Meus olhos, que passaram todo o entardecer
olhando a dança das andorinhas na copa das Palmeiras imperiais, demoraram a se
acostumar ao entrar na penumbra da sala onde o Delegado Crispim Douglas
Corcoran interrogava Ronivaldo, o suposto assassino do pai-de-santo Zé Gobira.
Sentei ao lado do catre com meu bloco de notas pronto para a primeira
instrução. Ronivaldo parecia dormir, mas o brilho de seus olhos felinos
chispava por entre as pálpebras semicerradas. Dando voltas pela cela apertada,
Crispim rodeava por lá, por cá... Até encontrar o tom exato do argumento:
_ Seu
Roni! Posso lhe chamar assim?
_ ........
_ Seu
Roni! Nós estamos procurando um homem cuja descrição é muito parecida com a
sua, mas esse cabra tem um defeito que talvez o senhor não tenha! Não sendo o
senhor a pessoa procurada, nós lhe soltamos e nem lhe cobraremos os pratos de
feijão da Durvalina que o prefeito está lhe pagando!!! Esse cabra é um monstro
e um retardado mental, burro como uma cancela! Eu irei lhe propor uma charada,
facinha, facinha, facinha! Esse idiota que procuramos não seria capaz de
resolver e, o senhor resolvendo a charada, provado fica que não pode ser o
homem que procuramos. Posso começar?
_ .....
_ Muito
bem! Tome nota, Cassiano! Vamos imaginar que estamos no velório de um
pai-de-família. A viúva chorando, os filhos e netos. A filha caçula também está
presente, inconsolável e aos prantos. Muita gente da cidade, amigos, conhecidos
e até forasteiros estão por lá esperando um pratinho de biscoitos ou uma
talagada de licor. Um rapaz muito distinto circula pelo salão e contempla a
filha do falecido. De imediato, ela percebe a sua presença e diminui o ritmo
dos soluços. A partir desse momento, não param mais de se fitarem, com
interesse freqüente, quase um flerte de amor, não fosse o amor tão inimigo da
morte para andar frequentando velórios! Do salão passam pela igreja em cortejo,
em direção ao cemitério. Próximo da cova, a viúva desmaia, enquanto maçons e
políticos se revezam em discursos e recomendações a bela alma! Uma chuva fina
abrevia as exéquias e dispersa a dor pelas ruas descalças da cidade. A órfã e o
desconhecido se separam sem terem sequer trocado uma palavra. Ninguém sabe quem
era o rapaz, seu nome nem de onde tinha vindo. Os dias passam sem alívio para a
dor da moça, até ela perceber, cinco dias depois, que o que ela estava sentindo
não era mais a dor do luto, que uma camada mais profunda da sua alma estava
ferida pela lembrança do desconhecido. Era por isso que o apetite não voltava,
o sono se perdeu e a paz havia se enterrado naquela cova, no cemitério. Sem
conseguir alívio para a sua angústia, uma semana após o enterro do pai, ela, a
órfã, matou com facadas a sua tia paterna, que havia lhe criado como se sua mãe
fosse.
Recordo-me
até hoje da dramaticidade emprestada por Crispim ao causo narrado, e do uso
especioso das palavras para que dúvidas não pairassem.
_ Muito
bem, Seu Roni! Agora é contigo. Quero que o senhor pense cinco minutinhos nessa
história e me diga, em sua opinião, se é possível encontrar algum motivo para a
loucura dessa moça. Que motivo poderia existir para ela esfaquear a mulher que
ocupava o lugar da sua mãe em seu coração! Vou tomar um café e voltarei e cinco
minutos para ouvir sua opinião. Quer o seu com leite ou puro?
_ ...............
Saímos em
direção ao Príncipe Lanches e pedimos dois cafés expressos, a novidade
espumante da época. Nem preciso dizer que estava ardendo de curiosidade para
saber quais os planos de Crispim. E o melhor a fazer era não perguntar nada,
deixando-o falar como se dialogasse com a própria alma. Não deu outra:
_ Quer
saber a curiosa história desse rapaz, o Ronivaldo? – E sem que eu ousasse dizer
nada que o desviasse do relato – Garimpeiro lá das bandas do Pará, foi roubado
pelo sócio, Vadito Barreto, que levou-lhe também, junto ao quilo de ouro
amealhado, Erbene, sua esposa. Fugiram de madrugada. Ronivaldo quis morrer mas
logo descobriu as delícias prometidas pela vingança, e fez dela um motivo para
viver. Trabalhou mais dez anos no garimpo até a sorte decidir o dia da sua
partida na forma de uma pepita de quase dois quilos. Os dois traíras, Vadito e
Erbene, chegaram a Itambé e se apaixonaram pelo seus verdes vales e montanhas
azuladas. Fincaram pé por aqui, vivendo do ouro roubado que raspavam aos
tiquinhos, enquanto faziam outras artes à medida que criavam camaradagem com o
povo da cidade. Erbene morreu cedo, como gosta de morrer toda mulher bonita,
enquanto Vadito, se dando bem com o clima, engordou e criou raízes. Como se
pressentisse a chegada do vingador, quinze dias antes de Ronivaldo descer do
Ônibus com u’a mala amarela cheio de ferros e ouro, Vadito Barreto morreu
dormindo, sabe-se lá sonhando com quê. Para Ronivaldo, aquilo foi uma desfeita
maior do que a traição primeira, pois, perpetrada pelas mãos invisíveis do
destino, quem poderia lhe vingar desta nova “crocodilagem”? Em sua mente
conturbada pelo ódio, não caberia a hipótese de tão singular desfecho lhe ter
sido algo auspicioso, libertando-lhe da estúpida vingança. Ronivaldo alugou a
casa do seu ex-amigo morto e passou a viver ali, remoendo o que fazer,
imaginando a felicidade roubada e desfrutada naquelas paredes pelos dois
miseráveis. A princípio, pensava em ir ao cemitério local, roubar os corpos dos
dois amantes traiçoeiros, moer todos os ossos e jogá-los aos cães. Mas era
pouco. Um dia teve a ideia de consultar um mediúnico vigarista da cidade,
sacerdote de tudo que fosse seita e aleivosia, o pai-de-santo Zé Gobira. Todo
vestido de preto e cheio de ferros na cintura, Ronivaldo foi visto por uma
testemunha na estradinha que levava à residência do finado e que era também
centro e salão dos seus rituais e feitiçarias. A testemunha, idosa e surda, não
ouviu o tiro, mas o certo é que dias depois, dando por falta do macumbeiro,
seus amigos encontraram o corpo crivado de balas e agarrado à uma imagem de São
leocádio, no meio da sala! POR QUE, CARGAS D’ÁGUA, ELE DEU DE ATIRAR EM UM
PAI-DE-SANTO?
Crispim me perguntou quase gritando e me
causando um susto medonho. É óbvio que eu jamais poderia deduzir o que estava
por trás da sua narrativa, mas tive a perspicácia suficiente para perceber um
elo profundo entre essa história e o enigma por ele proposto ao preso, o da
moça que mata a tia paterna logo após conhecer um rapaz no velório do pai dela!
Bebi o resto do café em silêncio, sem ousar interromper suas elucubrações
cavilosas. Ele prosseguiu agora quase sussurrando:
_ Sabe o
que o Ronivaldo fora fazer na casa do Zé Gobira? É fácil imaginar ele sentado
na mesa e pedindo que Zé Gobira recebesse o espírito do Vadito Barreto. Queria
lhe dizer umas palavras, desopilar os anos de mágoa ruminada! Zé Gobira de
pronto atendeu, acertou o preço e começou a enrolar a língua e a invocar a alma
ainda quente do morto Vadito Barreto. Vadito apareceu. Contou coisas que só ele
e o ex-amigo sabiam, confirmando assim ser mesmo o espírito do além. O problema
é que o espírito do Vadito não demonstrou nenhum arrependimento, nenhuma
consternação. Pelo contrário, não apenas zombava da ingenuidade do parceiro ao
confiar tanto nele, como deu pra fazer alusões de como a Erbene era gostosa, de
como ela gemia na cama e considerando ele, Vadito, incomparavelmente melhor em
todos os sentidos. Foi numa dessas zombarias de uma alma condenada no inferno
que Ronivaldo perdeu as estribeiras, puxou o tresoitão da cintura e encheu de
chumbo o pobre do Zé-Gobira, matando o médium, o espírito nele encarnado e qualquer
outro encosto que ali estivesse de carona!
Toda a
questão é: só um psicopata seria capaz de um gesto destes, matar alguém por um
motivo tão fútil, que é a suposição de estar sendo zombado pelo espírito de um
morto, através de um médium, e matar esse médium para ferir o espírito que, em
tese, já bateu há muito a caçoleta! Uma pessoa normal não faria isso! Será que
temos em nossas mãos um psicopata?
_ Por isso
é que você lhe fez aquela charada há pouco? – Ousei perguntar.
_
Exatamente!
_Mas não
entendi o que tem a ver um caso com o outro!
_ É
simples. Você faz idéia de qual motivo levaria a moça a matar a tia paterna?
Pense!
_ Pensei
no caminho até aqui. Não faço a menor ideia.
_Bom para
você! E explico o porquê de ser bom você não o saber: ELA MATOU A TIA PATERNA
PARA QUE HOUVESSE UM NOVO ENTERRO NA FAMÍLIA E ELA PUDESSE REVER O RAPAZ POR
QUEM SE APAIXONARA!
_ Cacilda!
– Deixei escapar um grito. – Que mulher louca, que motivo fútil para matar a
tia que lhe era uma segunda mãe!!
_ O
detalhe que explica tudo é que, raramente uma pessoa normal pode chegar a essa
conclusão, de tão improvável! Mas pense... Uma mente psicopata não teria
dificuldade nenhuma em supor essa hipótese, pois o que define um psicopata é
que para eles o ser humano nunca é um fim em si mesmo, visto que o humano neles
é destruído. O ser humano é sempre um meio para seus sinistros fins! Vamos
voltar à delegacia,. Se o Ronivaldo matou a charada, isso não será uma
confissão, mas o indício suficiente de ser ele um assassino demente, e mais
fácil será lhe extrair uma confissão. Você sabe como é difícil fazer um preso
cantar sem ter muita certeza...
Crispim
falava como um psicopata. Eu estava muito aliviado de não ter resolvido o
enigma da moça e, assim, não ser um louco em potencial. Pouco me importava
nessa hora se Crispim o fosse. Mal chegamos à delegacia e o Ronivaldo gritou do
fundo do corredor onde ficam as gaiolas:
_ Não
tivesse demorado, seu Delegado e já teria ouvido a resposta da sua charada. A
MOÇA MATOU A TIA PATERNA PARA QUE TIVESSE OUTRO ENTERRO NA FAMÍLIA E ELA
PUDESSE ENCONTRAR O MOÇO NOVAMENTE! PODE ME SOLTAR QUE EU NÃO SOU NENHUM
ABESTALHADO!
Crispim me
arrastou até a sua sala e trancou a porta. Estava excitadíssimo. Apanhou uma
tranca de madeira escura usada para escorar a janela da sala e, eventualmente,
para suas técnicas inquisitoriais.
_ Agora é
comigo! Quero ver se esse cornin não confessa tudo em três sarrafadas! Ele é
doido mais tem juízo!
Atônito
com o desfecho e com as cenas que seguiriam, tive tempo ainda de perguntar:
_ Se não
teve testemunhas, Corcoran, como você sabe que ele tinha ido lá fazer uma
sessão espírita e depois fuzilado Zé Gobira?
Esperava
uma resposta óbvia, uma hipótese verossímil, ou uma brilhante dedução do Sherlock do Rio Pardo, como era conhecido o delegado Crispim; mas sua resposta me atordoou como um golpe de misericórdia:
_ Zé
Gobira, depois de morto, entrou em contato espiritual com outro médium,
Petrônio Santana e lhe fez psicografar toda a história. O Petrônio, muito
assustado, veio até aqui correndo e me entregou o papel com a letra do Zé
Gobira. Tá aí na gaveta. Pode ler. E, se duvidar, pode conferir no cartório!
Agora me dê licença que vou suar a camisa!
Vi Crispim
se afastar arrastando a tranca como um galo machucado que volta a rinha
arrastando uma asa quebrada. Lembrei de um filósofo alemão do bigodinho que
dizia: “A Violência caminha com pés de pomba!”, e não quis ficar para ouvir os
gritos do assassino sendo torturado. Voltei ao café para redigir as notas que
hoje reescrevo. Fiquei pensando se, por ser capaz de elaborar um artifício tão
engenhoso, não seria também a mente de Crispim, uma mente doente. Afinal, se
apenas uma mente doente poderia chegar à tal resposta, não seria preciso uma
mesma patologia para criar o problema? E você, caro leitor, se adivinhou antes
de ler o fútil motivo que levou a moça apaixonada a matar a tia, vai matar quem
hoje?
0 comentários :
Postar um comentário