Tão intensa era a tarde de primavera que a imagem do sol tremia e bailava no azul do céu. Os raios de luz penetravam fundo nas folhas, na sala, no coração das flores e todo o jardim gozava a embriagante alegria de viver. O zumbido dos insetos, o murmúrio da água e os pássaros inquietos compunham uma doce sinfonia cujas notas, evoluindo, nas asas de borboletas poderíamos ler. Com o encanto dos dezessete anos eu concluía, com religiosidade, as últimas páginas de um livro maravilhoso: "A Máquina do Tempo" do escritor inglês H. G. Wells e minha imaginação fervilhava como os jatos do regador naquele sol a arder. Um homem inventara uma máquina do tempo e, viajando no futuro longínquo, descreve em páginas sombrias e proféticas o destino da humanidade. Ao voltar ao seu tempo de partida, o escritor viajante possui, inadvertidamente, uma rosa entre os dedos, prova cabal de ter sido a sua longa jornada um episódio mais real do que um simples sonho. A possibilidade de habitar outras regiões do tempo configurava um teatro para o vazio das tardes e banhava-me o espírito nas espumas de um sonho. Deitado sobre a grama, à sombra de árvores copiosas, eu concebia o futuro com tanta vivacidade que bastaria acrescentar esta coisa inefável, esse princípio metafisico que é a existência, para que ele se apresentasse sólido e tangivel a minha frente; inesperadamente, o "fiat" desse mundo imaginário deu-se em forma de um ruido intempestivo entre duas sebes floridas no jardim. Caminhei até o local e vi sob os evidentes raios do sol uma mirabolante geringonça com um atordoado tripulante humano e antiquado em todos os detalhes, exceto no olhar saturado de luz e na expressão estarrecida de visões inconcebíveis. Rememoro mudanças sensíveis no jardim, variações na arquitetura e o pitoresco de ruínas acentuadas, mas a presença quase miraculosa da estranha personagem cristalizava minhas atenções. Uma simpatia fraterna pairava nas sombras e conversamos com intimidade, desatentos quanto ao idioma. Suas primeiras narrativas, versando sobre o futuro iminente, reproduziam, "ipse litere", as páginas do livro lido. Reconheci o eminente escritor com a mesma perplexidade com que ele fitava o seu nome impresso na capa colorida. O sol filtrava-se nas nuvens do crepúsculo e uma áurea brilhava nas folhas incendiando a atmosfera de uma epifania extraordinária. Um motivo preemente conduziu o visitante de volta para o seu veículo, um horário imperioso ou, talvêz, o desejo de voltar ao passado e escrever o livro que ele agora sabia ser necessário; não sei, não prescrutei os seus olhos durante a despedida. Meu olhar acompanhava um gesto inconsciente esboçado pelas suas pálidas mãos: seus dedos colhiam uma rosa amarela quando, tomado por um inexplicável instinto, impedi-lhe esse movimento ao me despedir com um prolongado aperto de mão. Após a sua partida, pude olhar com mais atenção e com o mesmo espanto os arredores do jardim. A onírica arquitetura das ruas vicinais sugeriam que apesar de eu me encontrar no mesmo lugar, o tempo talvez transcorresse em um futuro bem distante das minhas tardes de leitura; mas o que impressionava-me sobretudo era a natureza das revelações queo ilustre escritor havia feito. O problema crucial destas viagens no tempo, dissera ele, era orientar aparelho na dimensão real da nossa existência já que haveria, paralelo ao nosso, uma infinidade de mundos compossíveis em irisadas gradações de perfeição; a nossa dimensão espaço-temporal é o mundo mais perfeito por ser o único que existe enquanto os outros, cópias degradadas e simulacros, são dimensões pálidas e nebulosas com rarefeitas possibilidades. A conjugacão de todos os possíveis,o nexo entre os acontecimentos, seria as peças de um "puttzle", a consistência desta dimensão onde ele viajava e onde encontrara-se comigo. Durante a viagem todos os mundos possíveis se abriam como pétalas de uma rosa em torno de uma singularidade: a máquina. Um cenário se descortinava semelhante a uma casa de espelhos e o seu olhar deveria escolher, nesse labirinto de mundos, o mais distinto e articulado, o mais simples, o mais rico em atualidades. O seu método era extremamente eficiente e original: em cada ponto de convergência nestas séries de mundos ele procurava um jardim e no vertiginoso caleidoscópio de tantas imagens possíveis, atuais, reais e virtuais, ele escolhia uma rosa e aspirava-lhe o perfume dizendo-me, como um bom empirista inglês, que homem nenhum se engana pelo olfato. Refletindo agora, atribuo a esse entendimento o meu gesto precoce de afastar os seus dedos daquela rosa. Temi que a interferência de uma flor no passado e a sua ausência naquele momento "futuro" disparasse acontecimentos divergentes, um espinho no dedo de um escritor, um momento a mais de contemplação na férrea cadeia da necessidade, coisas simples bifurcando as linhas do tempo. Temi que o nosso encontro se convertesse em um sonho imcompossível, que o seu livro não adentrasse o meu horizonte, que eu, já angustiado nesse germe de pesadelo, fosse condenado a viver em uma dimensão desqualificada, a jogar a vida em um tabuleiro de casas vazias. Sinto que ele compreendeu a minha covardia. A rosa não fora colhida e seu perfume exalava perto de mim. Os últimos raios do sol vieram iluminar no horizonte mais um fenômeno extraordinário, mais um golpe no meu já combalido bom-senso: o sol havia se duplicado como se um espelho fosse introduzido no meu campo perceptivo! O sol, as montanhas, as árvores e os prédios, o mundo inteiro fendia-se em dois e esta bizarra reflexão, começando muito longe, vinha em linha reta na minha direção, Passei a mão no rosto. Talvêz uma lágrima gratuita fosse a causa desta insólita alucinação. O espelho aproximava-se vertiginosamente e oprimia-me o peito como faria, nos olhos, uma coruscante navalha. Súbito formulei em pensamentos a natureza desta ilusão. A rosa deveria ser colhida a qualquer preço para que eu e o ilustre escritor habitassem o mesmo mundo, para que as suas viagens, seu livro e o nosso encontro formassem uma rede de acontecimentos necessários. Ter evitado o derrisório gesto do viajante naquele momento crucial produziu uma bifurcação entre dois mundos _ de um lado um mundo possível onde havia uma singularissima rosa, um leitor atônito e uma nebulosa geometria em volta do jardim; do outro, o admirável mundo novo que se refletia em minha frente com máquinas graciosas, com coloridas e explêndidas residências e com um galho ressequido onde, em poucos segundos, deslumbraria-se a ausência de uma rosa. Incontinenti colhi a flôr e o mundo ao meu redor voltou a ter a sua tediosa unidade. O sol havia se posto e imediatamente tudo ficara escuro. Era noite quando acordei no jardim com o livro cobrindo-me a face. À distância de um braço, uma roseira balançava os seus galhos e por um bom tempo a recordação de um vívido pesadelo manteve-me imóvel e com as mãos crispadas. Por entre os dedos da mão direita, rígidos e timoratos, o perfume de uma rosa exalava-se...!
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