Havia nas tortuosas dobras de uma cordilheira azul um castelo forrado em musgo e flores escuras, em brumas e sombras habituado. Seus habitantes, reis de prístinos olhos e fronte diamantina, raramente se mostravam à luz baça do sol, preferindo a companhia radiante da princesa Israela que parecia, enfim, concentrar todas as qualidades da sua mítica linhagem! Sua voz, todavia, suplantava todos os atributos que a realeza colecionava e quando ela falava ouvia-se pássaros melífluos e fontes canoras ressoarem nas câmaras escuras do palácio. Súditos das longínquas fronteiras viajavam semanas na esperança de ouvirem o canto da princesa e a superstição crescia entre o povo de ser esta voz, encarnação dos primeiros reis divinos, capaz de operar curas e milagres. A princesa crescia e o sol interior do seu pensamento, antes uma aurora rósea dissipando as trevas do reino, brilhava agora no esplendor da justiça, do entendimento e da verdade. Na corte do rei, seu orgulhoso pai, ela insinuava-se aos poucos e quase sempre o veredicto final provinha de suas palavras. Os pretensos poderes mânticos da sua voz cediam lugar a enunciados ordálicos regendo com fulgor os litígios e os problemas do reino e muitos, preferindo a "superstitio imogina et prava", aos cruéis desígnios da verdade, começaram a odiá-la. Servos mutilados que lhe visitavam sem conseguirem a cura esperada ressentiam-se pelas estalagens produzindo fábulas; falavam em um pajem astucioso que, vedando com cera os ouvidos, havia se aproximado sem temer a hierarquia que os acordes perfeitos ilustravam, seduzindo- a e fugindo em seguida, deixando-lhe o espinho do desprezo encravado na garganta e transmutando a magia em rancorosas sentenças, em juízos preclaros. Por esta calúnia ou pela superstição insuportável dos vassalos, a princesa um dia se cansou dos tribunais, em plena juventude abandonou a sala de armas onde o rei julgava e se trancou em seu quarto em noites taciturnas e dias inefáveis. Apenas a rainha, sua mãe, tinha o privilégio de ouvi-la e com mais ninguém ela falava. Quis o tempo que o rei, curvado pelos anos e pelo cetro, temesse cair o trono em mãos de parentes meliantes e primos bastardos. O casamento de sua filha tornara-se uma necessidade irrevogável. A resistência da princesa aos planos do seu pai transparecia na forma de um capricho astucioso por ela condicionado: o casamento só se realizaria com um pretendente que lhe fizesse falar outra vez, ressuscitando-lhe o gosto da poesia e a magia da linguagem. A notícia de uma princesa encantada, de um rei poderoso e sem herdeiros, de um trono disponível cujo único dote exigido era fazer uma jovem falar espalhou-se pela terra como fábulas na boca dos poetas, como segredos no canto dos pássaros, como régia deliberação na trombeta dos arautos. Em breve o pátio do castelo amanheceu com alaridos de uma feira medieval: bosta de cavalo por todos os lados, cavaleiros em malhas de bronze e com olhos de águia, comerciantes obesos com cabelos perfumados, trapezistas petulantes e príncipes estrangeiros ensaiando com tradutores a sintaxe de uma língua bárbara. A princípio o poder o o gáudio dos pretendentes era o critério ordinário e na grande salão do palácio, nas entrevistas ao cair da tarde, eram príncipes valentes e nobres afortunados quem aos olhos da princesa se apresentavam. Sentada ao lado dos pais, ela ouvia entediada a promessa de viagens fabulosas de nações luxuosas e súditos cordiais aos seus desígnios e vontades, de ilhas edênicas e bibliotecas circulares. Um leve desdém nos lábios da princesa era o sinal de que nada daquilo lhe interessava e com polidez os pretendentes eram despedidos e presentes eram trocados. Nas águas do rancor a nobreza diluía e se afogava, emergindo no salão os comerciantes, bufões, trapaceiros e palhaços. Perdido nas colinas o castelo parecia um grande circo onde o som das fanfarras e diálogos picarescos nas estrebarias e estalagens sufocavam o pranto do velho rei e os sonhos de um herdeiro das glórias ancestrais. Agora mágicos orientais ofereciam à princesa a chave dos paraísos perdidos, o sétimo céu das arábias, a pedra filosofal e o fogo de Zoroastro: truques baratos com cartas de baralho, arcanos do tarot e os prazeres ilimitados da carne com homens em Kamasutra doutorados, tudo era-lhe oferecido em troca de uma única palavra. A princesa sorria, se espantava, dilatava as pupilas, mas a áurea boca não se abria senão para emitir um significante bocejo que enxovalhava os pretendentes e fechava as portas do palácio. Para evitar a degradação moral do seu reino, aquela anarquia descoroada, o monarca decretou um cruel edito: o pretendente rejeitado seria decapitado e sua cabeça pendurada em mastros fora das muralhas espantaria a trupe dos falsários. Em poucos anos o cenário se transformou. A decadência do reino encontrava sua expressão sublime no castelo sombrio e abandonado, no mutismo fenecido da princesa, na velhice angustiada dos monarcas. Em ocasiões esporádicas, homens ambiciosos que nada tinham a perder, amando a morte e o poder com a mesma intensidade, apresentavam-se apostando no acaso. fitavam em silêncio a princesa e suas caveiras, enfileiradas na estrada tortuosa que circundava o castelo, combinavam com as brumas negras, com os corvos em revoada, com o mausoléu de pedras onde a princesa se enclausurava. Por este cenário, um dia raro com raios de sol acendendo o dourado dos trigais, um viajante chegou caminhando com decisivos passos. Cruzava o pais sem destino e vendo as caveiras penduradas interrogou os camponeses sobre o que se passava. A estória se ramificava em casos particulares e disparata- dos. O viajante se divertia com o caso de um suicida que entrara um dia na corte, insultou os monarcas, fez gestos para a princesa e diante do silêncio estupefato gritou "cortem minha cabeça, por favor, eu já não aguento mais viver"! O rei aquiescendo consternado. Fez-se noite e o viajante dormiu ali mesmo sob a caveira do pretendente aliviado. Talvez o luar ou o rouxinol que trinava tenha lhe inspirado o plano que o levantou antes da aurora levando-o a procurar a princesa traumatizada. O rei, próximo da morte, já não se preocupando em saber que parente distante herdaria o seu reino, nem qual convento onde seria sua filha internada, havia adquirido um grande prazer em ver os homens decapitados e mirava com olhos vampirescos o pescoço do jovem recém-chegado. Outra vez a cena se repetia no salão mal iluminado: o rei e a rainha em sonambúlica atividade, um anão e um corcunda que serviam como testemunhas e os guardas cujas mãos se prolongavam em afiadas espadas. A princesa Israela, bordando um lenço com fios de prata, aparece no camarote quase por acaso, cinco minutos atrasada. Usava um vestido púrpura e parecia ter não somente a voz fascinante mas também a beleza e a juventude congeladas em seu rosto espectral, em seu corpo fantasmático. O viajante acenou com gravidade e pediu permissão aos monarcas para narrar uma estória que ele havia presenciado. Curiosa, a corte aquiesceu com ouvidos maiores que as terras da comarca. Com voz desembaraçada ele narrou:
_"Posso fazer uma ideia do esforço e da sabedoria com que serei julgado. A poucos meses atrás, cruzando as terras do norte, fui convidado para julgar uma questão não menos pretenciosa, não menos complicada. Conheci três irmãos que o destino separou e os reuniu outra vez nas legiões de uma guarda imperial. Os três serviam em um posto avançado na fronteira, encravado nas florestas negras, em remotos vales. O mais velho era lenhador e, quando podia, esculpia peças ornamentais em troncos e galhos derrubados. O segundo, despojado de terras, raízes e árvores, viajava pelo vasto mundo comercializando joias, perfumes e exóticos adornos orientais O terceiro irmão havia escolhido trilhar o mundo das letras, floresta mais negra e joia mais rara e brilhou por alguns anos como conselheiro áulico, até a guerra os reunirem nos uniformes de soldados. A monotonia daquele posto cujos sinais de bárbaros invasores se resumiam a gritos de animais assustados, levou os irmãos a retomarem um antigo hábito: o jogo de cartas. A cada noite um deles era sorteado para fazer a ronda noturna enquanto os outros dois jogavam partidas intermináveis. O mais velho, escultor, inquieto demais para a função, dava longos passeios noturnos quando sorteado sonhando com as formas do bosque que a escuridão da noite configurava. Conhecia os veios da madeira, suas secretas afinidades e a simpatia das formas universais. Uma noite, como se guiado pela vida magnética dos vegetais, ele encontra um tronco de árvore com formas semelhantes ao corpo de uma distante amada, com disposições intrínsecas para ser a cópia não degradável de alguém que o tempo devorava. Usando suas ferramentas, ele derruba a árvore e esculpe no tronco um corpo moreno com formas sinuosas e juvenil idade. Constrói perto do posto um santuário onde deposita o ícone ornando-com flores e conclui o altar aos primeiros raios da aurora. Na noite seguinte, O sorteado para a vigília fora o segundo irmão, o mercador das arábias. Passeando pelo bosque ele encontra o santuário com a estátua esculpida e em tudo semelhante a uma mulher que ele havia amado! Habituado ao segredo manifesto das coisas, às maravilhas em exóticas terras presenciadas, ele se limitou a ornar a imagem com joias e adereços, vestidos e resinas perfumadas e passa a noite ajoelhado, venerando a misteriosa encarnação do seu passado que a aurora de dedos róseos suavemente acariciava. A terceira noite foi a vez do último irmão, o estudioso de magia, que, aos primeiros movimentos pelo bosque, surpreende o ídolo de madeira tão bem constituído que lhe fez de imediato lembrar-se de Galateia, a estátua por quem Pigmaleão caíra apaixonado. A memória e o afeto dos dois irmãos impregnavam a úbere madeira, insuflando-a de graça e uma pre-individualidade enfeitiçava o jovem soldado. Como ela se parecia com uma amante do passado! Nos longos anos curvado sobre os livros ele havia aprendido todos os segredos da Cabala, conhecia as incorpóreas palavras com que o mundo fora criado, a pronúncia adequada, o timbre exato. Temia usar esse poder interferindo assim na fantástica ordem do universo capaz, entre outras coisas, de gerar uma deusa no fundo negro de uma floresta. Mas tudo conspirava. Uma nuvem negra rasgava-se nos cornos a lua quando o estudante soprou as palavras mágicas e uma nova Eva surgiu dos bosques - completa! Anímica, perfumada! Suas primeiras palavras tinham o frescor da madrugada e o brilho flamejante do sol que despontava. Quando cruzei a fronteira encontrei os três irmãos em disputadas questões sobre o direito conjugal com a estátua em carne e espírito transmutada. Nomeado juiz deste caso, não refleti muito tempo e proclamei o veredicto necessário: por direito ela pertencia ao escultor que lhe havia dado a "matéria signata quantitate" a "condicio sine qua non", as condições de possibilidade.!"
Ouvindo com atenção extremada a estória do viajante, a princesa sentia o sal da injustiça arder em sua carne. Levantou-se e com voz embargada gritou para O narrador no salão do palácio:
_ Conheço esse argumento falacioso, um "Reduccio ad Absurdum", como diriam os escolásticos. Por ele o guarda florestal, o proprietário das terras, o rei - e mesmo Deus - poderiam reclamar a posse da ex-estátua. O verdadeiro proprietário é o estudante que lhe deu a forma última, a "Hecceitas", quem insuflou a matéria de espírito e arte!
O anão vibrava e dava cambalhotas, o corcunda gritava "Milagre, a princesa falou! Milagre!
O viajante esperou o silêncio para a réplica ensaiada:
_ Nobre Israela, em cujos lábios emana a verdade clarividente e universal, a nossa situação é análoga e possa o teu juízo iluminar também este caso. Será somente a sua mãe, quem lhe deu a carne e os ossos, a ouvinte privilegiada? É justo ser o teu pai, quem lhe vestiu com hábitos e educação esmerada, o seu exclusivo proprietário? Eu, quem lhe fez falar outra vez, devo ter como recompensa o fio das espadas?
A princesa admirava a complexão de ousadia, sutileza e trapaça Havia caído na armadilha e descia as escadas resignada. O rei com as mãos perdidas na barba sussurrava a sua consorte sentada ao lado:
_ Em breve teremos um herdeiro se é verdade que um filho possa ser, pelos ouvidos, engendrado! _ concluiu enigmático. A princesa, porém, estancou os passos nos últimos degraus. A expressão de antigos caprichos brilhava em sua face.
_ Não irei me casar com esse trapaceiro. Retiro todas as minhas palavras! - Disse ela.
_ Isto fere a lei! Isto não é direito! - Gritou o viajante desesperado. rei levantou-se. Bramia o cetro como um cajado e explicou:
_ A nobreza é quem institui o direito e o bem é o que diz as suas leis! Cortem-lhe a cabeça!
No dia da execução foi concedido ao viajante um último desejo. Ele queria um novo encontro com a princesa. Tinha outros artifícios para convencê-la além das palavras. A princesa lhe respondeu com um pequeno bilhete onde se lia: "Nos encontraremos. como nuvens de ouro em pó, nos ventos da eternidade!" A promessa de uma núpcia celestial sem leis arbitrárias, sem discussões intermináveis confortou a sua alma e lhe fez entregar, sem resistências, a cabeça ao carrasco.






0 comentários :
Postar um comentário