sexta-feira, 24 de julho de 2026

Prefácio COMO ERA VERDE O MEU VALE DO RIO PARDO!

Prefácio

Prefaciar Cassiano não é fácil. Sua mente é como um laboratório repleto de tubos de ensaio, pipetas, condensadores e todo tipo de objetos capazes de transformar os elementos da linguagem em uma fórmula delirante. Sim, parece que, no momento da escrita, ele é tomado por uma febre que lhe proporciona as associações mais inusitadas em narrativas que prendem o espectador, do início ao fim, em um fantástico sonho acordado.

Como Era Verde o Meu Vale do Rio Pardo é, pois, um convite inadiável para um mergulho profundo nesse caótico realismo fantástico que germina a imaginação em um cosmos próprio, que cria universos quase insondáveis, se não fosse a maestria do escritor de romper, com seus habilidosos dedos prenhes de conhecimento, qualquer cartografia convencional, mantendo acesa a chama do leitor de devorar como labaredas as páginas viscerais. O autor nos convoca a invadir o mundo do mistério, revirado e revelado nas conclusões miraculosas de cada conto.

Cassiano Ribeiro Santos, ao parir estes escritos extraordinários, transfigura a pueril e onírica Itambé, cidade baiana onde nascera, em um território místico, em que as memórias da juventude emergem ornamentadas por tramas que capturam o leitor em um fluxo erudito de quase absurdo ou do absurdo em si mesmo. Mais do que uma simples veia artística, o autor demonstra uma formação cultural ostentosa, transformando esta obra em um épico do gênero em língua portuguesa que dialoga com a filosofia e a literatura universal.

Abram a mente o máximo que puderem, estendendo-a como elástico de grandes proporções para que caibam ali o resultado literário de um intelecto dotado de uma "imaginação retumbante". O leitor encontrará abismos infindáveis onde o mergulho oscila, de forma sublime, entre o deleite do absurdo e o horror do grotesco. Navegar pelas páginas de Como Era Verde o Meu Vale do Rio Pardo é, antes de tudo, um exercício de arqueologia da alma. O autor transmuta a geografia do sudoeste baiano em um território literário que dialoga com o Macondo de García Márquez e os sertões metafísicos de Guimarães Rosa, e até mesmo com personagens como Pedro Páramo, de Juan Rulpho.

A obra inicia-se sob a égide do mistério em "Os Panos de Dionê", onde a figura de uma cigana vidente se torna um "barômetro de sangue" para uma população dependente das chuvas. A natureza aqui aparece como uma força viva que se comunica através dos poros da protagonista cheia de cor, em uma imagem que evoca o expressionismo visual de um Werner Herzog, onde o sangue anuncia "a água das altas cabeceiras das invernadas". A força motriz da narrativa é a inversão de causa e efeito: o povo, em sua "mente obscura e supersticiosa", passa a ver Dionê não como uma mensageira, mas como a causa da chuva transformando-a em uma entidade que deve ser "mimizada" com presentes para que continue a sangrar. A transição da veneração para o linchamento quando a seca persiste revela uma crítica mordaz à volatilidade da fé humana.

A relação com o tempo, esse grande tirano da filosofia, é explorada loucamente no conto "O Cuco!", no qual Loinha, o protagonista, é um "chapeleiro maluco" encarnado no interior baiano. Personagem quase beckettiano, ele é capaz de informar a hora exata sem jamais consultar um relógio, refletindo a cadência da vida que "ganhava ares urbanos e uma branda rotina de afazeres sincronizados". Aqui, a influência de Immanuel Kant fica explícita, citado como o "filósofo da Lei, da Razão e da Moral" e que também servia de referência, na cidade de Königsberg, na qual os moradores acertavam os relógios pela sua pontualidade na saída para a caminhada das 15h30. Contudo, no vale de Cassiano, o tempo não é apenas uma categoria a priori, mas um elemento plástico que pode ser "antecipado" ou "retardado" por desejos humanos, resultando em uma "teia de aranha" temporal que rege o destino dos amantes e cobra juros extorsivos por pequenos atrasos ou adiantamentos na vida.

Sua mirabolante imaginação atinge seu ápice em narrativas surreais, como nas dos filmes de Luis Buñuel. Em "O Urubu que sentou em sua sorte", uma gincana escolar transforma-se na hercúlea missão de capturar um Urubu-rei, com descrições viscerais que nos fazem sentir o "fedor terrível" de estar dentro do ventre de um animal. Já em "O Anjo Borralheiro e o Galo Preto de Tranchinxin!", somos confrontados com o desejo ícariniano de voar, personificado em Wandeco, um menino que pede a um curandeiro para ser ensinado a "voar feito um passarinho por esse mundão de Deus". A conclusão dessa busca é de um horror lírico, onde o sangue "vermelho dourado" do anjo abatido salpica a Rua dos Artistas, transformando a crônica local em um martírio de beleza e crueldade que lembra as pinturas de Caravaggio.

O livro mergulha também em questões metafísicas e escatológicas. No conto "O Peso da Morte", o autor explora a superstição de que "o peso crescente se devia aos pecados do morto". Essa pesagem da alma, reminiscente do Antigo Egito, é colocada em xeque pelo Dr. Bandeira, um médico que se vê preso em um sonho dantesco onde os mortos têm sede e as "chamas do inferno já começam a nos lamber". É uma exploração da culpa e do ultraje ao cadáver que dialoga com as preocupações existenciais de um Dostoiévski ou o terror psicológico de Edgar Allan Poe.

Não se pode ignorar a veia picaresca e satírica presente em "O Médico Vigarista", onde o embuste e a esperteza andam juntas, seja na luta pela sobrevivência ou na ascensão social, que tece uma crítica mordaz à moral agrária da época. A história de Paulo Puqueiro, um lavrador forçado a ser médico "na base da pancada" é uma obra-prima do gênero, que envolve a "cura" da filha do prefeito, provocada por um acesso de riso, e o posterior uso de um "caldeirão de água fervendo" para ameaçar pacientes e obter curas psicológicas instantâneas, satirizando a credulidade e os modismos da época. Da mesma forma, a longa novela "Cinco em Um" apresenta uma verdadeira Bildungsroman (romance de formação) de teor sexual e filosófico, navegando pela "História da Sexualidade" com um humor que se assemelha ao cinismo de Diógenes.

O ápice intelectual da obra encontra-se no "Apêndice Filosófico" sobre Ludugero Heinck, o "Filósofo 3D". Através deste personagem, Cassiano nos apresenta um sistema triádico de compreensão do Ser: Complicacio, Explicacio e Consumacio. Inspirada na metafísica de Avicena, tais ideias sugerem que tudo no mundo possui três faces: a essência individual, a lógica universal e a essência nua ou intensidade vivida. Ludugero aplica esse esquema à biologia, à luz e até às artes, sob os ouvidos atentos do contista, chegando à conclusão de que o Cinema, e não a Literatura, surge como a "face CONSUMACIO das artes", fundindo todas as outras em uma única experiência estética.

Escritor de vasta erudição e imaginação transbordante, ele faz de Itambé o epicentro de um realismo fantástico regional e também sem fronteiras. Arqueólogo da memória e do absurdo costura suas narrativas com referências constantes à filosofia universal, à literatura e ao cinema. Ele transita com facilidade entre citações de filósofos como Immanuel Kant (referenciado no conto "O Cuco!") e a metafísica de Avicena (discutida no "Apêndice Filosófico"). Sua obra é um épico do gênero em língua portuguesa que integra a cultura universal ao regionalismo baiano.

Mestre do picaresco e do grotesco, de suas veias salpicam uma satíra apurada, fazendo uso, em alguns casos, do pseudônimo Eurípedes Cangussu. Ao explorar o lado visceral da existência humana — como o fedor de carniça em "O Urubu que Sentou em Sua Sorte" ou o sangue "vermelho dourado" de um anjo abatido — o sublime e o grotesco se imiscuem, como o sol e a lua em um eclipse. Por sinal, sua personalidade metafísica se densifica no "Apêndice Filosófico" sobre Ludugero Heinck, que sistematiza a experiência humana através da Filosofia 3D (Complicacio, Explicacio e Consumacio), demonstrando que sua literatura busca ver o mundo sub specie aeternitatis (sob a ótica da eternidade).

Em suma, Cassiano Ribeiro Santos é um autor que transforma o regional em universal, utilizando uma linguagem sofisticada que explora as profundezas da alma humana através de contos que são, ao mesmo tempo, baús abertos de cultura literário-filosófica e submersões ao submundo do absurdo. Ao encerrar a obra com a expressão "EST CONSUMATIO!", o autor parece selar um compromisso com a totalidade da experiência humana sob a espécie da eternidade.

Deleitem-se, pois, com a leitura dessa obra-prima, como eu mesma o fiz para escrever esse proêmio do inconsciente cassianíaco (mesmo que ele não acredite no inconsciente).

Sophia Mídian Bagues Santos Doutora em Crítica Cultural (com estágio doutoral na Université de Montpellier Paul-Valery, França)

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