terça-feira, 24 de março de 2026

FEITIÇOS DE AMOR NO SERTÃO MITOLÓGICO


 



      Existiu há muito e muito tempo, em terras ignotas e hoje lendárias, uma nobre senhora que também era poetisa, respondendo pelos ofícios religiosos da sua paróquia e chefiando a antiga confraria de poetas profissionais, aqueles que cantavam as gestas e linhagens dos reis e reforçavam com estes cantos, a soberania real, sempre ameaçada por impostores. Seu nome, segundo os farrapos de pergaminhos encontrados em uma igreja em ruínas, nos vales chuvosos da Serra do Sincorá, no Sudoeste baiano, era Lidianny de Gramoise, nome artístico certamente. Um dia ela partiu com seu séquito de vinte e quatro alunos-poetas, como era o costume imemorial, em uma procissão poética, ou circuito de visitas onde, entre outros, o poeta Palmyrin, avô ou bisavô de Catulo da Paixão Cearense, fez um banquete de cerveja para ela e ela se apaixonou por ele.

O momento exato dessa flecha de Cupido lhe atravessar o peito já gamado por trovas e versos, ocorreu durante uma exibição pública de poder encantatório, quando os poetas que participavam desses saraus em pátios de fazendas e salões paroquiais, exibiam o poder mântico e encantatório de seus versos. Palmyrin levou todos os trovadores presentes no grande encontro anual de repentistas e trovadores, no assentamento de Penedo, às margens do rio São Francisco, e pediu que abrissem as portas enferrujadas do paiol de grãos do Imperador, onde uma infestação de ratos se multiplicava com sanha incontrolável e, dali, espalhando a praga para todas as lavouras do condado. Palmyrin versejou bem alto com gutural arremedo de um trovão tonitruante:

ratos podem ter compridas fuças,/

Mas são covardes durante as escaramuças! 

E repetindo este verso como um salmo que se repete até enfeitiçar a mente do rezador, partiu pra cima dos monturos de ratos escuros no interior sem luz do paiol. Munido de um grosso cajado de aroeira, ia Palmyrin distribuindo pauladas sobre os ratos hipnotizados, que saíam timoratos e de cabeça baixa de dentro do bando, para, um por um, oferecerem suas cabeças horripilantes ao inclemente bordão que lhes macetavam o crânio espirrando sangue pelo quintal, em guinchos que assustavam a lua, fazendo-a se esconder sob as nuvens indiferentes do Sertão. O coração de Lydianne se rendeu a tão poderoso trovador. Ele sentiu um amor correspondente e perguntou-lhe após o banquete: "Por que não deveríamos nos casar? Um filho nascido de nós seria famoso". Ela respondeu: "Agora não, isso estragaria meu circuito de visitas poéticas. Venha a mim ano que vem na Fazenda Cremosinha - corruptela talvez do seu gentílico Gramoise - e eu irei com você". Então ela começou a remoer as palavras dele, e quanto mais remoía, menos gostava delas: ele falara não do amor deles, mas apenas da fama deles e de um filho famoso que um dia poderia nascer para eles. Por que um filho? Por que não uma filha? Estaria ele avaliando os dons dele acima dos dela? E por que contemplar irrelevantemente o nascimento de futuros poetas? Por que Palmiryn não se contentava em ser ele próprio um poeta e viver na companhia poética dela? Gerar filhos para tal homem seria um pecado contra si mesma; no entanto, ela o amava com todo o seu coração e prometera solenemente ir com ele.

Assim, quando Lydianne terminou seu circuito de visitas às casas dos coronéis e reis de Sincorá, trocando sabedoria poética com os poetas que lá encontrou e recebendo presentes de seus anfitriões, ela fez um voto religioso de castidade que somente a morte poderia quebrar; e fez isso não por qualquer motivo religioso, mas porque era uma poetisa e percebeu que casar-se com Palmyrin destruiria o vínculo poético entre eles. Ele veio buscá-la logo depois e, fiel à sua promessa, ela foi com ele; mas, fiel ao seu voto, ela não se deitou com ele. Oprimido pela dor, ele fez um voto semelhante. Os dois então se colocaram sob a direção do severo e suspeito Beato Siloé, que deu a Palmyrin a escolha de ver Lydianne sem falar com ela, ou falar com ela sem vê-la. Como poeta, ele escolheu a fala. Alternadamente, cada um vagava ao redor da cela de vime do outro no assentamento monástico do beato Siloé, um misto de orfanato, monastério e hospital nas barrancas do São Francisco, sem nunca terem permissão para se encontrar. Quando Palmyrin finalmente persuadiu Lydianne a relaxar a severidade desta regra, Siloé imediatamente os acusou de falta de castidade e baniu Palmyrin do assentamento. Palmyrin renunciou ao amor, tornou-se um peregrino, e Lydianne morreu de remorso pela vitória estéril que conquistara sobre ele. Os moradores mais antigos de Contendas do Sincorá, entre eles alguns tios-avôs maternos que ainda tenho por lá, quando contam essa história, acrescentam ao velho pergaminho - hoje guardado em um fedorento museu na capital do estado - outro desfecho. Lydianne, tomada por desgosto e desespero, renunciou a sua fé e procurou uma cigana mestre de feitiços e encantos (vi a suposta casa dela em ruínas quando visitei estes meus parentes na década passada). Após um soturno sortilégio feito durante a quaresma, a cigana Carmita transformou Palmyrin em um gavião e Lydianne em uma raposa do pelo dourado, feitiço esse que só funcionava quando a lua surgisse atrás da serra e lançasse sobre eles seus raios morféticos. Transformados assim, eles poderiam percorrer as distâncias do mundaréu que os separavam e  celebrar nas campinas suas bodas contra natura, pois que o voto de castidade era mais forte do que o feitiço e o amor tivera que se contentar com esfregaços de penas, abraços de longas asas sobre a cauda de ouro e  arrepios apaixonados do pêlo inspirado da poetisa Lydianne no bico entumecido do gavião Palmyrin, entre os galhos perfumados e rasteiros da açucena, nas altas cabeceiras enluaradas do meu inesquecível Sertão!*

* Ao ouvir esta versão dos meus antepassados, duas impressões assaltaram minha mente curiosa quanto a origem deste desfecho, feito a coda que os repentistas usam para encerrar seus cordéis encantados. A primeira impressão foi de terem usado o enredo de um clássico filme dos anos 80, O Feitiço de Áquila, com Ruth Hauer e Michele Pfiffer, sobre um casal de apaixonados transformados em animais por um feiticeiro macabro, que conseguem se ver nos raros minutos entre o dia e a noite (ele vira lobo pela noite, ela, uma águia durante o dia). Um filme de sucesso retumbante e exibido várias vezes em sessões vespertinas na televisão. Outra hipótese, bem mais improvável, seria a de que, junto à tradição que manteve viva essa historieta no imaginário popular, viesse também, e de contrabando, a moral dos tempos encantados quando os poetas abundantes vagavam pela terra. Nesta moral, conhecida como a Erótica dos Trovadores, e eternizada pelo pesquisador francês Rene Nelli em obra homônima, os trovadores viviam em um estado de "Amor Imanente", um amor que não precisava ser correspondido nem consumado em leitos nupciais, sem contudo ser um amor platônico por musas ideais. O amor dos trovadores se realiza na produção expressiva de cantos e versos sem fim, em bodas contra natura de corpos cantores e estrofes encarnadas por violas e vozes ardentes, em livusias de penas aladas e arrepios de ouro nos murundus de Aletheia, onde a Verdade e a Poesia se entregam em feitiços de amor que atravessam, como flechas de cupido, o coração dos séculos... Vai saber!


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