Tão logo fora nomeado promotor da comarca de Itambé-Ba, no início dos anos 70 do século passado, o Dr. Heitor (pai de Heitorzinho, meu colega do Maternal e Alfabetização) revelou o seu lado autoritário e arrogante que antes disfarçava tão bem. Assumiu o cargo já extrapolando as suas prerrogativas e dando pitacos na vida pública, em todas as esferas onde soubesse haver alguma irregularidade. No primeiro caso efetivo em que fora acionado, acusar um suspeito de arrombar um armazém do mascate João Rucas e afanar o dinheiro na caixa registradora, não titubeou em considerar prova suficiente o fato deste acusado ter sido flagrado, na porta de sua casa, portando um grande alicate, o mesmo, segundo o delegado Claudionor ferraz, capaz de estourar os grossos cadeados na porta dos fundos do armazém. O acusado em questão era um índio aculturado, conhecido como Boy, dono de um bar próximo ao estádio de Futebol Osório Ferraz e um dos pioneiros do consumo de maconha na cidade - ele, Geraldo Charles e o ourives Elisabar. O alicate, segundo Boy, pertencia ao eletricista da Coelba, de Nome Raimundo, que lhe pedira para amolar a sua ferramenta de trabalho, mas Raimundo, em depoimento, negou este fato e, a suposta mentira do acusado fez recair sobre a simples contingência de portar uma ferramenta capaz, em tese, de arrombar um cadeado, a materialidade cabal e incriminatória (sobre a probabilidade do pobre indígena ser vítima de preconceito racial e discriminação pelo uso inveterado de maconha, não podemos afirmar, considerando o tempo já transcorrido, mas é muito provável, inclusive na hipótese de que o eletricista estivesse mentindo com esta finalidade persecutória). Na audiência onde seria lida a sua sentença, no Fórum Municipal, e por conta da vida ociosa da sociedade agrária cuja única ocupação era ver o gado pastar e engordar nas fazendas, muitos curiosos acompanhavam o caso. O índio, orgulhoso, não confessava o crime e o promotor Heitor o torturava com uma sibilina e venenosa peroração, questionando sua posse da ferramenta e a falta de uma explicação convincente para tal, subtendendo que, das quatro causas pressupostas para um crime, a saber, a material, a formal, a eficiente e a final, bastava uma para tal crime ser perpetrado. A causa eficiente, a ferramenta para tal, era razão suficiente para lhe incriminar. Depois de muito ouvir e conseguir entender o tirocínio empolado do promotor falastrão, o índio Boy rompeu o silêncio e declarou com convicção, impressionando a todos na sala com o seu gingado pelo espaço entre o escrivão, a cadeira do promotor e a audiência apertada em um canto do salão:
_ Pelo que pude entender, Excelência, o fato de eu estar em posse desse grande alicate é prova mais do que suficiente de ter eu arrombado o armazém de João Rucas! Muito bem! Por coincidência, sabendo que o Delegado também anda investigando outro crime acontecido nesta cidade, o da jovem freira Mercedes, estuprada nos fundos do Educandário Cristo-Rei, gostaria de afirmar a todos que esqueçam o tarado Bamburrá, velho conhecido desta delegacia por crimes semelhantes, e prendam-me também por esse estupro!!!
Uma onda de estarrecimento varreu o público que ouviu esta confissão. Dr. Heitor, julgando ter colhido uma grande vitória por sua hábil argumentação ter dilacerado as manhas de um bandido contumaz, fazendo-lhe entregar mais do que pediam, ergueu-se inflado de empáfia e comentou:
_ Então o sr. confessa que, além de arrombar o armazém, também teve a coragem de estuprar a pobre irmã Mercedes, além de freira, uma menor de idade, pois que nem 17 anos completos ela possui? É isso mesmo?
O índio Boy dirigiu-se ao público estarrecido e arrematou:
_ O senhor não disse, ao me acusar, de que basta a posse das ferramentas para que se tenha praticado um crime de arrombamento? Pois então... - E segurando com as duas mãos a sua genitália, mostrando ao Dr. Heitor, ao escrivão e a todos do ambiente o volume obsceno e monstruoso de sua "mala", concluiu ... - A FERRAMENTA PARA ESTUPRAR EU TENHO! A MENOS QUE O SR. MANDE ME CAPAR, ESSA FERRAMENTA ESTARÁ SEMPRE COMIGO!
O SR, ME RESPEITE E ME LIBERE QUE EU TENHO MAIS O QUE FAZER! E orgulhoso, com os brios inflamados de indignação, saiu resoluto, de cabeça erguida, em direção à porta sem que ninguém ousasse lhe impedir. Desabado em suas próprias ilações, como um coveiro que cavasse uma cova tão funda de onde não pudesse subir, Dr, Heitor perdeu preciosos segundos para replicar e, com isso, a possibilidade de fazer valer sua autoridade, manchada pela escabrosa abdução da lógica e do bom senso. Nessa mesma noite, Boy celebrou sua performance como se promovido fosse a cacique da tribo dos maconheiros de Itambé, e nos fundos do seu bar "Toca da Paca" o fumo rolou pesado até as quatro da madrugada!


0 comentários :
Postar um comentário