terça-feira, 11 de agosto de 2026

FLORES MORTAS ou O Pequeno Detetive!

 







_Maldito! Ele prometeu voltar, mas não era dessa forma que eu queria, oh, Deus! Eu o amo tanto! - Zilda mais uma vez teve coragem de olhar pela janela. Com um cobertor nos ombros, Hugo, seu neto, limpava os óculos e bocejava, sonolento e cético.

_ Mamãe não quer que eu passe mais as férias contigo, vovó, vão lhe mandar para um asilo!

O rosto de Zilda, túrgido como um planeta velho, contraiu mais uma ruga, os cabelos brancos prateava-lhe a testa. 

_ Olhe! Olha para o jardim, querido!

_ É a terceira vez nessa semana que você me acorda e nada acontece! 

⁃ Sinto que hoje ele virá. Oh, espere, espere..

A lua morfética escondia-se atrás de nuvens negras. A escuridão apagava as ruínas, as marcas do tempo e a pequena cidade exalava o perfume de antigas eras. O calendário soltava suas folhas no leito da primavera quando eles se conheceram: Quasímodo, o jardineiro corcunda e Zilda, a emigrante mais bonita, a flor mais exótica daquela terra. No jardim agora abandonado, entre arbustos silvestres e ervas daninhas, algo de muito estranho se passava. As folhas agitavam-se, os galhos açoitavam o ar como chicotes irados, flores caiam e no centro do pequeno e espesso bosque, que em vizinhança os jardins abandonados formavam, um murmúrio saturnal se ouvia. Pequenos clarões e volutas de fogo espiralado faiscavam no ar, iluminando um rosto pálido na vidraça.

_ Meu Deus! Não há vento lá fora! (Não, pequeno Hugo, não há ventos lá fora. As roupas estão impávidas no varal, entre causa e efeito desataram-se os laços e é preciso que o teu cérebro, como uma aranha obstinada, refaça a teia com fios lógicos e racionais!).

 Quando Hugo desceu as escadas e abriu a porta, o fenômeno já havia cessado. A lua, neutra, voltara a brilhar, mas o garoto não se moveu. Um sentimento estranho e original lhe congelava os passos.

_ Fale-me sobre ele, vovó, o jardineiro...

_ Ah! Tanto tempo já se passou! Essas casas eram todas habitadas antes que a falência nos transformasse numa cidade fantasma. Um terreno comum unia todas as casas, um imenso quintal onde cultivávamos um grande jardim. Éramos, como a maioria dos estrangeiros, um povo sisudo e austero, com portas cerradas na fachada, mas por dentro, plenos de calor e do perfume de mil primaveras...

E ele, vovó, o corcunda...

_ A toupeira, era como o chamávamos. Outros lhe chamavam de Quasímodo, uma alusão ao corcunda de Notre Dame. Ele já vivia aqui quando chegamos, morava no ponto extremo do quarteirão, numa casa de pedra bem afastada, mas ninguém via por onde ele passava. Parecia surgir de dentro da terra, estava sempre no jardim. E as flores.. ah, como ele as amava!

⁃ Ele apaixonou-se por você?

_ Sim! E me olhava como se quisesse me devorar. As toupeiras se alimentam de flores. Era assim que ele me olhava, como uma toupeira, fixo, catatônico, hipnótico. Eu não podia me casar com ele, estava noiva de um outro que prometia viajar comigo pelo mundo inteiro, e havia também as diferenças sociais... quando voltei para ele, com o meu casamento fracassado, soube que estava morto, morto de desprezo, de desgosto. Algo em mim nunca aceitara essa morte e o pressentia por todos os cantos da cidade! O seu corpo nunca fora encontrado, e muitas vezes sinto que ele ainda está no terreno baldio que fora um dia o nosso jardim, mas tenho medo de ir até lá...

A cidade hoje era um grande depósito de lixo, Uma grande metrópole vizinha depositava diariamente ali os seus detritos. Caminhões e homens cinzentos trafegavam o dia inteiro entre aves negras e montanhas de carnificina. Uma grande fábrica reprocessava o lixo e mantinha viva a cidade, cujo passado era mais um entulho a ser retirado. Não foi difícil para Hugo arrombar a porta da velha casa de pedra. Estava escuro e ninguém iria reconhecê-lo naquelas trevas. Construída em simetrias bizarras e angulares, o interior da casa resistia ao foco da lanterna, pilares se dilatavam em sombras no assoalho corrompido e teias centenárias refratavam nas gelosias um pálido luar. Flores fossilizadas forravam os degraus da escada por onde Hugo descia com passos teoréticos e olhos inquisitoriais. A porta de um quarto surgiu em sua frente. Alguém havia arrombado-a em busca do desaparecido anos atrás. A umidade e o tempo, enferrujando as dobradiças, ainda tentavam resguardar um segredo violado facilmente pelos ombros de um garoto destemperado.

_ Professor, o que é um fogo-fátuo? A voz soava distante do outro lado do telefone. O professor Rodriques, bêbado e em pijamas, esqueceu por um instante os seus dramas, impondo a gravidade que a erudição reclama: 

_ Isto são horas bem adequadas para se ver um. Estou vendo muitos na janela mas deve ser efeito do uísque!

_ É sério! Mais sério que uma pesquisa escolar...

_ Um fenômeno curioso, meu filho, são combustões espontâneas de gases orgânicos na atmosfera. É comum sua ocorrência em cemitérios ou em depósitos de lixo como esta cidade de onde você me liga. Não se preocupe. Não fique riscando fósforos no meio do lixo e procure dormir. Se quiser fazer uma experiência, aproxime uma chama no seu ânus e solte alguns gases. Você verá os maus-espíritos que habitam em suas vísceras.. ih! ih!ih...

    O que corroía o espírito de Zilda ao contemplar aquele jardim? A brevidade das pétalas abertas, o orvalho que lembrava beijos de despedida, o frescor e a juventude que na linha do tempo ela havia perdido?

_ Oh! Memória, eu te odeio!..._ Gritava Zilda cujo rosto colado no vidro tinha a pele lisa como nos tempos idos. Nos olhos de Quasímodo que ela alucinava havia um brilho que os pirilampos no jardim multiplicavam ao infinito! Breve os enfermeiros viriam buscá-la e ela implorava uma última despedida:

_ Você queria que eu ficasse aqui para sempre ... agora eu quero ficar! Não deixe eles me levarem... Esses passos lá fora... Quem está ai? - Não. Não eram alucinações de uma velha, não era os homens do asilo, Os passos no corredor eram graves e arrastados, com os de um corcunda parecidos. Quando uma pilha de livros velhos e manuscritos apareceram no saguão ouviu-se um grito:

_ Você?

_ Sou eu, vovó! Consegui esses livros no quarto do seu amigo. Estão cheios de anotações. Descobri todo o mistério, vovó, Você não irá para o asilo. Tem mesmo algo estranho por aqui!

Lá fora o fenômeno recomeçava. Zilda e o neto com olhos fixos e reações distintas na janela. Hirtos como os pelos de uma fera, os arbustos eriçavam-se. O animismo latente dos vegetais acordava em noites de sabat e de festas. Seria Pã, cujos gritos de morte se ouviam nas ilhas, renascido naquela cidade deserta? As flores eram colhidas com habilidade de mãos invisíveis, dir-se-ia, e quando arremessadas pelo vento, perto da casa, exalavam o miasma do Styx, dos quatro rios do inferno que sob a terra desaguam (a usina de reciclagem costumava liberar o chorume da compostagem tarde da noite). Que vozes ouvidos diferentes podem recortar nos ruídos que o vento fazia?

_ Zilda! Zilda! Zilda! - Era o seu nome que ela ouvia sussurrando entre as flores e galhos agitados. As pequenas chamas, espiraladas pelo vento insólito que soprava, consumiam como beijos ardentes as folhas ressecadas pela longa estiagem.

_ Esse jardineiro era completamente louco. Vovó. olhe só os livros que ele manuseava: "Enuma Elis - Rituais da Babilônia". "Le Liber Vaccae" de Cornelius Agrippa, "Il Picatrix" do árabe louco Al Gabariz... Veja esse com gravuras do inferno: "A Divina Comédia"; escute isso que ele escreveu em um pé de página: "Quem não morre nessa vida quando morre realmente está arrasado. Três vezes fui ao mundo dos mortos e retornei. Esse corpo miserável onde habito não é o meu corpo verdadeiro, é um acidente da natureza. Sou o vento que borbulhava nos pântanos, sou o elân primevo. A hora da transmutação se aproxima, deixarei meu velho corpo sob a terra que encurva minhas costas, reclamando o seu direito. Voltarei como o vento subterrâneo. Serei todos os avatares das profundezas..."  

- que são avatares, vovó? Vovó? Onde você está?

A porta aberta deixava passar uma rubra luminosidade. O bosque havia se incendiado, ele já sabia antes de descer o último degrau da escada. Teve a impressão de ver ainda o frágil corpo da sua avó entrando nas chamas, girando como se dançasse a última valsa, cantando músicas dos antigos bailes. Uma impressão que lhe deixou perplexo, paralisado. Experimentou um tempo anômalo naquela noite e com surpresa viu o sol nascer! O fogo se extinguindo lentamente, os bombeiros segurando-lhe pelo braço, desculpando-se pelo atraso e carregando na maca um corpo carbonizado.

_ Corcunda miserável! A culpa é sua! O brilho de ódio nos olhos do garoto era a única luz no interior daquele quarto, o quarto do jardineiro que ele havia novamente profanado, tão logo conseguiu se afastar, no velório da sua avó. Duas portas dissimuladas e soltas nas paredes laterais daquele quarto macabro denunciavam a sua respiração descontrolada. As travas corroídas revelava o segredo daquelas portas e o mistério do corpo desaparecido: dois túneis haviam sido ali escavados. Um deles ligava o quarto ao centro do jardim por onde o jardineiro assistia às flores com a precisão de um mágico, o outro se perdia nos subterrâneos da cidade. Hugo sabia de tudo. dos olhares incriminadores no velório, do corpo do jardineiro em algum lugar do segundo túnel escavado. Ele iria procurar o cadáver, voltar para o quarto, usar o outro túnel e sair no centro do jardim onde sua avó desejou ser enterrada. Iria explicar a todos que ela não estava louca, que não vivia torturada por nenhum fantasma, iria explicar a origem do incêndio, a relação dos fogos-fátuos com os dejetos orgânicos da fábrica.

Sua lanterna inseparável iluminava uma sinistra caverna com livros bolorentos, utensílios de um antigo laboratório, uma estufa de flores negras que ainda respiravam não se sabe como e um esqueleto corroído no centro do espaço. Estranhos hieróglifos, sefirots e absurdas mandalas desenhadas na parede eram interrompidas por uma grande erosão. A caverna se comunicava com o esgoto da fábrica. Tudo fazia sentido no mapa que Hugo possuía nas mãos: Quasímodo havia morrido naquele antro em suas alquímicas e imprudentes experimentações. A pressão dos gases havia corroído as laterais da caverna e, preenchendo todo o espaço, subiam pelo túnel, enchiam o quarto, penetravam no outro túnel escavado e exalavam no jardim os fantasmagóricos jatos. Em volta do esqueleto um círculo de palavras douradas invocava uma maldição a quem profanasse o corpo. Hugo venceu um arrepio de medo. apanhou um osso da perna como prova material do esqueleto encontrado, guardou-o no bolso de casaco e saiu correndo da tumba amaldiçoada. Dentro de alguns minutos a fábrica emitiria mais uma descarga de gases. Ele queria chegar antes, antes do enterro, antes que os gases confirmassem a sua descoberta triunfal. No quarto derruba uma foto do que lhe pareceu ser a sua avó quando jovem e adentra o segundo túnel. Os gases já estavam a caminho. Já se ouvia os vagidos do carbono e do oxigênio. Nas galerias estreitas, a ressonância simulava sons inauditos e guturais que a imaginação febril do adolescente convertia-os em gemidos bestiais e uivos prolongados. A caverna parecia estar viva, as paredes brilhavam, as pedras vibravam como crateras de vulcões. Os elementos conspiravam o horror dantesco do cenário. Hugo corria e sentia-se sufocado. Um cheiro pestilento asfixiava-lhe o sentido da realidade. O bater das frágeis portas de madeira animadas pelo vento lhe chegava distorcido e ampliado: "Parecem mesmo com os passos de um homem coxo, de muletas". Pensou, quase sorrindo. Não conseguiu manter o mesmo humor quando os ruídos modularam em seu ouvido um grito metálico e vicinal:

_"Devolva minha perna, filho de uma cadela!" - Aquilo já era delírio demais. Era preciso sair urgente daquele lugar. O jardim estava próximo, já se ouvia os prantos do enterro. Se conseguisse dar mais alguns passos... Não conseguiu! Alguém segurou-lhe por trás!

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