomado físico argentino, radicado no Brasil, Anizio Granbello. Seu trabalho, em vias de ser reconhecido pela comunidade científica internacional, é uma exaustiva pesquisa sobre ressonância e acústica. Ele postulava uma persistência das ondas sonoras que não escapariam para o vácuo ao redor do planeta, ficando presas na atmosfera, vibrando em intensidades escalares cada vez menores, inaudíveis, subatômicas, quânticas até, mas não se extinguindo. O cientista passou a vida desenvolvendo cálculos, teorias e equipamentos visando gravar a trilha sonora da história universal. O resultado de suas pesquisas é um extenso repertório de arquivos de áudio com, supostamente, sons de várias épocas, batalhas, eventos históricos, discursos inflamados: o “Terra à Vista” do grumete português nas costas de Porto Seguro, o “Independência ou Morte” nas margens do Ypiranga, os aplausos a Getulio Vargas nos comícios da Cinelândia...., além de uma panóplia de sons em idiomas diversos, línguas desconhecidas e rugidos de animais inidentificáveis.  O roteiro, em uma única cena, inspirado no filme Arca Russa, de Aleksandr Sokurov, se passa inteiro nas dependências do MIS do Recife e tem como personagens:

JACQUES CARDIGAN – Jornalista que cobre o evento. Sensacionalista e performático, acompanha o tour dos convidados, exigindo silêncio sempre que um arquivo sonoro é ativado diante de uma imagem a reproduzir o cenário supostamente atribuído ao som gravado por Anizio Granbello. Comporta-se como um âncora e comenta os detalhes de cada peça. Opera em sintonia com a câmera do cinegrafista que lho acompanha, câmera esta que alinha os momentos editados para uma suposta transmissão com outros momentos mais descontraídos, em off, em único contínuo narrativo. A todo o momento, JACQUES CARDIGAN interpela a cicerone para que ela fundamente, com explicações científicas, a verossimilhança dos sons exibidos, em busca de um estilo mais impactante.

MARIA MARIENBAD – Cicerone do MIS, é uma mulher de 30 anos, aproximadamente, com traços europeus, voz suave e contrastante com a do jornalista afetado. Parece conhecer profundamente a história do Cientista Anízio Granbello e sempre direciona as explicações para os aspectos da vida pessoal, dando ao tour uma dimensão dramática, realçando o aspecto humano para além da fabulosa inovação tecnológica. Expõe com versatilidade os fundamentos científicos do material exibido e se emociona sensivelmente com a extraordinária possibilidade de ouvir os sons perdidos da história. Apresenta, contudo, certa reserva, como se guardasse para o final da exposição um segredo por trás de toda aquela épica sonoplastia.

VISITANTES (Jovens alunos, autoridades locais, outros jornalistas) – Acompanham o cortejo guiado pelo cicerone e compõem uma espécie de coro para a tragédia pessoal do cientista. Alguns se manifestam céticos, outros entusiastas do material sonoro executado.

ANIZIO GRANBELLO - Protagonista virtual - aparece apenas mencionado na exposição como um arquetípico cientista louco e genial – é o autor do material surrealista executado durante o tour pelo museu. Na fotografia tem o rosto coberto por uma prótese, cabelos desgrenhados e românticos olhos azuis. Seus feitos sublimes e sua morte trágica transcendem os limites de uma vida normal, e de um Curta Metragem, necessariamente.

PETRUSKA PIMENTEL – Assistente de Anízio Granbello no começo da carreira dele - é a pivô de uma guinada nas pesquisas, quando o cientista decide por em segundo plano os sons da historia universal para ouvir um diálogo de despedida entre os dois. Segundo ela, uma confusão entre as palavras por ela sussurradas teria sido a causa da obsessão e do final trágico do cientista. Seu comportamento inopinado no final do filme revela uma personalidade enlouquecida.

CINEGRAFISTA – Assistente de Jacques Cardigan, operando a Câmera e com ela se identificando durante o registro jornalístico da exposição, aparece como personagem coadjuvante nos instantes finais quando a reportagem se encerra e o roteiro se desenlaça. 

ARQUIVOS SONOROS - Supostamente, os sons originais de cenas relevantes da história brasileira e universal capturados pelo cientista argentino e compondo um retalhado e caleidoscópico “sonário”. É o tema da exposição e empresta vivacidade ao drama narrado pela cicerone. Entre estes arquivos, dois deles - um de origem sentimental e outro,  supostamente sobrenatural - são as causas prováveis de um desfecho trágico, similar ao fim encontrado pelo cientista, ecoando nos atalhos do tempo feito uma sentença de morte “in sursis”!

2. ROTEIRO
Cena única / Dia / Interna                Dependências do Museu de Imagem e Som – Recife-Pe

Em um hall iluminado e de profundidade indefinida, onde biombos e cartazes exibem letreiros e fotografias, um conjunto regular de pequenas caixas sonoras sobre pilastras sugerem um percurso. Por ele, transcorre um grupo de visitantes, guiados pelo cicerone MARIA MARIENBAD. Ao seu lado, o Jornalista JACQUES CARDIGAN lê um script amarrotado e porta um microfone de entrevista. CAM (sempre sincronizada com os movimentos do jornalista) enquadra um cartaz onde se avista a foto do cientista ANÍZIO GRANBELLO tendo ao fundo os gigantescos platôs do Vale do Capão, Chapada Diamantina, Bahia, cujas escarpas e declives foram usados como grandes amplificadores naturais para suas experiências. No alto dos platôs, várias antenas com anteparos em formato de orelhas humanas dão um ar surrealista ao cenário. Com desenvoltura, MARIA MARIENBAD se reporta ao cortejo. CAM a enquadra em plano médio:

M. MARIENBAD
Anizio Granbello, fugindo da ditadura violenta na Argentina, veio morar no Recife em 1980 onde deu prosseguimento à suas pesquisas em acústica e eletrônica na Universidade Federal de Pernambuco. Foi lá, em contato com grupos de professores de física quântica, que ele teve a intuição genial de pesquisar os limiares microscópicos da ressonância atmosférica. Sabendo que o som não se propaga no vácuo, e considerando o planeta uma redoma no espaço, ele postulou a perseverança das ondas sonoras em grandezas inversamente proporcionais ao tempo de emissão e a possibilidade de gravar esses sons. Suas pesquisas, hoje publicadas em cinco idiomas e que lhe renderam uma indicação póstera ao Prêmio Marconi, além de seus textos originais podem ser consultados naquela sala ao lado...

CAM desliza até a sala separada do salão por uma divisória de vidro onde se vê uma meticulosa biblioteca nas partes superiores de estantes metálicas. Bruscamente, CAM se volta para enquadrar JACQUES CARDIGAN que interpela a cicerone com seu microfone acintoso.
JACQUES CARDIGAN
Você acha que ele ganharia o Nobel de física se vivo estivesse?

MARIA MARIENBAD 
 Quem sabe? Tinha tudo para isso! Sua descoberta revelou-se afinal algo assombroso. Um estofo de sons microscópicos onde estaria registrada toda a história do planeta. Átomos sonoros vibrando em um inimaginável turbilhão. E o mais incrível, usando de incríveis equações diferenciais, ele ser capaz de gravar tudo isso!
O cicerone se empolga. CAM tenta enquadrar o seu rosto entusiasmado. Ela se recompõe. 

MARIA MARIENBAD
 isso é, claro, se os cientistas conseguirem repetir sua façanha, pois a explosão na caverna onde ele tinha seu laboratório, levou embora todos os equipamentos que ele havia inventado. Só pudemos recuperar parte dos arquivos salvos em rede na internet. São estes que vocês ouvem aqui. 

MARIA MARIENBAD se aproxima de uma caixa de som e aperta uma tecla. De um fundo sonoro a princípio inaudível assomam rugidos e gritos primais de uma floresta atemporal. Ventos em folhas, pássaros e insetos, um rosnado, trovões distantes resolvidos em murmúrios.... Sons semelhantes a gravações em Vinil, com estalidos e crepitações intercaladas...

MARIA MARIENBAD
São estes, segundo as suas anotações,  sons de um Brasil antes de ser descoberto. Nas notas que acompanham esse registro, ele apresenta os cálculos de rastreamento e de freqüência, os logaritmos de amplitude e ressonância.... Além da provável área e época dos sons originariamente emitidos. A qualidade é ruim, mesmo. No começo, segundo conta um assistente seu, ele buscava a qualidade dos sons, a “estereofonia granular”, como ele chamava, sem se preocupar muito com a localização precisa do som emitido, mas depois, algo lhe fez mudar o rumo das pesquisas, e ele começou a focar mais na identificação da fonte, em detrimento da qualidade captada... 

JACQUES CARDIGAN 
A senhora então está nos dizendo que ele teve que optar entre duas alternativas: capturar os sons na sua máxima qualidade, mas sem precisar exatamente de onde vieram, ou então determinar a origem exata dos sons, mas à custa da qualidade? Como os pratos de uma balança?

JACQUES CARDIGAN imita uma balança com os braços em gestos caricatos.

MARIA MARIENBAD
Mais ou menos. É o que os físicos chamam de “Principio da Incerteza de Heinsenberg”: quanto mais sabemos a localização de uma partícula, menos conhecemos a sua velocidade (ou freqüência, no caso das ondas sonoras). Devido a interferência da força utilizada na observação. Já ouviram falar em Heinsenberg, Senhores?

MARIA MARIENBAD tenta ser explicativa e cordial com os membros da comitiva, mas JACQUES CARDIGAN insiste em direcionar a exibição para o sketch da sua reportagem.

JACQUES CARDIGAN
E porque ele abandonou Recife e foi viver lá naquele vale no interior da Bahia?

MARIA MARIENBAD 
 Em 1982, no auge de suas pesquisas, eclodiu a Guerra das Malvinas, entre seu país, a Argentina, e a Inglaterra. Mesmo odiando o governo dos militares, ele decidiu se alistar e partiu. Serviu na marinha e aprimorou os radares e sonares da frota cedo derrotada. Foi ferido em combate, perdeu partes do rosto e 50% da audição. Ficou dois anos se recuperando, em um hospital de Buenos Aires. Quando voltou ao Recife, para retomar as suas pesquisas, usava uma prótese no lado esquerdo da face. Sua namorada e assistente, Petruska Pimentel, havia se casado com outro e não se interessou mais em assessorá-lo. Parece que ele culpou a guerra por tê-la perdido. É dessa época que ele começou a gravar sons de batalhas. Queria mostrar ao mundo o horror das guerras esperando que nunca mais elas ocorressem. Escutem isso! É uma batalha na guerra dos cem anos, quando os soldados da casa de Lancaster chegaram até Paris. Há frases em inglês arcaico e francês!

MARIA MARIENBAD - se aproxima de uma nova mídia a poucos metros distante da outra. Os arquivos, ela os seleciona em um Tablet. Ao lado das caixas de som espalhadas no hall e no foyer, há representações pictóricas. Nesta, há uma pintura de Fragonard retratando uma batalha nas ruas de Paris. Ouve-se gritos medonhos, estampidos de pólvora, Crianças chorando, tropel de cavalos, retinir de lanças e espadas.... O Jornalista parece não ver nada de relevante no som que se assemelha em tudo ao som de uma batalha vista em um filme na sessão da tarde.

JACQUES CARDIGAN
 Que romântico! Um amor não correspondido, um rosto transfigurado, uma descoberta grandiosa demais para a humanidade! Foi por isso então que ele se enfurnou em uma caverna na Chapada Diamantina? 

MARIA MARIENBAD 
Pode ser também por isso. Embora ele afirme que estava à procura de um lugar silencioso com grandes vales e largos platôs servindo-lhe como amplificadores naturais. Vejam essas fotos do Vale do Capão e imagine o “eloqüente silêncio” que deve reinar nesses bolsões de ar, a vibração browniana das moléculas suspensas, guardando segredos de polichinelo em seus átomos vibrantes!!!

MARIA MARIENBAD volta a se empolgar. Um aluno no cortejo limpa a garganta e tenta ensaiar uma pergunta. CAM o enquadra em close.

ALUNO
É como uma internet natural! Uma imensa rede de informações em volta do planeta, com todas as vozes do mundo sussurrando ao nosso redor....

O ALUNO ensaia um olhar panorâmico em volta do seu corpo, põe as mãos em torno das orelhas como se em busca de algo invisível girando ao seu redor. Faz uma expressão de susto no rosto. Os visitantes sorriem do seu arremedo. 

MARIA MARIENBAD
Eu diria melhor: como se o planeta fosse um gigantesco museu girando no éter, preservando a música da vida! E como essa vibração não se dissipa para o espaço, não sofre os efeitos da Entropia....
E voltando-se para os estudantes mais novos:

MARIA MARIENBAD
Certamente vocês estudaram sobre a entropia, não é mesmo?
Um estereotipado estudante com óculos nerd comenta com voz esganiçada:

ESTUDANTE
Estudamos, sim. A segunda lei da temodinâmica! Ela explica como o calor se dissipa e com ele toda a informação contida em um sistema. Parece então, pelo exposto até agora, que os sons não podem escapar para o espaço e vão se acumulando enquanto energia!!

MARIA MARIENBAD 
 Essa foi outra de suas geniais intuições. O aquecimento global! Não apenas a queima de combustíveis fósseis tem aquecido o planeta, mas também os sons, os ruídos infernais, buzinas, motores, turbinas, vozes, aparelhos de sons, trios elétricos, Telefonemas, festas... Tudo isso acumulado com quintilhões de outros sons desde tempos imemoriais... Isso sim, fez a temperatura do planeta subir alguns graus!!!

Com um toque no seu tablet, MARIA MARIENBAD ativa uma mídia mais distante onde se faz ouvir uma barafunda atonal e estridentes de ruídos insanos. Serras elétricas, jatos d’água, pneus queimando no asfalto, camelôs, pregadores, narradores de futebol, professores histéricos, pratos quebrados, barrido de elefantes e escaramuça de cães e gatos! MARIA MARIENBAD aumenta o volume. O som reverbera e uma microfonia faz alguns visitantes levar as mãos aos ouvidos. Um deles comenta:

VISITANTE
Parece uma sinfonia de Stockenhauser!
 .
Mas quase ninguém a escuta. JACQUES CARDIGAN gesticula para baixar o volume e insinua uma pergunta. CAM oscila entre o entrevistador e o entrevistado:


JACQUES CARDIGAN
É verdade que, poucos dias antes da explosão, havia uma equipe do CERN, o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares, procurando por ele? E também uma equipe da Revista Nature? Que relação haveria entre eles e a explosão? Poderia ser algo criminoso?

MARIA MARIENBAD
 Não temos confirmação destes fatos. Sabemos que uma empresa inglesa ficou muito interessada nas suas pesquisas, na possibilidade de aferir o nível vibracional das partículas atmosféricas. Mas o interesse deles era outro: conhecendo a intensidade de vibração das partículas, eles poderiam emitir uma vibração contrária e anular o estado original, causando um resfriamento absoluto na atmosfera.Eles qQueriam controlar o clima, um dos últimos sonhos da humanidade! Há fortes suspeitas de que tais agentes estiveram por lá, mas ficou a encargo da Policia Federal a investigação dos fatos. O que sabemos mesmo é que, três dias antes da explosão do laboratório, uma frente fria jamais vista naquele lugar, cobriu todo o vale. O lugar mergulhou em retinta escuridão entrecortada por coruscantes relâmpagos e trovões monstruosos. Houve até geadas cobrindo com pepitas de gelo o solo arenoso do cerrado. Nunca se ouviu falar de algo assim no local!! Pode ser que ele tenha feito tal experimentação para os ingleses verem, ou fez isso para impedi-los de chegar até a ele....

O grupo segue pelas dependências do Museu. Uma música toca ao fundo sem que saibamos ser uma trilha incidental ou algo gravado pelo cientista. CAM se afasta do grupo e vasculha as fotos espalhadas ao longo dos spots. Imagens famosas e anônimas, escolhidas com certo sensacionalismo, ilustram cenas antológicas da Antiguidade Clássica, do Shogunato japonês, dos aborígenes australianos, da Renascença italiana, do Velho Oeste americano... CAM foca nas caixas de som portáteis sob as ilustrações criando expectativas de que delas jorrem a trilha sonora que lhes dêem vida, mas só se ouve o murmúrio dos visitantes em contra-campo. JACQUES CARDIGAN observa uma imensa fotografia em preto-e-branco de um pátio com vários indivíduos de expressões torturadas. O título ostensivo anuncia AS VOZES DA LOUCURA. Ele acena para o CINEGRAFISTA se aproximar e interpela a cicerone:

JACQUES CARDIGAN
O que isso significa isso? Vozes da loucura?

MARIA MARIENBAD aproxima-se do jornalista e leva com ela o séquito disperso.

MARIA MARIENBAD
Ah! Uma de suas teses mais polêmicas, em minha opinião! Para ele, sempre que um singular conjunto de circunstâncias fosse dado, um campo magnético, uma interferência sincronizada ou mesmo um encontro aleatório de vibrações consonantes, entre outras, elas seriam capazes de amplificar consideravelmente um som de grandeza infinitesimal, fazendo-o ressoar aparentemente do nada. Quando se tratava de vozes, alguém nas adjacências poderia ouvir como se ouvisse um fantasma. Anizio acreditava que os loucos possuíam uma freqüência elétrica descompassada entre seus hemisférios cerebrais que favorecesse a amplificação destas ondas no interior da caixa craniana. Sabiam que a neurociência confirma isso hoje? Que a esquizofrenia é uma dissintonia entre os padrões de freqüências cerebrais? O Anizio era muito bem informado destes estudos e gravou um turbilhão de vozes aprisionadas na cabeça de um louco do local, que lhe servira como cobaia!

A ESTUDANTE  (Um pouco mais desinibida)
 Ele poderia ter usado sua própria cabeça, não?

Risos. MARIA MARIENBAD não permite que o deboche se alastre e conclui taxativa.

MARIA MARIENBAD
Não acredito que ele as ouvisse. Com certeza as teria explorado. Esse é o segredo dos grandes artistas e cientistas. Eles exploram sua própria natureza! Ouçam as vozes que ele gravou vibrando na cabeça de um louco.

MARIA MARIENBAD volta a manusear o tablet e as caixas emitem uma algazarra indefinida de idiomas desconhecidos, uma glossolalia de imprecações e alaridos. Algumas frases possuem uma bárbara sintaxe, outras têm uma escansão vagamente familiar, do meio dessa babel se ouve um ou outro palavrão medonho e impronunciável fazendo enrubescer alguns visitantes. Também se ouvem, em um castiço português, fragmentos de um poema e a leitura de itens de uma conta de armazém. 

MARIA MARIENBAD
Estas vozes, segundo seus apontamentos, não seriam traços de memória que o doente conservara em sua mente, mas sons do mundo a vibrarem ao redor e que sua mente eletricamente desequilibrada conseguia reter do fluxo imenso de micro-vibrações que a atravessava. Agora porque eles, os loucos, apenas selecionam vozes humanas e não a imensa totalidade de outros sons inumanos misturados, ANIZIO não teve tempo de investigar, ou teve a resposta e esta se perdeu no incêndio que devorou grande parte de seus escritos.

Um visitante, olhando para CAM, comenta:

VISITANTE
Já ouvi muitos casos de loucos que não ouvem apenas vozes, mas todo tipo de sons, sirenes, martelos, tornos, panelas, rangidos e chiados lancinantes....

ESTUDANTE 
 Vi um filme onde se explicava porque os homens do futuro teriam ouvidos enormes. Aprender a ouvir as vozes dos nossos antepassados pode ser o grande caminho para evoluirmos! 

CAM é bruscamente afastada dos visitantes, como se suas observações não fossem desejadas pelo jornalista. JACQUES CARDIGAN exibe um hollywoodiano sorriso e volta a interpelar a cicerone.

JACQUES CARDIGAN 
 Essas pesquisas parecem ser caríssimas! Computadores sofisticados, microfones importados, antenas no meio do Cerrado. Quem financiava isso?

MARIA MARIENBAD 
 Ele gastou toda a herança de seus pais nesse projeto. Ultimamente não precisava de muitos equipamentos, só de softwares que universidades do mundo inteiro compartilhavam com ele. Agora vocês vão gostar de saber com o que ele ganhava um bom dinheiro nos seus últimos dois anos. Acompanhem-me ate a próxima sala...

MARIA MARIENBAD o grupo adentram uma sala lateral. CAM os segue, no meio do grupo, com pessoas cruzando o quadro e impedindo a visão do recinto. Só após todos entrarem, é possível ver o interior em uma breve panorâmica. Um letreiro editado no visor da câmera anuncia: Salão Terpsícore: A musa da dança e da música! As paredes e o teto estão tomados por imagens de músicos famosos, Haydin, Carlos Gesualdo, Roger Waters, Carlos Gomes, Rachmaninoff, Ravi Shankarr, Beatles... Grandes orquestras e desbotadas fotos em tecnicolor de festivais de musica com artistas indistinguíveis. MARIA MARIENBAD ergue os braços e apresenta o salão como se fosse este setor, a jóia da coroa, o “must” da exposição sonora. 

MARIA MARIENBAD
Aqui está, senhores, aquela que foi para mim a mais fantástica aplicação de suas pesquisas. Sou musicista e por isso me apaixonei pelo seu trabalho quando vi isso: as músicas eternas que ele conseguiu gravar no turbilhão caótico do marulho universal Não apenas as que conhecemos, em exuberantes e magistrais interpretações dos seus próprios autores - só isso já seria uma benção para a humanidade - mas também, o resgate de músicas fantásticas que não foram registradas seja por acidente, seja por não existir linguagem notacional para elas. É incrível! Foi com isso, Senhor Jacques, que ele conseguiu grana para continuar pesquisando sem nenhum apoio oficial e já falido. Dava festas no Vale do Pati, perto do local onde morava, e tocava músicas que nunca o homem moderno pode ouvir! Rapsódias gregas do tempo de Homero, elegias provençais, percussões da Babilônia, madrigais celtas, As flautas indígenas de Atahualpa e dos franciscanos nos povoados das Missões... As pessoas ficavam hipnotizadas. Ele era um DJ metafísico e cultuado em toda a região como um iniciado em segredos sobrenaturais. Vivia tendo problemas para fugir dos discípulos que o cercavam. Para disfarçar o teor das suas pesquisas, dizia fazer contatos com seres extraterrestres que lhe forneciam tais músicas sublimes e hipnóticas. Isso só aumentou o fascínio de suas festas e pessoas do mundo inteiro vinham participar das suas “raves”.

MARIA MARIENBAD gesticula de modo enfático enquanto fala, toca as fotografias dos músicos como se os acariciasse e dançasse. Parece absorta completamente em ouvir a musica inaudível. CAM foca seu rosto em êxtase. JACQUES CARDIGAN vai aos poucos entendendo o ritmo do cicerone e desta vez a interpela sem sobressaltos.

JACQUES CARDIGAN
Podemos ouvir essas músicas extraordinárias?

MARIA MARIENBAD, ainda possuída por algo inefável, sorri e aciona todas as caixas de som espalhadas pela sala. Ouve-se então uma ária de uma profunda melancolia encher o ar na voz cristalina de uma tessitura única, como se cantada por um pulmão masculino através de uma laringe de mulher. Um anjo celebrando o paraíso.... A emoção percorre todo o grupo em um comovente e visível frisson.

MARIA MARIENBAD 
Farinelli. O grande Castratti Carlos Broschi, que arrebatou os palcos da Europa e interpretou Haendel como se fosse um anjo. Ouçam como a gravação se funde com outros de timbre semelhante: são os castratti de Aelia Eudoxia, imperatriz bizantina, cujo escravo eunuco lhe deu a idéia de castrar rapazes para produzir essa voz inigualável e divina!

ESTUDANTE 
 Assombroso! Coisa de outro mundo!

VISITANTE
 Meu Deus! Parece que estou sonhando!

Uma visitante passa mal e desmaia. É amparada por outro visitante e levada para o pátio em busca de ar fresco e um copo d’água. CAM enquadra uma foto de um bosque nas encostas de um platô. Nela se vê algumas árvores esculpidas, com formato de rostos monstruosos onde as bocas são enormes orifícios naturais. MARIA MARIENBAD se antecipa à eventual pergunta dele e se aproxima com o seu séquito.

 MARIA MARIENBAD
Ele esculpiu essas estátuas no bosque vizinho. Cada uma delas emite uma nota quando fustigadas por um vento a penetrar no tronco. Quando sopra o vento da tarde, elas entoam um ritornelo de Brahms. Ele dizia que tal música, que vocês ouvem agora a gravação (ativando a mídia enquanto fala), não era o vento quem modulava, mas sim o som original de uma flauta que próprio Brahms tocou um dia na varanda de sua casa, e que os troncos apenas conseguiam intensificar. Ele acreditava na ressurreição espontânea dos sons!!!

JACQUES CARDIGAN 
 Entendo! Já que eles não morrem de fato! Muito louco esse cara!!!

Em seguida, faz gestos com a mão para que CAM corte o seu comentário. Aos poucos, a Câmera vai se desvencilhando da entrevista e vasculhando os meandros da exposição, enquanto os protagonistas se ocupam em segui-la. O grupo de afasta em direção aos fundos do saguão. No pórtico da nova ala se vê uma estátua em terracota, no estilo inconfundível de Victor Brecheret, de um guerreiro grego com as mãos na boca aberta e o tórax contraído.

MARIA MARIENBAD
Vocês conhecem a expressão “Voz estentória”?

ESTUDANTE:
Acho que sim. Voz retumbante, não é?

MARIA MARIENBAD
Exatamente. Em Homero, na Ilíada, conhecemos o guerreiro Estentor. Sua voz era tão tonitruante que equivalia à de cem guerreiros normais e ele usava essa voz monstruosa como uma arma de guerra nos campos sangrentos de Ílion! A Grécia antiga era uma das regiões sonoras mais vasculhadas por Anizio, um apaixonado pela Grécia. Ele gravou os sons de uma batalha e acredita ter registrado, no meio da hecatombe de bronze, da selvageria gutural dos gregos primevos, o grito de Estentor. Vou ligar no volume mínimo e irei aumentando paulatinamente.

Um alarido de maltas ensandecidas cresce em volume. Ouve-se um rumor crescente de gritos furiosos arrematados por choques surdos de armas brônzeas. Então, como estofo e relevo de toda aquela azáfama, surge um grito monstruoso, prolongado, crescendo em timbre e altura para culminar em um rugido de mil bestas açoitadas por chicotes de um cocheiro ensandecido. Alguns visitantes pulam pra trás. Outros dão um riso histérico. Um deles comenta:

VISITANTE
isso deve ser “efeito especial”. Alguém humano não poderia gritar assim!

MARIA MARIENBAD 
Não sei se o senhor sabe, mas ele usou vinte tera-computadores de uma universidade sueca, em parceria com a Siemens, para calcular os logaritmos de localização e outros tantos para analisar a gama sonora! Não precisaria nem de um milionésimo disso se fosse forjar algo. 

JACQUES CARDIGAN 
 Ela pensava no Nobel quando escolheu essa universidade-empresa na Suécia?

MARIA MARIENBAD finge não ouvir a insolente pergunta. Dirige-se para um bebedouro e sorve um ruidoso gole de água! A moça que havia desmaiado retorna e se incorpora ao grupo que segue o cicerone por um sinuoso corredor. Aproximam-se de uma porta fechada. MARIA MARIENBAD abre-a solene e avisa a todos antes de franquear a passagem:

MARIA MARIENBAD
Prestem bem atenção. O que vocês vão ouvir aqui é algo profundamente melindroso. Diz respeito a crenças e religiões. Pode causar constrangimento a ateus e seguidores de credos distintos. Ainda estamos avaliando se tal parte do legado do Anizio será exibida em todo o seu conteúdo. Adianto-lhes que parte dele não vos será revelada, por razões compreensíveis.

 Em um gesto largo e enfático, MARIA MARIENBAD abre as portas e a luz estoura tal o contraste da iluminação artificial do hall com a luz do sol que penetra as janelas abertas e os vitrais. CAM rapidamente se adapta corrigindo o foco (edição em lumakey). O local se parece com uma capela Sistina em miniatura, com as paredes e teto coberto por imagens de personagens bíblicos. Um cavalete no centro apresenta o título A VOZ DE DEUS!. MARIA MARIENBAD fecha as portas após o grupo adentrar e volta a explicar em OFF enquanto CAM traça uma panorâmica do cenário.

MARIA MARIENBAD
Após o ferimento na guerra, Anizio Granbello se tornou um homem muito religioso e achava que suas pesquisas era uma missão divina. Sua concepção de Deus era a de um ser dotado de uma audição onipotente capaz de ouvir todos os vagidos da matéria, todos os soluços secretos da nossa alma! Imagine vocês o som de uma onda quebrando no mar. É um som integrado por bilhões de gotas d’água chocando-se com bilhões de grãos de areia. Nossa percepção não dá conta de distinguir cada uma delas, mas um ouvido hiper-potente, em tese, poderia.. 

VISITANTE 
 Há uma passagem em Gênesis em que Deus pergunta a Caim pelo seu irmão, Abel, e informa que ouve o sangue de Abel escorrer pelo solo reclamando justiça! Estou vendo ali uma pintura de Caim e Abel, de Ticiano. Há por acaso algum som gravado sobre essa cena?

MARIA MARIENBAD 
 Sim! Há uma gravação a respeito. Em hebraico. Mas há uma parte que não podemos exibir, desculpe. Ordens Superiores. Mas há dezenas de áudios de temática bíblica pela sala. O saltério do Rei Davi! O Sermão na Montanha, A travessia do Mar Vermelho, A música que Salomé dançou para Herodes.... Gravações cristalinas que, assim que forem validadas pela ciência, irão comover a humanidade e sacudir a fé dos homens. Era mesmo uma missão divina essa dele! Arrepio-me só em pensar...

JACQUES CARDIGAN
Estas gravações proibidas seriam a Voz de Deus?

CAM fecha sobre o rosto do cicerone.

MARIA MARIENBAD
Esperava por essa pergunta. Não podemos afirmar. O que existe nessas passagens é algo que deixou o Anizio profundamente impressionado: um silêncio absoluto! Uma completa ausência de vibração. Algo em tese impossível de ocorrer no marulho browniano das partículas. Como se Deus, ao falar, o fizesse por meio de uma transcendência de pura energia, como se não precisasse de um suporte... Não me sinto qualificada para falar sobre isso. Há um grupo de teólogos e neurologistas estudando os efeitos desse silêncio absoluto. Quem sabe em breve não possamos exibir ao mundo inteiro a “voz de Deus”?

MARIA MARIENBAD faz “aspas” com os dedos ao citar a “voz de Deus”. Alguém ri em OFF. CAM acompanha um casal diante de uma tela exibindo uma imensa muralha desmoronando sobre um povo em pânico. A mulher que havia desmaiado aproxima-se do casal e comenta:

MULHER
Li no jornal que o laboratório explodiu quando ele pesquisava a faixa de sons dos tempos bíblicos.....

MARIA MARIENBAD, em contracampo, comenta para todos ouvirem:

MARIA MARIENBAD
Vocês parecem ter adivinhado. Foi justamente quando filtrava as trombetas de Jericó que ocorreu a explosão fatal. Conseguimos recuperar o arquivo, ou parte dele, o som de uma trombeta entre dezenas de outras cuja gravação original se perdeu nos escombros. O arquivo recuperado está no sistema, mas ninguém teve coragem de ativá-lo. Especialistas estão debruçados sobre ele. Há um temor de que, se foi mesmo este som a causa da explosão, mesmo um pequeno fragmento dele pode causar um dano considerável. Infelizmente, ficaremos devendo ao publico, pelo menos por enquanto. Semana passada, exibimos para um grupo de religiosos o som da crucificação do Nosso Senhor Jesus Cristo e foi uma comoção terrível com pessoas desmaiando e ambulâncias na porta. Espero que entendam as nossas restrições nesse setor.  Vou ativar um som parecido, o som do templo dos filisteus sendo destruído pelos braços de Sansão. Ouçam com atenção. Com ele encerramos essa exibição.

MARIA MARIENBAD ativa o som de uma hecatombe de pedras, gritos desesperados e o cântico triunfal do herói hebreu morrendo sobre as pedras gigantescas. Um ruído de fundo permanece, recheado de gemidos abafados, gritos histéricos e acomodação de escombros. Extático, o público ouve a gravação enquanto CAM recua até a porta, se posicionando ao lado e enquadrando o rosto comovido dos visitantes, em fila indiana, a abandonarem o recinto, guiados pelo cicerone, em direção a um pátio externo, arborizado, nas dependências externas do museu. Ali, JACQUES CARDIGAN conversa à distância com alguns visitantes, mas não se ouve a sua voz e sim a persistência da ultima gravação feita de silêncios cada vez mais prolongados, entre o rolar e a acomodação tardia de uma pedra assassina. Em seguida, o jornalista se dirige à um banco de madeira onde a mulher que havia desmaiado, após retirar da bolsa um par de óculos escuros, sorve lentamente um copo de água mineral. JACQUES CARDIGAN conversa rapidamente com ela e acena para CAM que se aproxima, a tempo de gravar uma conversa que havia se iniciado:

JACQUES CARDIGAN
A senhora então, alega saber qual o motivo da morte do Anizio Granbello, e que a explosão que o vitimou nada teria a ver com a gravação das trombetas de Jericó! Como você pode afirmar isso?

A mulher retira os óculos e limpa as lentes com um lenço. Há indícios de lágrimas em seus olhos. Ela põe os óculos de novo e se volta para CAM:

MULHER
Eu sou Petruska Pimentel, a assistente do Anizio Granbello no começo da carreira, antes dele ir para a Guerra das Malvinas. E a mulher que ele confessava ser apaixonado. Posso lhe garantir que a causa da sua morte foi outra.

JACQUES CARDIGAN se debruça sobre a depoente como uma ave carniceira. CAM muda de posição em busca de um enquadramento melhor.

PETRUSKA PIMENTEL
Quando comecei a trabalhar com ele no departamento de Acústica, na Universidade Federal de Pernambuco, Eu era noiva de outro homem e não cedi às suas investidas românticas, mas sempre tive um carinho muito grande por ele... E eu era mesmo apaixonada pela teoria da persistência dos sons, que naquela época ele já defendia. Ele não entendia o que eu realmente amava.... Recordo-me intensamente quando estourou a guerra entre seu país e a Inglaterra. Fizemos um baile de despedida para ele no salão da Reitoria e tentamos convencê-lo a voltar o mais rápido que pudesse. Eu fui com o meu noivo e Anizio ficou muito abalado ao ver-me de braços dados com outro!

PETRUSKA PIMENTEL se emociona, desvia o olhar de CAM e limpa uma furtiva lágrima. JACQUES CARDIGAN tremelica as sobrancelhas sugerindo que ela continue.

PETRUSKA PIMENTEL
 O som da festa era mecânico e alguém colocou um tango, em sua homenagem. Ele me tirou para dançar e conversamos no salão enquanto dançávamos. Eu lhe disse, dançando, que ele poderia esperar um grande sucesso com sua tese, pois iríamos continuar com as pesquisas, com a mesma dedicação, ou mais até! Ele me olhou no fundo dos olhos, uma expressão de tragédia parecia envolver o seu rosto magro. Perguntou-me o que devia ele esperar do futuro, de mim e dele... Honestamente não me recordo do que lhe disse. Tive medo do que viesse a lhe ocorrer na Guerra, acho que tive uma visão e lhe respondi: A MORTE! A MORTE era o que ele deveria esperar. Mas acho que só pensei, ou murmurei muito baixo. Tive medo de falar assim. Ele não falava bem o português, tinha dificuldades em recortar nossa língua. Eu tinha bebido também e queria me libertar daquela tensão que me dilacerava. Ele voltou da Guerra com o rosto desfigurado. Não queria me ver mais, mas me escreveu centenas de cartas nos vinte anos seguintes, dizendo que eu lhe havia dito: AMO-TE, AMO, TE AMO! Havia tanta convicção em suas cartas! Disse-me que passaria o resto da vida tentando gravar aquele baile e o meu sussurro em seu ouvido. O que quer que eu tenha dito, fora algo tão hesitante, um verdadeiro pensamento a escapar pelos lábios, que ele precisaria de muita potência nos sensores e microfones para rastrear. Ele gravou o baile, nossa conversa e o leve rocio dos meus lábios em seu ouvido. Para ouvir o que continha aquele sopro, para amplificar o meu hálito, ele teria que usar a carga inteira de energia, com riscos de explodir tudo. 

JACQUES CARDIGAN
 Principalmente sendo meio surdo, segundo consta, após um incidente na guerra!

PETRUSKA PIMENTEL
Exatamente! E foi isso que aconteceu. Não foi morto por agentes secretos a roubar seus segredos, nem pelo som místico das trombetas de Jericó, nem por um acidente qualquer! Ele gravou nosso diálogo e estourou a potência dos aparelhos ao querer me ouvir!

JACQUES CARDIGAN
Mas ele acabou por encontrar a morte ao procurar por suas palavras. Não seria isso uma prova suficiente de que você profetizou a morte dele? E que essa morte ficou vagando no caos esperando ser entendida para finalmente acontecer?  Isso daria uma história incrível! Um homem em busca de seu destino e o encontrando bem ao estilo das tragédias gregas!!!
 
PETRUSKA PIMENTEL
Mas ele me levou junto nessa auto-imolação, pois morrer procurando a minha voz me fez descobrir que eu o amava, também! Sim, talvez desde aquela época! Ando muito confusa desde que ele morreu por minha causa! Preciso saber o que eu disse a ele, e eu sei que ele conseguiu! Preciso ouvir essa gravação! 

JACQUES CARDIGAN faz sinal para CAM desligar. O tom editorado da fotografia muda para um tom normal, sugerindo não ser mais parte da reportagem o que vem a seguir. JACQUES CARDIGAN espera sua entrevistada se recompor.

JACQUES CARDIGAN
O que você planeja fazer?

PETRUSKA PIMENTEL
Vou aproveitar que estamos na hora do almoço. Ela saiu e deixou o notebook no armário. Vou entrar e abrir os arquivos. Vou copiar tudo. Tenho certeza que a voz da nossa valsa está gravada ali!

PETRUSKA PIMENTEL tem um olhar insano. Abre a bolsa e apanha algo volumoso de dentro da bolsa, bastante semelhante a um revólver calibre 22. CAM recua assustado.

PETRUSKA PIMENTEL
Eu abaixei o botão do volume da vida, quando o abandonei. Agora vou aumentá-lo outra vez! Espero que vocês não se oponham, obviamente! Essa coisinha faz milagres!

JACQUES CARDIGAN
De maneira nenhuma! Fique a vontade, senhora! Foi um enorme prazer lhe conhecer. Permita-me retirar. Com licença!

JACQUES CARDIGAN se levanta e se afasta a passos rápidos em direção ao estacionamento. CAM recua mantendo o foco em PETRUSKA PIMENTEL que se dirige com passos resolutos em direção ao interior do museu com uma arma na mão. Em seguida CAM se volta para o estacionamento. Oscilante, CAM registra partes do corpo de JACQUES CARDIGAN e ouve-se ele dialogar com o cinegrafista.

JACQUES CARDIGAN
Puta que pariu! A mulher é louca! Pra dar um tiro nas nossas costas não lhe custa nada!

CINEGRAFISTA (Em OFF)
 Dizem que os semelhantes se atraem! O tal do Anízio também devia ser muito pancada...Surdo, desfigurado, em uma caverna a gravar os sons da história universal!.... E se ela abrir o arquivo das trombetas de Jericó e essa porra toda voar pelos ares?

JACQUES CARDIGAN
Não estaremos mais aqui. Aí será matéria para a equipe policial. Somos do caderno cultural, não se esqueça disso. Rápido. Ali está o carro...

CINEGRAFISTA
Você que estava procurando um tema para um documentário... Tirou a sorte grande! Isso dá um filmaço!

Em takes desfocados pelo movimento brusco, eles se aproximam do carro. Uma criança passa segurando um balão de gás que estoura perto deles. Os dois tomam um susto medonho. JACQUES CARDIGAN esboça um ricto risonho nos lábios. Entram no carro. CAM é desligada (FADE IN). No escuro ouve-se o motor dar a partida e se afastar com ruídos de pneus no asfalto. Alguns segundos em silêncio. Em seguida a voz do CINEGRAFISTA:

CINEGRAFISTA (OFF)
A propósito, acho que esses arquivos nem existem. A essa altura da história, os sons devem estar todos espalhados uniformemente pela atmosfera, feito uma nuvem.. Eles devem ter é um software para identificar, localizar e amplificar os sons. Duvido que ela saiba rodar....

JACQUES CARDIGAN (OFF)
.....Estou com uma fome de lascar o cabo da manivela! Vamos passar no Mcdonalds? Pegou os tickets-refeição?

CINEGRAFISTA (OFF)
Estão no porta-luvas. Vou pedir um Big Mac quarteirão com fritas e um guaraná. Como é mesmo o nome daquele molho....

Enquanto eles dialogam em off, o som de uma apocalíptica trombeta cresce nos interstícios da fala até atingir uma altura insuportável. Em seguida, uma violenta e prolongada explosão distorce a estereofonia. Houve-se gritos de júbilo e euforia em uma língua desconhecida. Descem os créditos.                                                                                                             FIM


                                    




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