A Maria Sanguinária de Madagascar
Se o governo dessa mulher durar muito mais, Madagascar vai ficar despovoada... Sangue — sempre sangue — é a máxima da rainha Ranavalona, e o dia em que essa mulher perversa não assina ao menos meia dúzia de sentenças de morte parece um dia perdido.
A sudeste da África fica Madagascar, ilha de uma beleza maravilhosa. Foi chamada originariamente de São Lourenço pelos exploradores portugueses que partiram de Lisboa com a intenção de chegar ao oceano Índico, estabelecendo uma nova rota das especiarias, no dia 2 de março de 1500. A frota de treze navios era comandada por Pedro Álvares Cabral mas, em 10 de agosto de 1500, uma tempestade separou um deles, comandado por Diogo Dias. Em busca de um lugar onde pudesse atracar até o mau tempo passar, Dias avistou uma extensão de terra que até então não constava dos mapas. Na verdade, os primeiros seres de duas pernas que pisaram o solo de Madagascar tinham chegado muitos milênios antes, provavelmente oriundos de países tão diferentes quanto Índia, Java, Arábia e África. Mas, de acordo com o costume dos exploradores, os portugueses concluíram que haviam descoberto a ilha e voltaram imediatamente à Europa para dar a boa nova. De repente, a França, a Inglaterra e a Holanda reivindicavam o que todos concordavam ser uma propriedade magnífica. A ilha era descrita como um "paraíso na terra", cheia como era de criaturas tão diversas quanto lêmures, morcegos que se alimentam de frutas, camaleões, rãs douradas e couas. Madagascar também foi abençoada com vastas extensões de florestas tropicais e ricas terras cultiváveis. Portanto, não é de surpreender que as tribos locais tenham tentado repelir os europeus invasores, e mais uma vez a Europa conseguiu consolidar ali uma base. Em 1642, o cardeal Richelieu ordenou que Madagascar fosse reclamada pelos franceses e, com essa finalidade, construiu um posto avançado em Fort Dauphin, no sudeste da ilha. A expedição militar foi batizada de Compagnie de l'Orient e sua principal função era explorar a ilha. Várias missões católicas também se estabeleceram em Fort Dauphin, mas os missionários foram mortos, e os franceses fizeram poucos progressos perante os nativos. A maior parte do sucesso das colônias estrangeiras no país deveu-se ao rei Andrianampoinimerina (Nampoina). Em 1794 Madagascar e sua população nativa já estavam fartas de guerras e, num esforço monumental de diplomacia, Andrianampoinimerina convocou todas as tribos que pôde e uniu-as para formar um único reino, o reino de Merina, situado no planalto central da ilha. Além disso, ele deu a todos os súditos um pedaço de terra para cultivar, assegurando assim que ninguém ficaria sem alimento. Em 1817, o filho de Andrianampoinimerina, o rei Radama I, seguindo os passos do pai, também estabeleceu relações cordiais com várias das principais potências europeias e, em 1818, tinha até começado a permitir a entrada de missionários ingleses no país. Ele não sabia, mas esses missionários consideravam o povo pouco mais que selvagens que viviam na mais absoluta pobreza; Radama, embora fosse um monarca hábil e liberal, estava ansioso por modernizar o país. Por causa disso, passou a depender muito dos ingleses para tornar suas forças armadas à altura deles. Também queria estender as reformas ao campo social e político, e assim organizou um parlamento e incentivou as visitas da Sociedade Missionária Protestante de acordo com parâmetros ocidentais.
Rainha Ranavalona I - Inicialmente, vieram dois missionários galeses — os reverendos David Jones e Thomas Bevan —, que chegaram da Grã-Bretanha via ilhas Maurício, trazendo esposas e filhos. Desembarcaram em Toamasina, na costa leste de Madagascar, no mês de outubro, a época mais quente do ano, quando as tempestades tropicais varrem o litoral. Foi um começo pouco auspicioso, e, um a um, os integrantes do pequeno grupo foram atingidos pelo que então era chamado de "febre litorânea", que atualmente conhecemos como malária. Naqueles tempos não se conhecia cura para essa doença e, num período de dois meses, todos morreram, exceto o reverendo Jones, que logo bateu em retirada para as ilhas Maurício, sem ter pregado uma única palavra do Evangelho. Mas Jones não era o tipo de pessoa que se deixava derrotar facilmente; assim que recuperou as forças, escreveu para a Sociedade Missionária de Londres, pedindo-lhe que enviasse novos missionários a fim de reiniciar o programa. Em abril de 1820 (época mais fresca e de temperatura mais amena), o novo grupo partiu para a ilha e de forma lenta, mas segura, avançou até a capital. Depois de quinze dias de luta com as florestas tropicais, finalmente chegaram e logo foram recebidos pelo rei Radama I, que sancionou o pedido de fundar uma escola para ensinar não só o Evangelho, mas também a ler e a escrever. Era uma ideia revolucionária, pois o povo de Madagascar não tinha nenhuma forma escrita de linguagem, o que significou que David Jones teve grande trabalho para criá-la. Em 1825, a tarefa estava terminada e os missionários começaram a traduzir os Evangelhos, iniciando com o de São Lucas, para o malgaxe. Nessa empreitada, tiveram o apoio dos amigos da Inglaterra, que enviaram uma pequena prensa tipográfica e um grande suprimento de tinta e papel. Em meados da década de 1820, David Jones tinha traduzido e impresso todo o Novo Testamento; embora se tratasse de uma façanha formidável, não era nada em comparação com tentar ensinar aos nativos o conceito filosófico de palavras como "pecado" e "salvação". A despeito disso, os missionários trabalharam arduamente e alcançaram certo êxito. Continuaram traduzindo o resto da Bíblia e finalmente produziram uma edição completa que encaparam orgulhosamente com couro e distribuíram a todo homem, mulher ou criança de Madagascar. Infelizmente, a harmonia entre o nativo e o estrangeiro não duraria muito. O rei Radama I perdia as forças e, em 1828, depois de uma longa doença, morreu aos 36 anos. Radama e sua mulher, a rainha Ranavalona, não tinham filhos e, por isso, um sobrinho, um menino chamado Rakotobe, era o próximo da linha hierárquica. Prevendo uma luta amarga pela sucessão, vários ministros do governo esconderam a notícia da morte do rei Radama, com a esperança de que isso possibilitasse a Rakotobe ascender ao trono antes que os adversários políticos se dessem conta do sucedido. Mas quanto tempo é possível esconder de uma mulher a morte do marido? Menos de vinte e quatro horas depois da morte de Radama, um jovem oficial do exército chamado Andriamihaja deu a notícia da morte do rei a Ranavalona, que, por sua vez, logo começou a espalhar o boato de que "os ídolos" que todo o povo de Madagascar procurava em busca de conselhos sugeriam que ela subisse ao trono em lugar de Rakotobe. Assim que essa notícia falsa começou a circular, Rakotobe e seus seguidores foram brutalmente assassinados — o que levou um comentador do século XIX a descrever a nova monarca como "muito disposta a apelar para o assassinato para chegar ao trono".
Depois da matança, Andriamihaja foi elevado a comandante-chefe do exército como recompensa pelos "serviços". Conquistou também o título de amante oficial da rainha, embora nenhum dos dois papéis fosse durar muito tempo, sendo depois acusado de traição e executado.
Ranavalona nasceu entre 1782 e 1790 na tribo dos menabes, cujo chefe governava a parte ocidental da ilha; apesar de todos os esforços de Andrianampoinimerina e de Radama I para unir as diversas facções de Madagascar, a ilha continuava dividida em quatro reinos: o reino de Merina, no planalto central; o Betsileo, nos planaltos do sul; o império de Betsimisaraca; e o reino de Menabe. Não tendo conseguido unir esse último reino ao de Merina, Radama havia chegado à conclusão de que a melhor política era se casar com a filha mais velha de Andrian-Tsala-Manjaca e sua esposa Rabodo Andrian-Tampo. Durante os primeiros anos da união, não se ouviu nada de extraordinário a respeito de Ranavalona, apenas que tinha uma aparência imponente. Tome-se, por exemplo, a descrição que o romancista George MacDonald Fraser fez dela; dizem que esse autor, embora escrevesse ficção, baseou seu romance em várias histórias contemporâneas: "Ela podia ter qualquer idade entre quarenta e cinquenta, o rosto bem redondo, com um narizinho reto, sobrancelhas bem desenhadas e uma boca pequena, de lábios grossos; a pele era negra como azeviche e lisa — e aí você encontra os olhos e um súbito arrepio de medo o leva a perceber que tudo quanto ouviu era verdade, e os horrores que viu não precisam de mais nenhuma explicação. Eram pequenos, brilhantes e perversos como os de uma serpente, não piscavam, e tinham profundezas de crueldade e malevolência aterrorizantes".
Desde o início Ranavalona foi odiada e temida por todos quantos a conheciam. O British Quarterly descreveu-a como "o Diocleciano de nossos dias", referindo-se ao imperador romano que perseguiu os cristãos. Até hoje Ranavalona I é chamada de "Messalina moderna", "Maria Sanguinária de Madagascar" (referência a Maria Tudor, a Sanguinária, rainha da Inglaterra) ou "perversa rainha Ranavalona". Desconfiava de toda influência estrangeira, fosse ela inglesa, holandesa ou francesa. Também não era a única a ter essa postura, pois uma década antes Samuel Copland descrevera o povo de Madagascar como "os filhos de Abraão" que tinham sido corrompidos e explorados pelos europeus. Na verdade, Copland achava que os missionários, e por meio deles a própria Grã-Bretanha, tinham "maltratado, insultado e traído" o povo de Madagascar. Ranavalona pensava de forma muito parecida; no entanto, não obstante o ódio que nutria pelos estrangeiros, dizem que tolerava os missionários pelo fato de eles terem vários conhecimentos que ela gostaria de possuir. Era particularmente fascinada pela ideia do sabão e disse aos missionários que, se ensinassem o povo a fabricá-lo, poderiam ficar no país indefinidamente. A obsessão dela por materiais de limpeza deve ter nascido sem dúvida de um costume que ela adquiriu logo depois de subir ao trono. Ela costumava tomar banho em público, numa sacada que dava para a cidade. Nua, exceto pelo chapéu, aquilo de que mais gostava de fazer era ficar numa banheira sendo lavada pelos escravos diante de uma plateia de admiradores que ficava batendo palmas e dando vivas. Essa não era a única extravagância. A despeito do ódio que tinham dos franceses, Ranavalona colecionava pinturas da época napoleônica, com as quais decorava as paredes do palácio; as roupas dela costumavam ser uma mistura de estilos e tecidos (sendo o tafetá e o tartã, um tecido escocês xadrezado, os prediletos); também adorava dar festas. Todo ano, no aniversário de nascimento e da subida ao trono, os jardins do palácio eram decorados e todas as pessoas importantes da sociedade de Madagascar eram convidadas a participar da festança, em que enormes quantidades de álcool eram consumidas em brindes à rainha. Mas e o sabão e os missionários? Depois que Ranavalona mostrou interesse pelo primeiro, os missionários logo se puseram a elaborar uma boa receita, com a qual compraram mais alguns meses na ilha. Mas, depois que a receita secreta foi revelada, a aversão profunda que Ranavalona sentia pelos estrangeiros veio à tona. Além do sabão, ela não via nenhum benefício no que os missionários trouxeram e achava a religião deles particularmente repulsiva. Os cristãos tinham uma atitude muito hostil aos costumes e crenças antigos dos nativos, e assim, com o apoio do primeiro-ministro Rainiharo (que, diziam, tinha conquistado a posição no governo dormindo com a rainha), Ranavalona começou lentamente a implementar editos que proibiam batismos, comunhões, ritos cristãos de casamento e culto público. Finalmente, em julho de 1836, convocou o povo a ir à capital, Antananarivo (que pode significar tanto "Cidade das Mil Aldeias" quanto "Cidade dos Mil Soldados"), onde ela faria uma declaração. Todas as estradas que levavam a Antananarivo ficaram apinhadas de gente. Homens, mulheres e crianças caminharam por dias para chegar à capital a tempo de ouvir o que a rainha tinha para dizer. Não ficaram decepcionados. Na hora marcada, uma procissão de soldados carregando longas lanças de prata abriu caminho do palácio, que ficava numa encosta, seguidos por um grupo de escravos que carregavam um estrado, sobre o qual estava a rainha Ranavalona vestida da cabeça aos pés de vermelho-vivo. Foi um espetáculo impressionante, mais ainda pelo número de pessoas que se prostravam no chão à passagem da rainha. Por fim, o cortejo chegou ao jardim real de Andahalo, de onde, numa plataforma, cercada de guardas armados, a rainha começou o discurso:
"Chegou ao meu conhecimento que a Bíblia é uma perversão. Ela fala de um novo rei, chamado Deus, e sobre seu primeiro-ministro, Jesus Cristo, seu filho. Eles tentam persuadir meus súditos a se tornarem parte do Reino do Céu, e a rezar para seu Rei, Deus, e pedir-lhe favores. Agora vocês sabem que só existe um reino aqui — o reino de nossos ancestrais Randrianamasinavalona, Randrianampoinimerina, Radama e eu! De agora em diante, não quero que esse reino seja dividido. Não quero saber desse Reino do Céu, não quero saber desse Deus governando-nos, não quero saber de Jesus Cristo nenhum! Esses são os governantes dos brancos que vieram do outro lado do mar; não quero que meu povo seja enganado por eles. Sei que alguns membros do meu povo foram levados para o mau caminho; acho que não sabiam o que estavam fazendo, mas deixaram esses homens maus dominá-los. Por isso estou disposta a perdoar-lhes se eles confessarem sua corrupção e voltarem à crença em nossos ídolos, encantamentos e montanhas sagradas de antigamente. A partir de hoje, é um crime que pode ser punido com a morte e com o confisco de propriedades: rezar, possuir Bíblias ou hinários, fazer reuniões de culto a Deus ou Jesus Cristo, ou ensinar os outros a ler."
Privados do direito de praticar a religião deles, os missionários concluíram que a melhor saída seria deixar Antananarivo. E viajaram para a costa leste da ilha, para Tamatave, não sem deixar um grupo de aproximadamente cinquenta militantes cristãos para cuidar da escola e das igrejas. Com o passar do tempo o grupo aumentou, e contava já mais de duzentos membros. Com instruções rigorosas para acompanhar a situação diariamente para que pudessem fugir se as coisas piorassem, os cristãos enviaram inúmeras cartas aos irmãos e irmãs de fé que estavam em Tamatave. Nessas cartas eles falavam da leitura do tratado alegórico de John Bunyan, A viagem do peregrino, com a qual ganhavam uma força imensa. Também viam a situação deles refletida nas tribulações pelas quais passa a personagem principal, Christian. Christian, como todos os que conhecem esse livro sabem, sofreu uma perseguição implacável por causa de sua fé e teve de lutar a cada passo do caminho que leva à salvação. Lutou com vários inimigos, entre os quais o gigante Desespero, a Preguiça e a Vaidade, além de atravessar o brejo do Desânimo e o vale da Sombra da Morte. Não é de admirar que os missionários tenham achado esse livro tão inspirador! Mas, infelizmente, em contraste com o sucesso dos cristãos em alcançar a Cidade Celestial, grande número de missionários teve menos sorte. No início da década de 1840, um grupo de trinta e sete cristãos foi considerado culpado de ter pregado a palavra de Deus para uma comunidade e, junto com as esposas e os filhos, foram condenados a uma vida de escravidão. Mais tarde, quarenta e dois cristãos foram acusados de portar uma Bíblia e, embora tivessem escapado à pena de morte, tiveram confiscados todos os bens terrenos e também foram lançados na escravidão. Foram tempos difíceis, que iriam ficar piores. No dia 7 de julho de 1857, a rainha Ranavalona ordenou o exílio de todos os europeus da ilha, deixando Madagascar isolada do resto do mundo. Furiosa com o fato de a pena de morte não estar sendo aplicada para crimes que considerava mais graves que o assassinato, Ranavalona determinava que, a partir daquela data, qualquer pessoa que fosse surpreendida pregando a doutrina cristã ou de posse de uma Bíblia fosse executada imediatamente, o que mostrou um fanatismo semelhante (ou pior) que o dos imperadores Calígula e Nero, que executaram milhares de cristãos em seus reinados. Assim, os soldados começaram a espionar os suspeitos de serem convertidos. Longas listas de transgressores passaram a circular entre os funcionários do governo. Mas ainda havia formas de ler a Bíblia, e os engenhosos malgaxes prontamente descobriram que, dividindo-a em pequenos livros, seria mais fácil esconder os textos bíblicos no telhado das casas, em poços e vários outros lugares. Uma jovem chamada Mary Rasalama foi uma das pessoas que apelaram para os subterfúgios em vez de renegar a fé. Do lado de fora da casa dela havia um grande poço usado para estocagem de cereais, que ela, escavando as paredes, fez que dobrasse de tamanho. Depois cobriu a boca do poço com uma pedra enorme e, por cima dela, pôs folhas, galhos e lixo como camuflagem. Em noites de chuva ou ventania, Rasalama e seus amigos reuniam-se no poço, onde cantavam e rezavam ao Senhor. Não era o ideal, mas ao menos as pessoas podiam se reunir. Infelizmente, logo os vizinhos perceberam o artifício e denunciaram as atividades de Rasalama às autoridades. Rasalama foi presa. Embora tenha tido a oportunidade de abjurar a fé, recusou-se a admitir o erro. Em agosto de 1838 ela foi levada a um campo deserto, onde recebeu ordens de se ajoelhar. Os guardas permitiram-lhe rezar, e ela começou a dizer: "Senhor Jesus, em Suas mãos entrego o meu espírito". Antes de dizer mais uma única palavra, os soldados enterraram as lanças nas costas dela. Quando ela finalmente morreu, o corpo foi atirado aos cães. Foi um acontecimento inglório, que se repetiria de diversas formas nos anos seguintes. Imediatamente depois que Ranavalona declarou que todo missionário ou convertido surpreendido lendo a Bíblia seria executado, um grande número de homens foi condenado a morrer atirando-se de penhascos, queimados na fogueira, decapitados, queimados num caldeirão de água fervente ou, em certos casos, obrigados a tomar veneno. Uma descrição particularmente sinistra da "morte num caldeirão de água fervente" aparece no romance Flashman's Lady, em que o autor descreve a tortura com detalhes. Nas encostas de montanhas íngremes eram abertas covas fundas, onde os condenados à morte ficavam de pé com as mãos amarradas nas costas, presos a longas estacas. Na extremidade de cada cova acendia-se uma fogueira, sobre a qual pendia um imenso caldeirão de água. Quando a água fervia, os guardas viravam lentamente o caldeirão de modo que o líquido fervente escorresse por canaletas escavadas no fundo da cova, de onde subia um vapor quente. "Quando o ar ficou claro, eu vi, para meu horror, que [a água] só chegava até a cintura — as vítimas eram fervidas vivas, centímetro a centímetro." E o espetáculo era visto por inúmeros nativos que ficavam de pé no alto da montanha, zombando e vociferando contra as vítimas. Outro método de execução, igualmente repulsivo, consistia em amarrar várias vítimas juntas pelo pescoço a uma pesada roda de ferro e soltar os infelizes em regiões ermas, onde morreriam de fome ou quebrariam o pescoço uns dos outros na tentativa de se libertarem. Nenhuma tortura era considerada horrível ou desumana. Ranavalona era uma sádica com todo o povo de um reino, mas eram os cristãos que despertavam a fúria da rainha. Em março de 1849, por exemplo, foi registrada a seguinte conversa entre um grupo de cristãos que tinha sido preso e o encarregado de fazer o interrogatório, responsável pelo julgamento:
— Vocês prestam culto ao sol, à lua ou à terra? — perguntou o funcionário, e um dos acusados respondeu:
— Não rezo para eles, pois foi a mão de Deus que os criou.
— Vocês prestam culto às doze montanhas sagradas?
— Não lhes presto culto, pois são apenas montanhas.
— Vocês rezam para os ídolos que presidem a consagração dos reis?
— Não rezo para eles, porque foi a mão do homem que os criou.
— Vocês rezam para os ancestrais dos governantes?
— Reis e governantes nos são dados por Deus para lhes obedecermos e lhes prestarmos homenagens, mas são apenas seres humanos como nós. Quando rezamos, é somente a Deus que nos dirigimos.
— Vocês distinguem outros dias e observam o sabá?
— É o dia do grande Deus, pois em seis dias o Senhor realizou todas as Suas obras, depois descansou no sétimo dia e tornou esse dia santo. É por isso que descansamos e consideramos esse dia santo.
Um a um, os acusados responderam da mesma forma, até todo o grupo, de aproximadamente vinte e cinco homens e mulheres, ser considerado culpado e condenado à morte na fogueira, ou lançado do alto do Amapamarinana até o pescoço se quebrar ou ser chicoteado até o coração sair do peito, e todos morrerem. Os prisioneiros foram então amarrados com um dos pés e uma das mãos e ficaram encarcerados até a hora da execução. Não tiveram de esperar muito. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, os condenados foram levados para Analakeli, onde um grupo de soldados se juntou a eles, assim como os juízes que os haviam julgado. O nome de todos os prisioneiros foi lido em voz alta e eles ouviram o castigo de cada um deles. Em seguida os condenados foram divididos em grupos, e dizem que aqueles que estavam prestes a ser queimados até virar cinza começaram a cantar o hino 137 do hinário malgaxe:
Quando eu morrer, quando eu deixar meus amigos,
Quando esses amigos chorarem minha morte,
Quando minha vida me tiver deixado,
Aí então serei verdadeiramente feliz.
Como seria de esperar, o canto não melhorou a sorte dos cristãos, pois enfureceu os soldados e juízes a tal ponto que, quando os condenados lhes pediram que fossem mortos antes de os corpos serem queimados, a súplica foi ignorada. A rainha Ranavalona insistiu em que os prisioneiros fossem queimados vivos. Quanto àqueles cujos corpos seriam lançados de penhascos, foram amarrados pelas mãos e pés a longos postes que os soldados punham nos ombros para levá-los até o local da execução. No caminho, os prisioneiros falavam com os transeuntes, e, segundo um relato, "aqueles que punham os olhos nos condenados disseram que o rosto deles era como o dos anjos". Nada poderia salvá-los, e, carregados como galinhas, foram levados para o topo do Amapamarinana e lançados da beira do precipício para a morte inexorável. Depois os cadáveres feridos e despedaçados eram arrastados para o outro lado da capital e colocados sobre as mesmas piras em que deveriam morrer os condenados à fogueira. Foi uma visão horripilante, e o cheiro de carne queimada e os gritos dos moribundos eram o suficiente para gelar o sangue até do mais forte dos homens. Apesar disso, como no caso daqueles que foram lançados do alto da montanha, dizem que os que foram queimados vivos cantaram hinos durante toda a provação e morreram em paz. Houve outros massacres de inocentes com o passar dos anos, mas para todo convertido que era executado ou banido da ilha surgiam dois em seu lugar. As Bíblias, que eram raras, passavam sub-repticiamente de uma família a outra, reuniões secretas para fazer orações eram feitas todo sábado e as crianças eram batizadas a portas fechadas. Por mais ameaças que Ranavalona fizesse, nada conseguia impedir a comunidade cristã de crescer nem, como vemos no trecho a seguir, de fortalecer cada vez mais as suas raízes.
"A vida cristã é mantida por reuniões secretas para oração e leitura das Escrituras, e, sempre que possível, existem aqueles que mesmo agora se reúnem em lugares secretos para realizar o ritual pelo qual os discípulos do Senhor Jesus relembram a Sua morte até Ele voltar."
Talvez uma soberana mais inteligente, ao notar que sua política não estava produzindo o efeito desejado, tivesse revisto os planos, mas Ranavalona não fez nada, o que levou a maioria dos historiadores a supor que ela gostava da tortura pela tortura, ou então era louca varrida. Essa última teoria é tentadora — há muita evidência que comprova que ela tinha a mente desequilibrada — e a despeito disso, durante todo o reinado, ela conseguiu evitar ser assassinada ou derrubada do trono, o que, por si só, mostra que ela tinha certo grau de inteligência. Mesmo assim, ninguém vive para sempre, e, em 1863, depois de quase trinta e cinco anos de mau governo e perseguições, a rainha Ranavalona I caiu doente e morreu. Não era odiada só em Madagascar, mas também na Inglaterra e na França, pois havia exilado ou executado cidadãos de ambos os países. Radama II, também conhecido como Rakoto, fruto de uma das relações amorosas ilícitas da rainha, sucedeu-lhe no trono. Em termos gerais, foi um governante progressista que aboliu a escravidão e implementou uma lei de "liberdade religiosa", mas, infelizmente, foi assassinado três anos depois. Rasoherina, viúva de Rakoto, sucedeu-lhe, mas seu reinado também teve vida curta. Finalmente, em 1869, a rainha Ranavalona II foi coroada e subiu ao trono. Dizem que se converteu ao cristianismo durante a cerimônia da coroação, e permitiu novamente a atividade dos missionários na ilha. A despeito dessa reviravolta, os mártires de Madagascar nunca foram esquecidos e, como que para reforçar essa ideia, fotografias aéreas recentes revelaram que "a 10 mil metros de altitude, no avião que leva você da Europa para Madagascar, bem antes de avistar as praias, de repente você fica intrigado com uma imensa mancha vermelha que se destaca nitidamente contra a água azul de Moçambique, sem se misturar com ela [...] Essa água vermelha, que jorra de toda parte como uma hemorragia fatal cuja força empurra as ondas do mar para além do horizonte, é o sangue da terra".
Será o sangue dos mártires? Certamente, ele parece falar da morte deles.
Referências: AS MULHERES MAIS PERVERSAS DA HISTÓRIA - Shelley Klein
[1] LAST TRAVELS, IDA PFEIFFER.
[2] In: Flashman's Lady, de George MacDonald Fraser, Barrie & Jenkins, 1977.
[3] In: A History of the Island of Madagascar, de Samuel Copland, R. Clay for Burton & Smith, 1822.
[4] In: Friends in Madagascar, de James H. Fisher, Society of Friends, 1940.
[5] In: George MacDonald Fraser, op. cit.
[6] In: The Book of Martyrs, de Chenu Bruno "e outros", SCM Press, 1990.
[7] Anônimo.
[8] In: New Englander and Yale Review, agosto de 1859.
[9] In: Madagascar: mon île-au-bout-du-monde, de Jacques Hannebique, Laval (França), Siloé, 1987.
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