Quando entoamos uma nota musical e a mantemos prolongada ouvimos, após um breve período, a mesma nota ressoar numa outra escala (bemol ou sustenida) e com isso atestar um transporte de diferencas na identidade. Na percepção das cores ocorre um fenômeno semelhante: a frequência das ondas luminosas desenha um espectro de cores em variações ordenadas e harmônicas ilustrando as razões matemáticas de um mesmo feixe de ondas e somos levados a imaginar, por ressonâncias físicas deste pensamento, as qualidades visuais que outros animais com maior ou menor "intervalo de consciência" poderiam perceber: o "azul bemol" que Ticiano provaveImente via, o "amarelo sustenido" que W. Turner... Os estóicos na antiga Grécia foram os primeiros a elaborarem, no plano filosófico, a teoria de uma razão cósmica ordenando os acontecimentos ou notas da grande sinfonia que é a história do mundo. No plano ondulatório da matéria esta possibilidade torna-se plausível e evoca a influência mística e matemática dos pitagóricos -insólita hipótese de uma harmonia entre fatos separados no espaco e no tempo. Seja um acontecimento do tipo: Napoleão cruza uma ponte inimiga na Itália e um outro, o Titanic naufraga no Atlântico Norte. O calor da pólvora sobre a ponte, um corpo abatido e conduzido para o mar, um descendente abortado que poderia ser um exímio navegante...infinitos seriam os avatares da batalha, as causas errantes e conjugadas no naufrágio marítimo como partes submersas do iceberg e que uma razão cósmica ouviria num mesmo contraponto. As redes labirínticas e causais dos acontecimentos intermediários, o "intermezzo" entre esses dois acontecimentos do exemplo, esboçaria séries ordinárias e disparatadas de uma vibracão unissona e razões múltiplas como número dos movimentos. A palavra razão tem um sentido originariamente matemático e hoje quando a usamos no sentido de causa e efeito encontramos vestígios de proporções físicas e quantitativas nas relações e nos próprios termos (... Existe na causa igual ou menor intensidade do que no efeito, a intensidade de um efeito é igual à somatória das causas em concurso...). O filósofo inglês David Hume de Edimburgo, citado em substância, fundamenta a legendária razão humana no princípio de causa e efeito entre as ocorrências da natureza, relação esta que engendraria as inferências, as deduções, a ciência; todavia, este princípio não seria um dado imediato da consciência (exemplo da bola de bilhar). Hume retira esse princípio da natureza desqualificando-o a uma instância psicológica. Na natureza só haveria relações de semelhança, contigüidade e sucessão entre os casos e cuja repetição produziria nos homens o hábito de esperar um segundo caso semelhante, contíguo e sucessivo ao primeiro. Inquirido sobre o porquê dos acontecimentos carregarem esta ordem implícita, porque a água ferve sempre a cem graus, porque onde há fumaça há fogo, porque os costumes se transformam em leis... Ele respondia com ironia inglesa que haveria uma harmonia pré-estabelecida como segredos ocultos da natureza. Esta harmonia entre os acontecimentos esposa com felicidade a teoria da mecânica ondulatória e explica as séries de relações numéricas simplificadas no conceito de causa e efeito. No murmúrio da chaleira fervendo ouvimos as notas sustenidas dos átomos do fogo, uma escala depois e ouvimos a mesma água caindo em leve chuva sobre as folhas... A pretensão destas considerações é dar um sentido, entre tantos outros, a uma experiência enigmática que Frederich Nietzsche vivenciou e batizou com o nome de "Eterno Retorno". Não é inverossímil acreditar que a sua extraordinária alma de músico tenha, um dia, na contemplação de um acontecimento qualquer, ouvido todo o murmúrio anônimo da História, as batalhas e a grande comédia humana no canto de um pássaro migratório! Na exclamação que lhe escapa pela boca, ouve-se um contraponto: é a sua alma, feita de música e tempo, que parte rompendo as barreiras do "cógito" e entoando seu último peã que Emerson sintoniza: Oh! Meu pensamento, eu sou as asas quando de mim você foge! Sentimos que. apesar da sua natureza metafísica, a teoria do Eterno Retorno funciona como uma experiência ética: conscientes de que todos os nossos atos se repetirão infinitas vezes. um extremado rigor, uma impecabilidade, quase que uma apoplexia (mal de Nietzsche) passa a conduzir a nossa vida. Ao adotar certas condutas, ao afirmar o nosso destino, a consciência desta infinitude potencializa a nossa vontade e faz ressoar pela eternidade afora a expressão dos nossos desejos soberanos. Lembremos de Espinosa que definia a essência de qualquer ser como o desejo de perseverar na existência. Nenhuma finitude poderia assim limitar o desejo. Os pássaros quando cantam querem cantar pela eternidade afora e não é por acaso que, quando amamos, juramos amor pela vida inteira! No plano físico algumas concepções do universo permite especular sobre a repetição dos acontecimentos, as intuições estóicas de um cosmo vivo que se expande e se contrai em grandes períodos de tempo chamados de "Ano Cósmico", a reversibilidade da flecha do tempo defendida por albert Einstein e mesmo algumas deduções desta teoria folhetinesca da singularidade original ou "Big-Bang". No limite máximo da sua expansão, haveria uma transmutação de todas as forças, um equilíbrio "presque magique" inverteria ○ sentido de todos os fenômenos físicos e, como um longo filme projetado ao contrário, viveríamos cenas inconcebíveis: ondas levantando-se das praias, poeiras agregando-se e erguendo castelos, corpos rejuvenescentes saindo da terra, cães engolindo latidos, chuvas subindo para as nuvens etc. etc. etc... Os físicos nomeiam este fenômeno como entropia negativa, neg-entropia, produção de ordem dentro de um sistema por acúmulo de energia... Depois o universo explodiria de novo, tudo se repetiria, eu infinitas vezes delirando ao concluir este texto e você lendo-me deitado em uma rede, invejável leitora!

0 comments :
Postar um comentário